Hu Jintao, nova peça do quebra-cabeça chinês

No palco mundial, ele é o homem que todo mundo quer conhecer - e poucos o conseguem. O vice-presidente Hu Jintao está na fila para ser o próximo líder da China. Poderia ocupar o cargo durante 15 anos, enquanto seu país se atraca com a reforma econômica e com pressões para que haja mudanças políticas, o que o torna alvo de intensa curiosidade.Mas até agora Hu é um enigma. Seu currículo formal é bem conhecido - escola de engenharia, secretário do Partido Comunista no Tibete, na faixa dos 30 anos era o membro mais jovem do núcleo do partido. Mas, quando se trata de saber para onde ele quer levar a China, Hu, de 59 anos, guarda suas opiniões para si.CasuloOutsiders têm poucas chances de sondar mais fundo. Hu nunca deu uma entrevista à mídia estrangeira nem se reuniu com um diplomata americano. E, quando o presidente George W. Bush visitar Pequim esta semana, não há indícios de que vá ver Hu."Ele é mantido num casulo", disse Richard Baum, especialista em política chinesa na Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Tudo o que temos são fragmentos de sua carreira política, junto com alguns rápidos flagrantes dele em situações bem encenadas."Sem o dizer abertamente, a China apresenta Hu como evidente herdeiro do presidente Jiang Zemin. Prevê-se que Jiang, que, aos 75 anos, está no poder há mais de uma década, vá entregar seu cargo de secretário-geral do Partido Comunista neste ano e se aposentar como presidente no próximo.EstréiaHu estreou no palco mundial em outubro, com uma visita à Europa. Ansiosos para avaliá-lo, os líderes de Rússia, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha prodigalizaram-lhe hospitalidade. Mas as conversas foram sobre antiterrorismo e outros assuntos seguros. Nenhuma revelação surgiu.Funcionários do governo britânico disseram que Hu e o primeiro-ministro Tony Blair tinham "química pessoal excelente". Acrescentaram que Blair trouxe à baila a questão dos direitos humanos, mas não deu nenhum indício de que Hu tivesse rompido seu silêncio a respeito de democracia, globalização e outros assuntos polêmicos.Num de seus únicos encontros com um alto funcionário do governo americano, Hu trocou saudações em 1998 com o então presidente Bill Clinton, no aeroporto de Pequim, durante a visita de Clinton à China.Segunda mãoCom pouco acesso a Hu, observadores dos assuntos chineses caçam pistas de segunda mão. Concentram-se em parte na Escola do Partido, na periferia de Pequim, onde Hu é presidente e especialistas estudam partidos políticos social-democratas da Europa, economia de livre mercado e administração no Ocidente.A tarefa é ousada para uma escola criada com o objetivo de formar quadros segundo o dogma marxista. Mas líderes comunistas defrontam-se com enormes desafios à medida que abrem a economia da China à concorrência estrangeira, na esperança de elevar o padrão de vida e fazer com que o governo seja mais sensível à população, enfurecida com a corrupção generalizada."Penso que eles estão bem cientes de que não podem continuar o jogo da economia aberta e da política fechada", disse Baum.PenumbraA luta para conhecer Hu é ainda mais problemática porque ele se manteve na penumbra durante uma década enquanto era preparado para suceder Jiang. Também Jiang era um mistério em 1989, quando foi promovido pelo então líder Deng Xiaoping, o arquiteto das reformas econômicas na China, para sanar os males de um partido quase desagregado na luta pelo poder.Mas Jiang foi uma escolha feita de surpresa, arrancado do posto de secretário do partido em Xangai. Ele está no topo da política chinesa desde que foi nomeado para o Politburo da agremiação em 1992. Praticamente na mesma época, Deng recomendou que Hu fosse o sucessor de Jiang.

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