Hugo Chávez e a Venezuela depois dele

Governo constrói monumento para depositar restos mortais de Bolívar, mas especula-se que o presidente teria um lugar cativo no mausoléu

PETER WILSON, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h07

Muitas acusações foram feitas ao longo dos anos contra o presidente venezuelano, Hugo Chávez, exceto a de ser uma pessoa sutil. Em meio a sua luta contra o que se supõe seja um câncer terminal, ele está construindo um edifício mirabolante de US$ 140 milhões para abrigar os restos mortais do fundador da Venezuela, Simón Bolívar. E correm boatos de que a construção se destinará ao próprio Chávez.

Acabar com um déficit de 2 milhões de casas populares na Venezuela é uma das principais prioridades da revolução socialista do presidente, principalmente com a aproximação das eleições de 7 de outubro. O mais recente projeto "habitacional" do governo, porém, o edifício milionário destinado a um único homem, provocou contestações quanto às prioridades e motivações de Chávez.

Ele deverá inaugurar o imponente mausoléu de 49 metros de altura, resistente a terremotos, para abrigar os restos mortais de Bolívar. O projeto está envolvido em grande segredo e sofre com estouros seguidos do orçamento e atrasos na construção. Muitos venezuelanos, por outro lado, alimentam a persistente suspeita de que o mausoléu possa se destinar ao próprio presidente.

"É um monumento à megalomania de Chávez", comenta Juan de Dios, diretor da Sociedade Bolivariana, com sede em Caracas, uma organização que procura manter viva a memória e o legado do Libertador, como Bolívar é conhecido. "É um exagero."

Bolívar é um herói na Venezuela e na maioria dos países da América do Sul por sua luta de libertação das colônias espanholas do continente, no século 19. Bolívar, um dos poucos personagens históricos que ganhou um país com seu nome, é considerado um dos líderes políticos mais influentes da América do Sul.

Nos últimos 170 anos, os restos mortais de Bolívar repousaram no Panteão Nacional, uma antiga igreja neogótica perto do centro de Caracas. Bolívar morreu na vizinha Colômbia, em 1830, aos 47 anos. Seu corpo foi levado para a Venezuela em 1842 a pedido do governo da época.

No panteão repousam também mais de cem famosas personalidades venezuelanas - e é aí que está o problema. Na Venezuela de hoje, muitos dos antigos patriotas, agora, são olhados com desconfiança. "Muitos dignitários sepultados no panteão não são heróis de verdade", afirmou o vice-presidente Elías Jaua, quando o governo anunciou que estava planejando um novo edifício.

Ali estão sepultados os ex-presidentes Cipriano Castro e Antonio Guzmán Blanco, cuja história é bem pouco clara, na melhor das hipóteses, e cujas gestões se caracterizaram pela corrupção.

"Em 2008, o governo nos apresentou a ideia de um modesto mausoléu, que não destoaria dos arredores", diz Juan de Dios, referindo-se ao bairro onde se localiza o panteão. "Essa parte de Caracas é uma das poucas que ainda conserva alguns edifícios em estilo colonial."

No entanto, modesto não é o termo mais adequado para descrever o resultado final. O edifício de 17 andares ergue-se acima dos dois campanários do panteão e sua construção exigiu 2,6 mil toneladas de aço (apesar da escassez de vergalhões na construção civil em todo o país). O novo prédio localiza-se exatamente atrás do panteão, cuja parede posterior foi demolida para unir as duas estruturas por meio de uma passagem de vidro.

Um lado do mausoléu tem a forma de uma enorme parede côncava e íngreme, revestida de azulejos espanhóis brancos, que já foi comparada a uma rampa de skate - ou a coisa pior, segundo os mais críticos. "Parece uma gaiola do King Kong", disse Ramón Olivares, estudante de belas artes, diante da estrutura.

Seu amigo, Pedro González, que cursa design de interiores, fez uma careta e afirmou: "Você está sendo muito bonzinho. Ela é exagerada e não se harmoniza com o ambiente. Suas linhas não são fluidas e sua presença incomoda."

No interior, no soturno hall de mármore preto, o sarcófago de madeira de Bolívar, com pedras preciosas engastadas, será instalado no centro do mausoléu, ladeado pelas bandeiras dos seis países - Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Panamá - que Bolívar libertou.

Fora do mausoléu, a praça pré-existente foi ampliada. Nela foi instalada uma estátua de aço em homenagem a Manuela Sáenz, a companheira de muitos anos de Bolívar. Como parte do projeto, o governo poderá construir também 800 casas populares, o que provocou mais ceticismo ainda. Embora se trate de uma iniciativa populista, muitos não consideram a sombra do túmulo do libertador um local apropriado para um projeto habitacional.

O custo original do projeto era US$ 78 milhões. De início, o governo tentou levantar recursos pedindo aos venezuelanos que doassem 1 bolívar cada um, mas, em maio, aumentou o orçamento em mais US$ 52 milhões, que sairão dos cofres públicos.

Embora não tenha sido confirmado, o mausoléu seria a obra do ministro da Transformação Revolucionária da Grande Caracas, Francisco Sesto. Chávez criou o cargo para driblar a prefeitura da cidade depois que o Partido Socialista perdeu o controle dessa parte da capital, nas eleições de 2010. Nunca foi aberta uma licitação que envolvesse esse contrato de construção, mas existe um consenso segundo o qual Sesto, um arquiteto nascido na Espanha, recebeu importante apoio de Chávez.

"Sesto não quis ouvir ninguém", disse Juan de Dios. "Fazíamos uma sugestão e ele não nos dava atenção." Sesto recusou-se a dar entrevista para a elaboração deste artigo.

O projeto recebeu opiniões das mais variadas e bastante divididas, segundo as simpatias políticas dos críticos. Os partidários de Chávez afirmam que o mausoléu é necessário, enquanto seus adversários, entre eles o candidato da oposição nas eleições presidenciais, Henrique Capriles, dizem que o dinheiro poderia ter sido gasto de maneira melhor, principalmente no momento em que a dívida externa da Venezuela é enorme e o país tem outros problemas, como a criminalidade extremamente elevada, a inflação alta e um crescente desemprego. A melhor maneira de homenagear Bolívar é "solucionar os problemas dos venezuelanos", afirmou Capriles.

Enquanto isso, assim como muitos políticos venezuelanos, Chávez procura consolidar suas credenciais presidenciais definindo sua revolução populista como a extensão natural dos princípios e dos pensamentos de Bolívar.

Onipresença. O Libertador é uma presença onipresente no país. Quase todas as cidades e centros menores têm uma Praça Bolívar com uma estátua do segundo presidente venezuelano. A maioria das cidades tem uma Avenida Bolívar e a moeda venezuelana, o bolívar, também tem o seu nome.

O retrato de Bolívar enfeita as repartições públicas e as notas da Venezuela têm sua efígie. O número dessas homenagens aumentou continuamente no governo Chávez, que mudou o nome do país para República Bolivariana da Venezuela, em 1999, e, posteriormente modificou, a bandeira e o escudo.

Em seus discursos, Chávez menciona constantemente Bolívar, que, com Jesus Cristo e Fidel Castro, constitui uma espécie de trindade. Segundo o presidente, Bolívar foi um firme opositor dos Estados Unidos, do capitalismo e dos oligarcas de toda a região. Entretanto, os historiadores estão divididos quanto à veracidade dessas afirmações.

"Chávez busca em Simón Bolívar a inspiração do seu movimento bolivariano, em parte porque Bolívar é um gigante da história da Venezuela - uma combinação de George Washington, Abraham Lincoln e Jesus Cristo numa só pessoa", diz Bart Jones, autor de um livro sobre a revolução chavista. "Para Chávez, Bolívar personifica a verdadeira democracia e uma sociedade em que a imensa riqueza petrolífera da Venezuela não pertence a uma oligarquia corrupta, como ocorreu durante épocas, mas é distribuída de maneira mais equitativa entre as massas."

A obsessão por Bolívar aumenta especialmente quando o presidente procura estabelecer paralelos entre seu movimento e o do seu herói em suas campanhas eleitorais. Ambos enfrentaram a oposição dos ricos oligarcas, afirma reiteradamente Chávez. E ambos sofreram ameaças de morte dos seus inimigos. Bolívar escapou de várias tentativas de assassinato, enquanto Chávez sobreviveu, por pouco, a uma tentativa de golpe em 2002.

No entanto, a obsessão começou a ficar exagerada em 2008, quando Chávez pediu uma investigação sobre a morte de Bolívar. Embora o Libertador tenha morrido de tuberculose, em 1830, Chávez disse que tinha dúvidas - segundo teorias da conspiração bastante difundidas, na realidade, ele foi envenenado - e ordenou a exumação seus restos mortais em 2010.

Depois de exames aprofundados, especialistas disseram que tudo indica que Bolívar morreu de causas naturais. Os resultados, contudo, não convenceram o presidente. "Minha avó morreu de tuberculose e eu sei como são essas coisas", disse Chávez em coletiva na televisão. "A morte de Bolívar foi diferente." Obstinado, o presidente também questionou se os restos mortais seriam mesmo de Bolívar.

Chávez apresentou, então, uma imagem do rosto de Bolívar em 3D feita por computadores, elaborada por artistas forenses que estudaram o crânio do herói e apresentada durante um pronunciamento à nação que Chávez obrigou todas as estações de TV e rádio a transmitir.

A imagem se parecia com retratos anteriores de Bolívar, com exceção da cor da pele, de um tom azeitonado, sugerindo que ele era um mestiço - quando não era -, com os lábios cheios e o nariz mais largo, indicando os traços de ascendência africana. Segundo os críticos, Bolívar foi modificado para ser mais politicamente correto. "Eles estão brincando com a sua imagem", disse Juan de Dios. "Estão manipulando a história."

Muitos suspeitam que a obsessão do presidente por Bolívar ocorre, em parte, em razão da batalha que ele trava contra o câncer. Embora afirme que esteja completamente curado depois de três cirurgias, sessões de quimioterapia e radioterapia, as dúvidas persistem.

Em público, Chávez caminha lentamente e usa uma maquiagem pesada. Comícios e eventos públicos são frequentemente cancelados, alimentando os boatos de que o mausoléu poderá, um dia, conter os restos mortais de outra pessoa além de Bolívar.

Um site reconhecidamente duvidoso dedicado à saúde do presidente, o SOSCháveznet, afirma que as companhias que trabalham no mausoléu foram instruídas para preparar duas tumbas no interior da construção.

Chávez não se pronuncia a respeito dos boatos. "Estou ótimo", disse o presidente a jornalistas estrangeiros recentemente em uma entrevista coletiva na qual não quis fornecer detalhes sobre sua doença. Um porta-voz do palácio presidencial não comentou se o mausoléu se destinará a outra pessoa além de Bolívar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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