'Hula é um aviso sobre como seria guerra civil'

Brasileiro que comanda inquérito sobre crimes na Síria alerta para risco de ver novos massacres caso mediação fracasse de vez

Entrevista com

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h20

Caberá ao brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro investigar o massacre de Hula, na Síria. Chefe da comissão instaurada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para investigar o crime, ele apresentará um informe completo no dia 27. Investigações preliminares indicam que grande parte das vítimas foi executada por milícias que apoiam o ditador Bashar Assad. Em entrevista ao Estado, o brasileiro fez um alerta: se o plano de paz do emissário internacional Kofi Annan fracassar, massacres como o de Hula podem virar rotina. Pinheiro criticou a expulsão de embaixadores sírios e alertou que a única via para superar a crise é a mediação de Annan. A seguir, os principais trechos da conversa.

Vimos uma escalada da tensão nos últimos dias na Síria, principalmente após o massacre de Hula. Como o sr. vê a situação?

Minha posição continua a mesma: a militarização da crise não ajudará em nada. Não há uma solução militar. Não existe uma alternativa à negociação.

Mas enquanto Annan tenta mediar a crise, a oposição alerta que os massacres continuam.

O último massacre, o de Hula, é um exemplo do que pode vir a ser a Síria em uma situação de guerra civil. O que ocorreu la é uma mensagem clara a todos do que pode ocorrer de uma forma generalizada, à medida que os dois lados incrementarão suas ações e receberão armas de governos estrangeiros.

Há quem diga que o massacre do sábado foi uma espécie de prova de que os observadores da ONU na Síria não estão diminuindo a violência. O sr. concorda?

Se não fosse pela presença de observadores, nem sequer saberíamos desses massacres. Em algumas áreas, a presença deles permitiu uma certa redução da violência.

O sr. acredita que a missão de Annan e dos observadores deve ser mantida?

Não existe um plano B. Só nos resta trabalhar nessa mediação. Não é fácil, mas precisamos trabalhar nela.

Qual a opinião do sr. sobre a decisão de governos de expulsar embaixadores sírios? Isso dificulta a mediação?

Governos são soberanos para fazer o que querem. A ausência desses interlocutores, no entanto, dificulta o diálogo.

Quais devem ser os próximos passos para se evitar que novos massacres ocorram?

Violações bárbaras ocorreram na Síria nos últimos meses. O que chamou a atenção no caso de Hula foi o fato de incluir tantas crianças. Alerto que esse tipo de massacre se repetirá se a missão da ONU não for fortalecida. Hula foi um aviso do que poderá ser a guerra civil na Síria. Serve para chamar a atenção da comunidade internacional sobre o que pode ocorrer.

Como o sr. pessoalmente atuará nas próximas semanas?

Continuo solicitando minha entrada na Síria. Mas, mesmo sem entrar no país, o trabalho da comissão continua. No dia 27, apresentarei (à ONU) uma reconstituição detalhada e uma investigação do que ocorreu em Hula. Os sírios acreditam que, ao impedir a minha entrada, não terei como fazer a investigação. No entanto, já provamos que temos outros meios e fontes que nos permitem atuar sempre com rigor. / J. C.

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