REUTERS/Guadalupe Pardo
REUTERS/Guadalupe Pardo

Humala ajuda todos os que não apoia

Impopular, presidente não tem candidato e transformou Peru em caso raro de eleição sem uso da máquina pública

Rodrigo Cavalheiro - Enviado Especial / Lima , O Estado de S. Paulo

09 Abril 2016 | 05h00

LIMA - O presidente peruano, Ollanta Humala, decidiu não apoiar abertamente ninguém na eleição de amanhã, o que torna a disputa um raro caso em que não há denúncia de uso da máquina pública em favor de um dos concorrentes.

Os candidatos agradecem. Nenhum quis associar sua imagem à de um presidente que começou o mandato ainda favorecido pelo preço do minério e do gás, em alta, com elogios à moderação vindos dos que temiam que o militar se convertesse em um líder populista de esquerda, mas termina com aprovação inferior a 15%, segundo vários institutos de pesquisa. 

Cinco anos depois da posse, Humala é atacado pela direita, pela esquerda e pelo centro. Tornou-se, segundo analistas políticos e pesquisadores de opinião, uma espécie de Midas às avessas. O mais próximo de uma manifestação política de Humala foi seu apoio à marcha de 5 de abril contra o autogolpe que deu origem à ditadura de Alberto Fujimori, em 1992.

“Os presidentes no Peru, em geral, terminam seus governos com péssima aprovação”, disse ao Estado o cientista político Francisco Belaúnde Matossian, da Universidade Científica do Sul. Alguns insistem em voltar ao poder, apesar de essa rejeição converter suas chances em mínimas, casos de Alan García (1985-1990 e 2006-2011) e de Alejandro Toledo (2001-2006). 

“No caso de Humala, entretanto, o desempenho foi pior do que o histórico. A tradição local é que se dê uma espécie de fôlego ao líder nos últimos seis meses, mas ele não teve isso. A explicação principal é a irritação que a primeira-dama, Nadine Heredia, provocou ao opinar sobre temas de governo. Há uma sensação de que ela toma decisões e as divulga no Twitter”, diz Belaúnde.

Como fator secundário, o professor menciona a relação conturbada do presidente com a imprensa. A menção a Humala na Operação Lava Jato, como possível beneficiário de propinas da Odebrecht, ocupou por alguns dias a capa dos jornais, mas saiu do noticiário. O vazamento de dados na investigação brasileira levou o governo peruano a emitir uma nota de protesto, reclamando junto ao Itamaraty que a honra de Humala tinha sido atingida. 

Segundo o analista político Luis Davelouis, esta eleição repete algo que ocorreu quando Humala venceu Keiko Fujimori, há cinco anos, graças à alta rejeição dela e à união de todos os demais no segundo turno. 

O perfil mais parecido ao do presidente, ainda que suas raízes sejam diferentes, é o de Verónika Mendoza. A “vermelha”, como é tratada pelos inimigos, a candidata mais alinhada à esquerda tradicional, também enfrenta acusações de sectarismo e inexperiência. 

“Preocupa que alguém que apenas pensava em participar (Verónika tinha 1% das intenções de voto no ano passado e hoje chega aos 15%) possa vencer a eleição sem quadros”, diz Davelouis. “Humala, injustamente, deixa uma imagem de esquerda inoperante, ineficaz, ociosa e defasada. Injusta porque seu governo nunca foi de esquerda”, afirma o analista.

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