Humala e o déjà vu dos peruanos

Bolsa de valores na gangorra, a moeda em queda livre. Investidores estrangeiros engolindo tranquilizantes enquanto batem em retirada. Mais uma democracia está na berlinda? Não me refiro ao Brasil, em 2002. A bola da vez nas Américas hoje é o Peru, que, com a vitória de Ollanta Humala na eleição do dia 5, reprisa os momentos tensos que antecederam a passagem de Luiz Inácio Lula da Silva do asfalto para o Planalto. Tomara que a história andina também termine assim.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Vale a pena ver de novo. Na véspera da campanha presidencial de 2002, o Brasil estava melhor. Passadas as crises financeiras em série - do México, da Rússia e da Ásia - o País rumava para a estabilidade, com uma política cambial realista e os juros, embora altíssimos, já levemente declinantes. A ascensão de Lula revirou tudo, conforme acusava o "lulômetro", índice maroto do banco Goldman Sachs que ligava cada mergulho das bolsas à proporcional subida do petista nas pesquisas.

O pânico serviu de para-choque político. Lula passou os últimos meses da campanha revisando seu programa, desmentindo bravatas, afagando empresários e tomou posse como centrista. Assim saiu do poder, elogiado mundo afora como o modelo moderado, um esquerdista que consegue dialogar com as nações mais poderosas do mundo sem ameaçar a ordem democrática.

Humala é o novo Lula? Até outro dia, seu mestre era o venezuelano Hugo Chávez, homem forte da revolução bolivariana e cuja cartilha manda nacionalizar empresas estrangeiras, sufocar dissidentes e revisar a Constituição para centralizar o poder. Aliados de Humala e alguns analistas internacionais afirmam que tudo teria mudado.

Nessa versão, o novo Humala teria se arrependido de seus erros. Já revisou seu programa de governo quatro vezes e jurou, com as mãos na Bíblia, que não mexeria na Constituição. E também teria se afastado de Chávez, chamando de "falho" o seu projeto de "socialismo do século 21".

Abaixar a cabeça é importante. Mais do que devotos, Humala precisa de sustentação política. Sozinho, seu partido controla apenas 46 das 130 cadeiras no Congresso. Para bancar suas promessas sociais, terá de aumentar impostos sem estrangular as indústrias que sustentam a bonança peruana. Humala ainda terá de convencer os peruanos de que sua porção brasileira fala mais alto do que seu lado bolivariano.

Infelizmente, não há kit Lula de conversão. Enquanto a transformação do líder brasileiro de rebelde radical a protagonista da política nacional foi gradual, torneada na mais exigente fábrica eleitoral do continente e ao longo de duas décadas, Humala terá de queimar etapas. Assume o poder, como assumiu Lula, cercado de dúvidas, mas sem o currículo do vizinho.

O legado da era Lula ainda está em discussão. Parece claro, porém, que um de seus maiores trunfos foi sua habilidade para administrar o passivo de seu próprio passado. Sobreviveu ao desastre que não ocorreu. Depois, se reinventou e ainda fez escola na América Latina. O tempo dirá se Humala absorveu a lição ou se dormiu na sala da aula.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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