EFE/Paolo Aguilar
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Humala: 'Sou o único ex-presidente do Peru vivo politicamente'

Investigado há cinco anos, Ollanta Humala liderou o país entre 2011 e 2016 e quer tentar a presidência em abril de 2021; em crise política, país já teve impeachment e três presidentes no mês de novembro

Fernando Gimeno / Efe, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 13h44

LIMA - Envolto pelo conhecido caso da Odebrecht junto com outros ex-presidentes e altos funcionários do Peru, Ollanta Humala, que liderou o país entre 2011 e 2016, será o único ex-presidente buscando um novo mandato nas próximas eleições presidenciais, que serão realizadas em abril de 2021. 

"Sou o único ex-presidente que está politicamente vivo", disse Humala em entrevista à agência de notícias Efe, na qual celebrou a nomeação do deputado Francisco Sagasti como presidente temporário após a crise política produzida pelo que ele chama de "golpe" do Congresso em oposição ao ex-presidente Martín Vizcarra.

Com Vizcarra impedido pela Constituição de ser reeleito, os demais ex-presidentes estão: presos, como Alberto Fujimori (1990-2000), em prisão domiciliar como Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) ou à espera de extradição, como Alejandro Toledo (2001-2006). Alan García (1985-1990 e 2006-2011) tirou a própria vida em 2019 ao saber que seria preso. 

Humala está em liberdade aguardando que a Justiça decida se abre o julgamento ou se apresenta a denúncia do Ministério Público, que pede uma pena de 20 anos de prisão contra ele por suposta lavagem de dinheiro em suas campanhas eleitorais anteriores para a presidência. 

Cinco anos de investigação

Devido à longa investigação que já se aproxima de cinco anos, o ex-presidente e sua esposa, Nadine Heredia, sofreram "todas as medidas coercitivas que foram e ainda devem ser tomadas", o que inclui um período de quase 10 meses em prisão preventiva, batidas, impedimentos para sair do país e apreensão de economias bancárias.

“Para nós, o pós-governo tem sido muito difícil e ainda não acabou. A falta de justiça não nos permite consolidar um sistema democrático estável e confiável, porque se isso foi feito a um ex-presidente ... imagine para um cidadão comum?", questionou. 

"Cinco anos depois e ainda não temos uma sentença. O que vejo aqui é um linchamento na mídia, uma perseguição judicial e um assédio político contra meu partido e minha família", acrescentou.

'Condenação sem sentença'

O líder do Partido Nacionalista Peruano (PNP) admitiu que toda a situação causou "danos à sua reputação" e se tornou "uma sentença antecipada", apesar de afirmar ter sido claro sobre sua alegada inocência. 

“Não tenho nenhuma acusação de ter roubado. Estão nos investigando porque, supostamente, o governo de Hugo Chávez financiou a campanha de 2006, e o Partido dos Trabalhadores do Brasil, a campanha de 2011, e nessa a Odebrecht teria sido o delivery (quem deu o dinheiro)". 

O ex-diretor da Odebrecht no Peru garantiu aos promotores que havia dado à campanha de Humala até US$ 3 milhões a pedido do então presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

Até este ano, graças à reforma política e eleitoral promovida pelo Governo de Vizcarra, a não declaração deste tipo de contribuições só se configurava como um problema administrativo e como um delito. No entanto, o Ministério Público agora tenta encontrar evidências de lavagem de dinheiro.

"Não faz sentido. É um contorcionismo jurídico nos criminalizar por uma suposta contribuição de campanha quando não éramos funcionários públicos. Rejeitamos categoricamente. Eles não têm provas, mas chegamos a esta situação porque os processos no Peru são fáceis de abrir e difíceis de encerrar", disse. 

“Estão denunciando os outros (ex-presidentes) por pura e grosseira propina quando já eram presidentes, prefeitos, governadores ou parlamentares. E estão nos denunciando quando não éramos funcionários públicos”. 

Campanha difícil

Humala reconheceu que esta investigação será a sua principal desvantagem numa campanha eleitoral muito mais complicada que as anteriores. “A mídia e todos os poderes do Estado nos misturaram a todos. Nessa crise, não há diferença e eles nos colocam no mesmo saco. É o nosso principal problema nesta campanha”.

Questionado sobre os motivos que o levam a voltar a tentar a presidência, disse que o primeiro passo é "defender" a gestão do seu governo que considera "abandonado" pelos mandatos de Kuczynski e Vizcarra.

“Vejo esse período de cinco anos perdido. Este governo aplicou a cultura popular de não dar continuidade aos trabalhos da autoridade anterior. Encontramos muitos megaprojetos parados, como o Museu Nacional de Arqueologia (Muna), que ainda nem abriu”, disse.

Ele também mencionou o teleférico para a cidadela inca de Choquequirao, semelhante a Machu Picchu, uma linha do metrô de Lima, a modernização da refinaria de Talara e do gasoduto no sul do Peru. 

“Com a crise ocorrida a nível político, sanitário, social e econômico, somos o único partido que tem experiência de governo, e nessas condições não devemos nos aventurar com gente que não tem mais experiência”, disse Humala.  Ele lembrou o crescimento e a estabilidade econômica durante seu mandato presidencial e a redução da pobreza de aproximadamente 29% para 24% e da pobreza extrema de 7 para 4%.

Por isso, não teme não passar quociente eleitoral de 5% dos votos a nível nacional, necessário para manter o registo partidário, e antecipou que na campanha levantará a bandeira de uma nova Constituição com Assembleia Constituinte, “porque as reformas têm atolado no Congresso". 

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