Humala traça alianças para 2º turno

Primeiro colocado, nacionalista peruano promete ''grandes concessões'' para evitar que candidatos derrotados apoiem Keiko Fujimori

Renata Miranda, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / LIMA

O nacionalista Ollanta Humala e a congressista Keiko Fujimori começavam ontem negociações de possíveis alianças políticas para dar início à elaboração de suas estratégias para o segundo turno das eleições presidenciais no Peru, marcado para 5 de junho.

Logo após a divulgação dos primeiros resultados na noite de domingo, tanto Humala quanto Keiko expressaram sua disposição ao diálogo na busca de consensos. Humala disse até que estaria disposto a fazer "muitas concessões" para chegar a um governo de unidade e, ontem, afirmou que estava disposto a conversar com "todos os partidos políticos". "Chamamos todas as forças sociais e trabalhistas que queiram se juntar a esta convocatória", disse Humala.

Ontem, enquanto a propaganda eleitoral dos candidatos derrotados era removida das ruas de Lima, fontes ligadas ao Gana Perú, partido de Humala, já buscavam figuras respeitadas na política para a formação de um possível gabinete.

O porta-voz da legenda, Daniel Abugattás, disse ao jornal Peru.21 que Humala assumiria um discurso mais moderado acompanhado de gestos como a aproximação de Beatriz Merino, ex-primeira-ministra durante o governo de Alejandro Toledo, a quem teria oferecido o mesmo cargo em um eventual gabinete nacionalista.

"A tendência agora é que Humala tente se aproximar de pessoas com um histórico de respeito à democracia, com uma inclinação mais à direita, mas que acreditam em seu modelo nacionalista", afirmou ao Estado a analista política Jacqueline Fowks. "Outra aliança possível seria entre Humala e o partido Perú Posible, de Toledo."

Já a Fuerza 2011, partido de Keiko, poderia se beneficiar do apoio dos eleitores do ex-ministro Pedro Pablo Kuczynski, terceiro colocado na votação de domingo. Ontem, Kuczynski ainda não tinha anunciado um apoio formal, mas indicou que poderia respaldar a candidatura de Keiko. "Os eleitores de Kuczynski são integrantes da elite econômica, com um maior poder aquisitivo, que ganharam muito dinheiro durante o governo do pai de Keiko, o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000)", explicou Jacqueline. "E essa parcela da população ainda tem muito medo de um governo de Humala por causa de sua aparente proximidade do presidente venezuelano, Hugo Chávez."

A realidade é que ambos os candidatos no segundo turno sofrem muita rejeição. Apesar do grande apoio que Keiko tem do movimento fujimorista, grande parte do eleitorado tem horror à ideia de ela assumir a presidência por causa do legado de corrupção e violação aos direitos humanos de seu pai. No início da campanha, ela até tentou se distanciar da imagem do ex-presidente, mas em seu discurso no domingo ela agradeceu especialmente a seu pai, enquanto a multidão gritava "Chino! Chino!" - como Fujimori era conhecido.

Já Humala sofre resistência por causa de seu discurso radical e da amizade com Chávez - a qual o candidato tentou negar durante toda a campanha. No domingo, nas filas dos centros de votação, alguns chegaram a dizer que deixariam o país caso Humala ganhasse a eleição.

A polarização entre os dois candidatos também pode ser observada na divisão dos votos por região e classe social. "É interessante observar que o apoio a Kuczynski se concentrou apenas em Lima e quase não existe no restante do país", disse o analista político Alberto Adrianzén. "Outro aspecto da divisão dos votos por região é que Humala tem muita força no interior e nas áreas mais pobres do país."

Caminhos. Ontem, o escritor peruano e Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa disse estar decepcionado com o resultado e culpou Toledo, Kuczynski e o ex-prefeito de Lima Luis Castañeda por deixar o país cair em uma "situação extrema". "O Peru está entre duas opções: a aids e o câncer terminal", afirmou Vargas Llosa em referência a Humala e Keiko.

O escritor disse que o panorama político é resultado da "insensatez" dos outros concorrentes que, em vez de terem se unido, brigaram entre eles, abrindo espaço para Humala.

Vargas Llosa disse que o nacionalista o irrita porque é "próximo de Chávez, mas se diz discípulo do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva". Já sobre Keiko, o escritor disse que uma vitória dela significa uma "passagem direta da cadeia para o governo".

Apelo aos mercados

O presidente peruano, Alan García, pediu "tranquilidade" aos que investem no Peru, após o anúncio de um 2º turno entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori

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