Humoristas acabam com Chirac na campanha francesa

A campanha presidencial está embalada. Os dois principais candidatos - o atual presidente, Jacques Chirac (direita) e o primeiro-ministro atual, Lionel Jospin (socialista) - trocam insultos sem parar em todos os debates. O ?oponente?, Lionel Jospin, obtém vantagem: há um mês, ele estava vencido. Hoje, vence com uma curta diferença.Pergunta-se sobre esse avanço de Jospin. Alguns o explicam pelos ?guignols do noticiário?. Quem são esses ?guignols?? ?Guignol? é um personagem do folclore, uma marionete. Trata-se de um ?palhaço?, um ?bufão?, um ?farsante?. Ora, um programa de TV usou esse nome para falar, diariamente, da atualidade política. Ele é criminoso. Sangrento. Toda noite, na hora do jantar, desfilam na telinha, marionetes, bonecas grotescas, que representam os diferentes heróis da atualidade.O programa baseia-se no sarcasmo. E como é muito bem feito, cruel, sutil, bem informado, implacável, rico em palavras engraçadas, no dia seguinte é comentado em todos os meios: entre os políticos, à mesa da burguesia, nos balcões dos cafés, no pátio interno das escolas.Mas os autores desses ?guignols? têm convicções, inimizades, ?vítimas?. E seu alvo preferido é o presidente Chirac. Com ele, bem mais do que com Jospin, os guignols ?estão rompidos?. De Chirac, fazem um descerebrado, um ?cata-vento?, um ?grande parlapatão?, que muda de opinião a cada segundo, que não sabe o que diz, que derrapa no ridículo e na má-fé.Há duas semanas, eles duplicaram a marionete ? já absurda ? de Chirac, com uma outra marionete, representando igualmente Chirac, mas fantasiada de super-homem, com a peculiaridade de que seu terno, em vez de ter a inscrição ?Superman?, tem a simples palavra: ?Supermentiroso?.Assim, a crítica, pelos ?guignols?, da campanha eleitoral, é constantemente interrompida pela chegada tempestuosa do ?Supermentiroso Chirac?. E o ?Supermentiroso? diz, com a voz de Chirac, uma ou duas besteiras, profere três mentiras monumentais, e volta, sempre dinâmico e alegre, para seu reino distante.A eficácia desses esquetes é incrível. Foi comprovada há poucos dias. O candidato Chirac (o verdadeiro) participou de uma comício em um subúrbio de Paris. E eis que crianças da escola vizinha ? de 10 a 15 anos de idade ? aproximam-se do presidente e gritam, destacando bem as sílabas: ?Supermentiroso! Supermentiroso!?. E para piorar, os mesmos garotos cospem rindo no ?supermentiroso?. Cena degradante, que demonstra como os ?guignols do noticiário? têm um grande peso nas dificuldades atuais de Chirac.Se Chirac for vencido, em parte será responsabilidade dos ?humoristas? (praticamente desconhecidos) que, toda noite, fantasiam Chirac de maneira ridícula. Até agora, Chirac não reagiu. Certamente, no palácio do governo, pensa-se em um contra-ataque. Mas estão imobilizados. A França é uma democracia. Nela, não há censura. Para que um livro, um programa de rádio ou TV, um jornal possam ser proibidos, é preciso que os insultos sejam tão graves, que um juiz possa condenar seus autores.E o que é pior: mesmo admitindo que se chegue a impedir a liberdade de expressão dos ?guignols? ou, pelo menos, a moderar sua ?vulgaridade?, o remédio seria pior do que o mal. Os que riem ficariam do lado dos Guignols. Não convém jamais fazer inimizade com os ?bufões?, com os humoristas.O resultado é que o pobre Chirac está condenado a, toda noite, servir de ?saco de pancada? para os ?guignols? e ao festival de cretinices que lhe fazem dizer, enquanto em todas as salas de jantar da França, milhares de gargalhadas, na espera de que, no dia seguinte, nas escolas, nas fábricas e nos cafés, as melhores ?gags? dos Guignols (ou seja, as mais cruéis) sejam repetidas inúmeras vezes pelas crianças, pelos motoristas de caminhões e de ônibus ou pelas secretárias. Os ?Guignols? inventam uma nova democracia: a do ?sarcasmo?.

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