Attila Kisbenedek/AFP
Attila Kisbenedek/AFP

Húngaros fazem carreata contra medida de Orbán que mandou desocupar hospitais

A decisão deixou sem tratamento inúmeras pessoas em pós-operatório ou em estado grave, que passaram a se tratar em casa; os leitos foram desocupados para futuros pacientes de covid-19

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 15h36

BUDAPESTE - Centenas de motoristas saíram em carreata nesta segunda-feira, 20, em Budapeste e outras cidades da Hungria para protestar contra a polêmica decisão do governo de esvaziar os hospitais e liberar leitos para pacientes com a covid-19. A medida anunciada pelo primeiro-ministro Viktor Orbán na sexta-feira deve deixar milhares de pessoas portadoras de outros problemas de saúde sem tratamento médico. 

De acordo com a medida anunciada pelo governo, 36 mil leitos de hospitais seriam desocupados para que ficassem disponíveis para pacientes diagnosticados com o coronavírus. O número representa mais da metade do número de leitos do país. Com ela, foram mandados para casa cerca de 15 mil pacientes, muitos deles em estado grave. 

A decisão deixou sem tratamento inúmeras pessoas em pós-operatório ou em estado grave, que passaram a se tratar em casa. A iniciativa gerou uma grande consternação no país. No protesto desta segunda-feira, no qual os manifestantes tiveram de ficar dentro de seus carros diante das restrições e proibições do estado de emergência vigente, ocorreu não apenas na capital húngara, mas em várias outras cidades do país. 

"Vamos dizer 'não' à falta de humanidade e 'sim' à vida", foi o lema do protesto organizado por meio de redes sociais. A manifestação foi organizada por dois deputados independentes e pelo partido Momentum, da oposição liberal, que argumentaram que o esvaziamento das clínicas é uma medida "maligna e desumana", que constitui "um tremendo peso e sofrimento para os afetados".

A imprensa não alinhada ao governo de extrema-direita vem denunciando há vários dias casos de pacientes que tiveram de deixar hospitais e serem tratados por seus parentes em casa, incluindo vários em estado grave. 

Diretores de hospitais se recusaram a liberar pacientes que precisavam seguir em acompanhamento pós-operatório ou de outras doenças graves. Dois responsáveis por unidades de saúde foram demitidos em retaliação.

De acordo com o site Hvg, são diversos os casos de pessoas que já estão sendo levadas para casa, como um idoso com corpo parcialmente paralisado, que sofre de vários problemas de saúde. A família admite não saber como seguirá cuidando dele.

Outra denúncia é de um leitor que conta que o pai, diabético e recém-operado de câncer, terá de ser tratado em casa, junto com a mãe dele, que sofre de demência.

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Na Hungria, existem cerca de 66 mil leitos hospitalares e, segundo dados oficiais, 70% deles foram ocupados na semana passada, o que significa que entre 10 mil e 15 mil pacientes devem voltar para casa para atender à demanda do governo. Atualmente, na Hungria, existem cerca de 2 mil casos confirmado de covid-19, com 199 mortos. / EFE e AFP 

 

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