JAMIL CHADE/ESTADAO
JAMIL CHADE/ESTADAO

Impasse na UE gera confrontos na fronteira e fecha estrada

ONU alerta que 40 mil novos refugiados devem chegar à Hungria até o final da semana.

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2015 | 08h29

ROSZKE, HUNGRIA (atualizada às 13h15) - A indefinição da Europa em estabelecer uma nova política para os refugiados deixa milhares deles presos na fronteira e, diante da frustração e temor de serem deportados, iniciam dezenas de confrontos e choques com a polícia local. No acampamento de Roszke, mais de 500 pessoas conseguiram escapar do cerco policial e o governo foi obrigado a fechar a estrada que liga a Hungria à Sérvia.

Na rota dos refugiados que saem da Turquia em direção à Alemanha, a Hungria passou a ser o epicentro da crise. O governo de Budapeste deixou claro que não quer a entrada dessas pessoas mas, ao mesmo tempo, dificulta a passagem daqueles que já estão dentro do país e seguem viagem. 

Para evitar que os refugiados cheguem à Hungria, o governo faz questão de não estabelecer qualquer tipo de estrutura de acolhida. Mas isso não está impedindo a chegada de milhares de pessoas. Em apenas 48 horas, 3 mil refugiados cruzaram a fronteira. A ONU estima que mais 40 mil pessoas devem chegar ao território húngaro nos próximos sete dias.

O resultado do impasse político sobre as cotas que cada país europeu terá de assumir se transforma em uma crise em Roszke. O Estado presenciou dois confrontos entre policiais e refugiados desarmados. “No camp, no camp”, gritava um grupo de sírios, em um apelo para que não fossem levados para acampamentos de refugiados na fronteira. Um deles é uma verdadeira prisão e os refugiados são conduzidos em caminhões usados para transportar criminosos.  

Desde terça-feira, mais de uma dezena de incidentes foram registrados com pessoas tentando escapar de um cordão de proteção formado por dezenas de policiais. Alguns conseguiam entrar por um milharal, enquanto outros apenas empurravam as barreiras criadas pelas forças de segurança. 

Durante o dia, mais de 500 pessoas que estavam no acampamento conseguiram escapar, tomando a estrada que liga o sul do país a Budapeste. “Queremos ir para a Alemanha”, disse um deles. 

O governo mandou reforço policial para a região, com tropas de choquecarros blindados. Mas as autoridades foram obrigadas a fechar a estrada M5 diante da tomada da pista pelos refugiados. Alguns policiais apontaram que estavam trabalhando em turnos de 16 horas. Poucos falavam inglês e nenhum deles entendia árabe. 

A reportagem presenciou quando um grupo de cerca de dez pessoas conseguiu escapar da polícia e passou a correr pelas ruas. Depois de se afastares do centro de detenção, eles ficaram escondidos em um bosque ao lado da estrada, esperando o melhor momento para continuar a viagem.

Durante a noite, a temperatura baixa fez os refugiados colocarem fogo nos cobertores que haviam sido distribuídos por uma ONG para aquecer o local. Mas a polícia temia que, por estarem ao lado de um milharal e diante de roupas espalhadas por todo o campo, um incêndio generalizado pudesse ocorrer.

“Estamos aqui há dois e não sabemos o que vai ocorrer “, disse Ali Al Dohab, um estudante de engenharia na Síria. “O que eu quero é viver como um ser humano. Uma família, uma esposa, um cachorro. Não é o sonho americano. É o sonho de qualquer pessoa”, disse. Ali contou que foi roubado e enganado por traficantes, que os entregaram para a polícia húngara. “Não me sinto como um ser humano. Estamos sobre o lixo, com a pressão da polícia”.

Dentro do campo, o cheiro era insuportável, com comida abandonada, pássaros tentando encontrar sobras de alimentos, fraldas sujas de crianças e poeira misturadas ao lixo que se acumulava. Refugiados dormiam e esperavam para saber para onde seriam levados. A cada hora, um ônibus se aproximava do local, gerando correria, brigas e uma disputa por quem entraria no veículo. 

Dohab contou que foi procurar o comando da polícia para pedir explicações e apenas foi informado de que “a Europa tem o maior padrão de qualidade de tratamento de direitos humanos do mundo”. “Isso é um cinismo. Porque então não nos tratam como seres humanos?. Eu fui roubado moralmente e fisicamente”, completou. 

Trem. Quem conseguia chegar até Budapeste vivia outro drama: o de conseguir embarcar em um trem para Viena e Munique. O Estado presenciou uma fila de mais de sete horas na estação ferroviária de Keleti. 

O governo se recusou a colocar linhas extras e, em cada trem que deixava Budapeste, três vagões eram reservados para os refugiados, com o restante sendo mantido para os outros passageiros. Ali, a tensão também aumentava à medida que o dia ia chegando ao fim e muitos se davam conta de que não conseguiriam embarcar. 

A crise na Hungria também se traduziu em uma troca de farpas entre o governo de Viktor Orbán e a Comissão Europeia. O primeiro-ministro húngaro havia alertado na semana passada que estava defendendo as tradições cristãs da Europa ao tentar controlar a chegada de muçulmanos. Ele também indicou que o povo “não queria um grande número de muçulmanos”.

Jean Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, contra-atacou nesta quarta-feira. "Podemos construir muros. Mas imagine por um segundo se fosse você, com seu filho nos braços e o mundo que você conhecia havia sido destruído. Não haveria um preço que você não pagaria, não haveria um muro que você não pularia", afirmou.

Para ele, a Europa "já fez o erro no passado de distinguir entre judeus, cristãos e muçulmanos. Não existe religião quando se trata de refugiados", completou. 

Mais conteúdo sobre:
imigração crise Hungria

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.