Hungria marca 50 anos de levante em meio a protestos

Com uma série de cerimônias oficiais - e acirradas disputas políticas e manifestações de oposição ao primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany -, a Hungria está marcando, nesta segunda-feira, os 50 anos do levante do país contra o domínio soviético.A polícia teve que dispersar centenas de manifestantes que se concentravam diante do Parlamento em Budapest, poucas horas antes de uma solenidade que contou com a presença de dignatários de vários países, juntamente com Gyurcsany e o presidente Laszlo Solyom. Alguns veteranos do levante se recusaram a apertar a mão do primeiro-ministro, alvo de protestos desde meados de setembro, quando uma gravação veio a público em que o primeiro-ministro admitiu que o governo havia mentido sobre o estado da economia para conseguir a reeleição, em abril.O presidente Laszlo Solyom apelou por união no domingo, dizendo que a nação inteira compartilhou da reivindicação pela independência húngara durante o levante, que foi reprimido em uma intervenção sangrenta das forças soviéticas.OposiçãoMas o Partido Fidesz, o principal da oposição, disse que vai boicotar os eventos oficiais do aniversário do levante que contarem com a presença de Gyurcsany.O partido deve realizar um ato público próprio junto ao prédio da estação de rádio estatal, cena de choques violentos em 1956.Entre os eventos programados estão a inauguração de um grande monumento na Praça dos Heróis, de Budapeste, que homenageia os participantes do levante.Quase 3 mil húngaros morreram em choques com o Exército Vermelho, chamado pelos então comunistas do país. Muitos foram executados, e cerca de 200 mil tiveram que fugir de suas casas.Também está prevista uma cerimônia junto à estátua do Imre Nagy, o primeiro-ministro reformista na época do levante.A bandeira húngara hasteada em várias solenidades apresenta um buraco no centro, repetindo o gesto de manifestantes em 1956, que cortaram a insígnia soviética colocada no local.Movimento espontâneoO levante começou em Budapeste no dia 23 de outubro de 1956, com uma manifestação espontânea de uma multidão de cerca de 23 mil pessoas, a leitura de um manifesto pró-democracia e o entoar de canções nacionais proibidas.Ao anoitecer, havia 200 mil pessoas no centro da capital.A multidão derrubou uma estátua gigantesca de Stalin, deixando apenas as botas do ditador em seu pedestal.Tanques soviéticos foram forçados a se retirar, mas retornaram com uma força mais devastadora uma semana depois. Ataques aéreos e de artilharia a cidades húngaras precederam uma invasão de 17 divisões de tanques e infantaria.O primeiro-ministro reformista, Imre Nagy, fez um apelo emocionado por ajuda à comunidade internacional através do rádio.Nagy e centenas de outros húngaros foram presos e executados.O repórter da BBC, Alan Little, disse que o levante foi o momento em que o mundo passou a aceitar a divisão do pós-guerra na Europa, e a aparente permanência do que o líder britânico Winston Churchill chamou de "Cortina de Ferro".

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