REUTERS/Denis Balibouse
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Hungria nunca será um país de migração, diz chanceler em discurso na ONU

Péter Szijjártó, ministro de Relações Exteriores de Viktor Orban, disse que governo vai 'proteger sua população e sua cultura de mais de mil anos de cristianismo' e acusou organização multilateral de produzir relatórios mentirosos sobre imigrantes e refugiados

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 12h07

GENEBRA - Em discurso na ONU que causou profundo mal-estar entre ativistas de direitos humanos, representantes e governos, o chanceler da Hungria, Péter Szijjártó, deixou claro que seu país não abrirá suas fronteiras aos estrangeiros e atacou as Nações Unidas por "mentir sobre a existência do direito à migração".

"A Hungria nunca será um país de migração. Nunca!", garantiu o ministro de Relações Exteriores húngaro ao se dirigir à comunidade internacional.

A fala de Szijjártó nesta quarta-feira, 19, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, foi uma resposta a relatórios que haviam sido apresentados no órgão com denúncias de violações de direitos humanos no país dirigido por Viktor Orban - como o caráter xenófobo de políticas que tem como meta impedir a entrada até de refugiados no país. 

Na semana passada, em razão de medidas consideradas antidemocráticas, o Parlamento Europeu aprovou relatório elaborado pela Comissão Parlamentar das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos, que recomenda a adoção de uma série de medidas contra o governo da Hungria. As sanções podem resultar na perda do direito de voto do país na União Europeia (UE) e na suspensão de subvenções econômicas.

Segundo o chanceler húngaro, os analistas da ONU "espalham mentiras sobre o meu país". "Relatores recebem salários com base no que os Estados pagam, incluindo o que a Hungria paga. E eles usam suas posições para espalhar mentiras inaceitáveis", atacou Szijjártó. "Os relatores precisam sempre respeitar os Estados e nunca insultar seus povos."

Sobre o levantamento realizado pela ONU, ele acusou a entidade de "produzir coisas sem sentido". "Os documentos são desequilibrados e são coleções de mentiras", criticou o representante da Hungria. "Eles questionam a maturidade do povo e se eles são capazes de escolher seu futuro", destacou o chanceler.

Para Szijjártó, a ONU usa dados de entidades da sociedade civil que não representariam a população húngara. "São entidades que tentam fazer o governo cair. Temos 60 mil ONGs e os relatórios da ONU citam sempre as mesmas entidades que não representam a sociedade, como Transparência e Anistia Internacional", disse. 

"Quem representa o povo é o governo. Tivemos 2,8 milhões de votos e essa foi a terceira vez consecutiva que ganhamos as eleições, depois de oito anos no poder", defendeu. 

Em discurso duro, o chanceler afirmou que "os húngaros tem o direito sobre seu futuro e de seu próprio país". Ele também deixou claro que Orban não considera abrir suas fronteiras. 

"O povo tem o direito de dizer quem ele quer que entre no país, sobre com quem queremos viver", disse. "Temos o direito de preservar nossa cultura e nossa identidade. E temos o direito de não deixar entrar no país quem não respeita isso", declarou.  

"A Hungria nunca será um país de migrantes. Nunca", disse o chanceler de um país que, nos anos 50, causou uma onda de migrações pela Europa e pelas Américas em razão da repressão comunista. "Sempre protegeremos nossos cidadãos. Não deixaremos que ninguém entre de forma ilegal. Sempre vamos proteger nossa fronteira", garantiu. 

Szijjártó ainda garantiu que a ideia difundida pela ONU de que a imigração é um direito humano é "uma mentira". "Eles querem forçar isso sobre nós. Ninguém tem o direito de escolher o país que quer morar. Parem de mentir sobre a Hungria e respeitem o direito de um povo por ter uma vida segura", apelou. 

O chanceler, para a surpresa dos demais diplomatas na sala que não conseguiam evitar gestos de constrangimento, ainda concluiu seu discurso com um alerta. "O governo vai sempre proteger seu povo. A Hungria continuará sendo um país dos húngaros, que é feliz e orgulhoso pelos mais de 1 mil anos de cultura e cristianismo", completou.

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