REUTERS/Karnok Csaba
REUTERS/Karnok Csaba

Hungria reprime refugiados com gás lacrimogêneo e Croácia vira passagem

Após converter em crime a imigração ilegal, governo húngaro endurece controle na fronteira e agentes usam força física para manter estrangeiros afastados

O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2015 | 19h37

BUDAPESTE - A polícia húngara utilizou gás lacrimogêneo, spray de pimenta e jatos d’água contra refugiados que tentavam atravessar a fronteira pela Sérvia. A Hungria passou a prender quem entrasse em seu território após criminalizar a imigração ilegal na terça-feira e, até esta quarta-feira, mais de 500 imigrantes já tinham sido detidos.

Diante da grande repressão na fronteira e da dura política de migração húngara, os refugiados começaram a procurar outra rota, passando pela Croácia, com o objetivo de chegar à Europa Ocidental.

O primeiro-ministro croata, Zoran Milanovic, disse que eles terão permissão para cruzar seu território e criticou a atitude de Budapeste.

Dezenas de agentes antidistúrbios foram mobilizados na fronteira húngara com a Sérvia, que desde segunda-feira passou a ser protegida com altas cercas de arame farpado. A agência MTI informou que a repressão foi direcionada a um “grupo menor” que tentou romper o cordão de isolamento policial que fecha a passagem de Horgos. 

Os refugiados derrubaram parte da cerca, mas os policiais fecharam a passagem. Centenas de imigrantes atiraram garrafas e pedras contra a polícia, que utilizou jatos d'água e outros métodos de repressão. Nas imagens divulgadas pelas agências de notícias, alguns imigrantes são vistos carregando crianças que aparentemente teriam inalado gás lacrimogêneo.

Médicos sérvios disseram que pelo menos duas pessoas ficaram seriamente feridas e entre 200 e 300 precisaram receber atendimento médico. Muitas delas sofreram cortes, queimaduras e ferimentos nos olhos causados pelo gás.

Mais de 2 mil refugiados estão na fronteira da Sérvia com a Hungria tentando permissão para entrar em solo húngaro. A Hungria terminou de fechar nesta quarta-feira sua fronteira com a Sérvia com uma dupla cerca e mobilizou a polícia e o Exército para prevenir qualquer tentativa dos refugiados de rompê-la.

Aproximadamente, 200 mil pessoas que fogem de conflitos e da pobreza no Oriente Médio e em países da África passaram pela Hungria neste ano, embora a imensa maioria queria apenas sair de solo húngaro e seguir para a Alemanha.

Desde terça-feira, está em vigor uma lei que torna crime a entrada ilegal no país. Autoridades húngaras disseram ter prendido somente nesta quarta-feira 367 pessoas que tentavam atravessar a fronteira. No dia anterior, foram 174. 

O tribunal da cidade húngara de Szeged decretou nesta quarta-feira a expulsão de um cidadão iraquiano e o proibiu de voltar ao país durante um ano, na primeira sentença aplicada sob a nova lei. 

No julgamento, que durou apenas 80 minutos, a juíza destacou que esta é a pena mínima prevista na lei, que estabelece até 5 anos de prisão se a cerca de proteção levantada na fronteira com a Sérvia for danificada. 

A polícia húngara informou ter tomado “diferentes medidas” contra os demais refugiados detidos. Não estava claro quantos do total de 541 detidos serão processados pelo simples cruzamento ilegal na fronteira e a quantos será aplicado a agravante de ter danificado a cerca. 

No mesmo dia, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, afirmou que seu governo estava considerando construir novas cercas de arame, agora na fronteira com a Croácia. 

Reação. O primeiro-ministro da Sérvia, Aleksandar Vucic, acusou o governo vizinho de comportamento “brutal” e “não europeu” contra os estrangeiros e pediu que a União Europeia responda a essa atitude. “Nós não vamos permitir que ninguém nos humilhe. Peço à União Europeia uma reação, para que seus membros se comportem de acordo com os valores europeus”, disse.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou nesta quarta-feira estar “impressionado” com a maneira como estão sendo tratados os grupos de imigrantes em países como a Hungria e disse que a situação “não é aceitável”. 

Diante da dura repressão, dezenas de refugiados tentavam nesta quarta-feira buscar uma alternativa passando pela Croácia. O primeiro grupo, com dezenas deles, foi levado de ônibus, pela Sérvia, até a fronteira. Depois, eles continuaram o caminho por campos de milho. O governo croata anunciou que todos eles serão levados a centros de acolhimento e registrados. 

O ministro do Interior da Croácia, Ranko Ostojic, afirmou que o país considera a possibilidade de criar um corredor para os imigrantes chegarem à Áustria. No entanto, fontes da Comissão Europeia disseram que isso seria ilegal. / AP, REUTERS, AFP e EFE 

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