REUTERS/Laszlo Balogh
REUTERS/Laszlo Balogh

Hungria retira refugiados de trem à força; UE debate cotas para imigração

Pressionados pela repercussão da imagem de um menino sírio morto, líderes de alguns países europeus anunciam que tentarão instituir um sistema que distribua uniformemente os imigrantes pelo bloco

Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 02h00

A reação da Hungria à onda de imigrantes que tem chegado à União Europeia (UE) fugindo de conflitos no Oriente Médio e na África teve novos episódios de violência ontem, quando um trem que seguia rumo à Alemanha foi parado pela polícia – que pretendia levar à força as famílias para campos de refugiados.

Depois de fechar sua estação de trens na terça-feira, o governo de Budapeste resolveu reabrir os serviços ontem. Alguns sírios embarcaram em uma composição que tinha como destino o território alemão.

Quando chegaram à cidade de Bicske, no entanto, o trem parou e policiais tentaram forçar os refugiados a seguir para um campo. Protestos eclodiram diante da recusa dos passageiros de serem registrados. Na prática, isso dificultaria o objetivo maior de chegar até a Alemanha. Logo depois da confusão, os serviços internacionais de trem foram novamente suspensos.

Pressionados pela imagem de um garoto sírio morto numa praia da Turquia e sua repercussão pelo mundo, Alemanha e França anunciaram ontem um acordo para exigir que cada um dos 28 governos da UE adote cotas obrigatórias e permanentes para receber refugiados. Bruxelas indicou que o número total pode chegar a 160 mil lugares.

Parte dos líderes da UE tenta dar uma resposta humanitária à crise enquanto a ONU acusa a comunidade internacional de ter fracassado em garantir a segurança dos refugiados e sugere que o fluxo de refugiados ainda pode aumentar.

Apesar de esforços de alguns países, outros adotaram medidas repressivas contra os imigrantes e rejeitam a ideia de cotas para acolhê-los. A maior resistência vem da Hungria. Ontem, o primeiro-ministro, Viktor Orbán, de extrema direita, atacou o sistema de cotas.

“Esse não é um problema europeu, mas, sim, alemão.” Orbán foi ainda mais direto. “Cotas são um convite para que essas pessoas tentem viajar. Vamos ser claros: temos de dizer a essas pessoas que não devem vir.” 

Respondendo a críticas de que estaria adotando regras que beiram à xenofobia contra os estrangeiros, ele argumentou que estava protegendo a “UE cristã do fluxo muçulmano”. “Não é preocupante que o cristianismo europeu não consiga manter seus cristãos europeus? Não temos alternativa senão a de defender nossas fronteiras”, disse. 

“O que fizemos não é suficiente e precisamos ir além”, declarou François Hollande, presidente da França. Apesar da pretensão de ampliar as vagas, o número não acolheria todos os refugiados e imigrantes que, neste ano, estão chegando. O volume deve atender a apenas metade da demanda. 

O projeto idealizado por Paris e Berlim vai a votação em uma cúpula no dia 14 e prevê mais 120 mil lugares, além dos 40 mil inicialmente propostos. Esses estrangeiros seriam divididos pelos países do bloco, num esforço para aliviar a pressão sobre Itália, Grécia e Hungria.

Citando o garoto morto um dia antes, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, defendeu que a UE “se mobilize de forma urgente”. Hoje, um encontro de chanceleres deve tratar da crise e Alemanha, França e Itália já alertaram em uma carta comum que a Europa vive um “momento histórico”. 

Impasse. A ideia de cotas obrigatórias não é nova. Mas, em junho, a cúpula da UE terminou sem acordo. Agora, ONGs e líderes esperam que a compaixão internacional causada pela foto do garoto sírio force os governos a agir.

“O mundo vai decidir como a Europa será vista”, alertou a chanceler alemã, Angela Merkel. Para a ONG Save the Children, a imagem da criança morta em uma praia da Turquia “deu um rosto à tragédia”. 

O governo britânico de David Cameron indicou que estaria disposto a considerar novos números, revertendo sua posição tradicional sobre a questão. Na Grécia, Atenas quer um pacote de 700 milhões de euros  da UE para construir centros para acolher os refugiados.

Portugal também indicou que aceitaria mais pessoas. O polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, após meses se recusando a aceitar a ideia de cotas obrigatórias, ontem deu sinais de que mudou de opinião. 

Fracasso. Uma das críticas mais contundentes à situação enfrentada pelos imigrantes na UE partiu ontem da ONU, que denunciou o mundo por estar “fracassando em dar proteção” aos refugiados sírios. 

Para a organização, muitos países estão fechando suas portas à tentativa dessa população de fugir da morte. O alerta foi da Comissão de Inquérito da ONU para os Crimes na Síria, liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Em seu novo relatório, Pinheiro alertou que as crianças sírias vivem um “terror” e 2 mil pessoas já morreram afogadas tentando escapar da guerra.

Ele também denunciou o cinismo de governos que mandam ajuda humanitária, mas também armas para todas as partes. “A UE precisa entender que o fluxo de refugiados apenas vai acabar quando o conflito for encerrado”, disse. 

Segundo ele, mais de 4 milhões de sírios já deixaram o país, além de 7,5 milhões de pessoas que foram deslocadas internamente. “Isso representa metade da população.”

Na prática, o cenário leva a ONU a crer que o número de refugiados ainda deve aumentar nos próximos meses. “O espaço de proteção para sírios está encolhendo”, alertou.

Censura. O porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para Refugiados, Babar Baloch, disse ontem ter recebido informações de que a TV estatal húngara foi orientada pelas autoridades a “não mostrar imagens de crianças refugiadas”. O motivo: “isso causaria compaixão entre o público”.

Em outros países, como Polônia e Eslováquia, autoridades também fizeram apelo para que a mídia evitasse contar “histórias pessoais” das famílias. Já o governo alemão reagiu de forma diferente à crise. Depois de ataques xenófobos a centros de acolhida, campanhas foram lançada para explicar à população o que vai ocorrer nos próximos meses, quando cerca de 800 mil pessoas chegarão ao país. Personalidades alemãs se mobilizam no que parte da imprensa chama de “ação contra o ódio”. 

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