Pedro França/AE
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Hussein Kalout: 'Brasil precisa de estratégia planejada e diversificada para Ásia'

Para pesquisador de Harvard, Brasil precisa dar mais atenção para região de quatro bilhões de habitantes que se tornou o 'centro de gravidade das relações internacionais'

Entrevista com

Hussein Kalout

Paulo Beraldo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 10h00

O Brasil deve cada vez mais direcionar sua política externa e as atenções para a Ásia, região de quatro bilhões de habitantes que concentra 65% da população mundial. "É lá onde as potências internacionais procuram projetar o seu poder político e expandir os seus interesses econômicos, comerciais e tecnológicos", diz o cientista político Hussein Kalout, pesquisador de Harvard. 

Principal destino das exportações brasileiras, a região foi o local escolhido pela última missão presidencial internacional do governo brasileiro - de 23 a 27 de janeiro, na Índia. Como desafios para o aprimoramento da relação com o país de 1,3 bilhão de habitantes, Hussein, que já foi secretário de assuntos estratégicos da Presidência da República, sugere uma estratégica coordenada e sistêmica. "O caminho é atrair a Índia para um engajamento real no campo da tecnologia, do agronegócio e da cooperação na área de defesa. É preciso acertar os caminhos para que a Índia seja, também, um parceiro efetivo nos investimentos em grandes projetos de infraestrutura no Brasil". 

Na sua avaliação, a política externa se equivoca ao adotar um "alinhamento automático" com os Estados Unidos, o que pode prejudicar o País em outros espaços. "Defender conceito de soberania e se tornar parte da engrenagem da política externa de outros países por meio de um alinhamento automático incondicional é totalmente paradoxal".  

Abaixo, os principais trechos da entrevista. 

O presidente Jair Bolsonaro concluiu essa semana a 15ª missão oficial para o exterior. Foi a oitava para a Ásia. O senhor avalia que, após um tempo de governo, de erros e acertos, e pressões de uma ala mais pragmática, a relação com a Ásia tem mudado? 

O centro de gravidade das relações internacionais deslocou-se para a Ásia. É lá onde as potências internacionais procuram projetar o seu poder político e expandir os seus interesses econômicos, comerciais e tecnológicos. O continente asiático é, atualmente, o principal destino de nossas exportações e, nesse sentido, seria um tremendo equívoco ignorar a dimensão e a importância dos países asiáticos no mapa cartesiano da política externa brasileira. A realidade é mais forte do que discursos vagos e opacos. Por isso, o Brasil precisa de uma estratégia sistêmica, planejada e diversificada para Ásia. Se isso não ocorrer logo, a nossa inserção nas cadeias globais de valor ficará comprometida. 

Apesar do potencial de ambos os países, a relação comercial foi de apenas US$ 7,5 bilhões no último ano. Como coordenar ações estratégias para explorar mais as potencialidades de ambos os lados? 

O Brasil ainda não conseguiu decifrar a importância do mercado indiano e, por sua vez, a Índia não descobriu como impulsionar a sua relação comercial com o Brasil. A complementaridade é enorme e o nível do comércio bilateral é ainda muito baixo. O adensamento dessa relação somente irá ocorrer se houver um plano de trabalho contínuo e quando as plataformas empresariais forem integradas. É preciso dar prosseguimento às iniciativas lançadas para superar os módicos 0,3% que a Índia responde da pauta comercial brasileira. O caminho é atrair a Índia para um engajamento real no campo da tecnologia, do agronegócio e da cooperação na área de defesa. É preciso acertar os caminhos para que a Índia seja, também, um parceiro efetivo nos investimentos em grandes projetos de infraestrutura no Brasil.

O fato de o Brasil ter deixado o status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC) muda algo nessa relação, já que a Índia continua assim e defende essa prerrogativa? 

A Índia opera dentro de arenas mais complexas e mais competitivas do ponto de vista geopolítico e geoeconômico. Sem compensações tangíveis, Nova Délhi jamais renunciaria a qualquer instrumento vantajoso. Os dois países vinham refinando a sua articulação na construção de regras comerciais mais justas e equilibradas em benefício das nações em desenvolvimento. 

E a OMC se tornou o palco central desse engajamento para se contrapor ao protecionismo europeu e americano. A renúncia do Brasil ao status de nação em desenvolvimento não necessariamente cria fraturas na dinâmica da relação bilateral, mas pode alterar a sinergia entre os pólos na defesa de interesses comum em outros tabuleiros. Em comparação ao Brasil, a lógica do pensamento estratégico dos indianos é baseada em outra matriz de conceitos e de prioridades. Estamos falando de uma potência nuclear que busca constantemente defender e projetar o seu poder.

O senhor já escreveu em artigos que a diplomacia deste governo é paradoxal: o alinhamento automático com os Estados Unidos reduz o potencial do Brasil em outras esferas. Como encontrar um equilíbrio?  

A política externa brasileira não está ancorada em um projeto estratégico algum. Até agora o que se viu foi um conjunto de ações táticas dispersas e incongruentes. Todas essas ações foram movidas por uma preferência idiossincrática e não a partir de uma visão estratégica de Estado. Os militares de alta patente e os diplomatas experientes sabem muito bem do que eu estou falando. Defender conceito de soberania e se tornar parte da engrenagem da política externa de outros países por meio de um alinhamento automático incondicional é totalmente paradoxal. 

Defender preceitos democráticos na América do Sul e relativizar a brutalidade de regimes autoritários em outras regiões é contraditório. Endossar violações ao direito internacional, mas daí exigir que outros países respeitem os nossos direitos é expor o Brasil ao perigo. Com os EUA é preciso corrigir as distorções no discurso e na ação. Alçar a relação com Washington ao patamar de uma parceria estratégica é um imperativo. No entanto, os atuais contornos são oblíquos e expõem o Brasil, inclusive dentro dos EUA mesmo. Os próprios americanos prepararam um pacote com algumas bondades para minimizar os constrangimentos. Enfim, nem o Canadá, o Japão e o Reino Unido que possuem uma relação infinitamente mais intensa com os EUA degringolaram para esse nível de exposição. O equilíbrio está na sobriedade, na temperança e no bom senso. 

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