Reprodução/Twitter
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Hussein Kalout: Bolsonaro não desapontará o seu eleitor na ONU

Se o presidente repetir a tônica incendiária dos dois discursos anteriores, vai parecer mais verdadeiro e salvacionista para os seus apoiadores

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 14h59

Na terça-feira 21, o presidente da República, fará o seu terceiro discurso na tribuna das Nações Unidas. O que esperar da fala de Jair Bolsonaro? A quem o discurso será endereçado? Quais serão os seus reflexos na mídia, nas instituições públicas e na falange ideológica do bolsonarismo? Esse roteiro parece novo. Porém, não é.

Se o presidente fizer um discurso de Estadista, ninguém em sã consciência, na ONU e no Brasil, vai achar que ele acredita em seu próprio discurso. Se o presidente repetir a tônica incendiária dos dois discursos anteriores, vai parecer mais verdadeiro e salvacionista para os seus apoiadores – ainda que isso dilacere ainda mais a nada vistosa imagem do país no mundo.

O primeiro discurso dessa melancólica série simplesmente chocou o mundo – porém, não as hostes bolsonaristas, que vibraram com o seu “mito”. Era a apresentação de um Brasil irreconhecível. A truculência da fala presidencial era a mais pura síntese da anti-diplomacia. De Cuba à França, dos ambientalistas aos indigenistas, da própria ONU e seus órgãos à imprensa nacional e mundial, não sobrou ninguém fora do raio da metralhadora giratória da retórica presidencial. Todas as mazelas do povo brasileiro foram atribuídas à manipulação da esquerda via governos globalistas, das instituições multilaterais, da mídia e da dominação cultural. O Brasil, naquele momento, iniciava o seu embarque rumo ao isolamento internacional.

No rastilho de destruição do discurso de 2019, a segunda fala do presidente brasileiro, em 2020, não  deixou nada a desejar à primeira – e nem ao seu eleitor fundamentalista. O teor seguiu envergonhando o povo brasileiro em escala mundial. O mundo assistia a um Brasil negacionista, anticiência e terraplanista.

O governo Bolsonaro fazia (e segue fazendo), uma das piores gestões do planeta no combate à pandemia da covid-19. Seguindo as suas idiossincrasias, Bolsonaro expôs a sua visão oblíqua de Brasil e de mundo. A China, principal parceiro comercial do Brasil, a União

Europeia e os nossos vizinhos na América do Sul, eram trucidados praticamente em cada sentença de sua fala. O festival de desonra não parava aí. O rebaixamento do Brasil a coadjuvante do governo de Donald Trump atingia o seu ápice. O pináculo da fala presidencial, porém, foi a invenção da “cristofobia” como o “grande problema” do Brasil e da política externa. Nada disso, contudo, abalou a confiança de seu eleitor nos rumos propostos ao país.

Nesse sentido, a pergunta chave a se fazer é: o que o Presidente Bolsonaro ganharia em endereçar um discurso ordenado, diplomático e responsável? Se for nessa linha, a sua base decodificará a sua fala como mais um sinal de fraqueza, reforçando a percepção que teve com a “carta à nação” por ele assinada – um gesto de arrego.

Sob pressão e acuado com os últimos acontecimentos políticos, a tribuna da ONU pode ser uma excelente válvula de escape e um palco formidável para ecoar a sua “versão” sobre a tragédia social, econômica e institucional que toma conta do país. Ainda que o seu discurso traga alguma coloração de política externa, no fundo, todos sabem que não há política externa e não é esse o objetivo precípuo de sua fala.

Enfraquecido, o presidente precisa se reconectar com a seu eleitor e plasmar a sua própria “pós-verdade” sobre o seu anódino e incompetente desgoverno.

Mensagens políticas subliminares e implícitas (sobre a eleição de 2022, povos indígenas, meio ambiente, Amazônia, comunismo, centrão, novos programas de assistência social, dados sobre a economia e a pandemia, etc.) serão transmitidas com o devido requinte de fantasia.

Enquanto o campo anti-bolsonarista interpretou os atos de 7 de setembro como movimentos de um governo de viés autoritário, um presidente instável e governo e presidente completamente perdidos, a falange bolsominion viu nos protestos um “Dia de Glória” para bolsonarismo – apesar da  arregrada presidencial à posteriori.

Da tribuna da ONU, o discurso presidencial não deixará de ser um grande sermão para reunificar a sua base e recompor a confiança abalada de seus apoiadores em seu projeto político – cuja única política pública existente é a de sobreviver ao poder. Nesse sentido, o discurso pode ser mais um exemplo do realismo mágico em que habitam as falanges bolsonaristas: a crônica de um embaraço anunciado, com perdão do trocadilho com a obra do grande García Márquez.

*É Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade  de Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). 

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