<i>A colisão do BMW</i>, um caso chinês vira debate nacional

O Caso da Colisão do BMW, como os chineses o chamam, começou com uma confrontação envolvendo cebolinhas. Num perfumado dia de outubro, a mulher de um magnata da engenharia, arremeteu seu BMX X5 de 790.000 iuanes em Harbin, uma cidade industrial do nordeste da China contra um grupo de pessoas. Su Xiuwen acusava raivosamente o fazendeiro Dai Yiquan de ter arranhado seu espelho retrovisor com um carrinho carregado de verduras.Depois de insultar Dai, uma enraivecida Su subiu por trás da direção e atirou o carro abruptamente sobre 13 espectadores, matando a mulher do fazendeiro.Su foi levada a julgamento, mas alegou que acidentalmente acionara a transmissão automática do carro e não tivera intenção de machucar ninguém. Um juiz declarou-a inocente do assassinato e deu-lhe uma sentença com efeito suspensivo de dois anos, por negligência. Seis meses mais tarde, alimentado por debates online, o caso tornou-se um relampejante bordão para o desgosto generalizado com os novos ricos chineses, que prosperaram enquanto milhões de trabalhadores e fazendeiros esforçam-se para viver.?Esta sociedade tornou-se realmente injusta. Com dinheiro e conexões, consegue-se tudo. E não se tem de seguir a lei?, diz Shang Ming, um guarda de segurança de um complexo suburbano de apartamentos de Xangai que serve aos novo ricos.Algo de ultrajante no caso de Su deveu-se à alegações de que ela é nora de um poderoso funcionário local, cuja influência a protegeu das sanções legais. Investigadores e policiais negaram qualquer relação com altos funcionários ou tratamento especial.A indignação pública, desabafada pela internet, provocou uma rara resposta governamental. Foi determinada uma nova investigação policial sobre o acidente, iniciada esta semana, para apoiar a descoberta original.A ira a respeito do caso representa uma reação contra as pessoas que o arquiteto das reformas econômicas chinesas, Deng Xiaoping, exaltou como ?as primeiras a ficarem ricas?.?Ninguém sabe onde esses novos ricos conseguiram seu dinheiro, assim estarão sempre sob suspeita de corrupção e conexões poderosas?, diz Shen Minggao, do Centro de Pesquisas Econômicas da Universidade de Pequim.O ressentimento generalizado tem como mira chineses que lucraram com as reformas, que liquidaram a velha economia dirigida trocando-a pelo capitalismo cru, enquanto mantêm sistemas legais e políticos opacos.Muito dos ricos são funcionários do governo ou estão conectado politicamente com empresários que usam suas ligações para defender contratos imobiliários e propriedades, gerando fantásticas fortunas particulares em investimentos imobiliários.A tendência é especialmente forte em Harbin, uma cidade fortemente industrial com decadentes fábricas, de vastas extensões, sendo trocadas por pequenas indústrias privadas.As reformas econômicas chinesas produziram uma crescente concentração de renda. De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas, menos de 20% dos chineses controlam, atualmente, cerca de 80% da riqueza privada do país.O novo tipo de vida é especialmente difícil de aceitar para os chineses idosos, que lembram como a antiga economia estatal exaltava operários e camponeses e quando a maioria da população era igualmente pobre.Os novos ricos gozam de formas ostentatórias de vida, verdadeiras vitrines de riqueza ? vilas protegidas por grades altas, carros importados e escola particular ? enquanto a maioria da população esforça-se para ganhar, algumas vezes, o equivalente a algumas poucas centenas de dólares por ano.Os novos ricos não têm mostrado muito sentimento de caridade ou consciência social publicamente. Alguns deram, até mesmo, sumiço em fortunas mal ganhas, mandando-as para o exterior, deixando para trás empresas falidas e trabalhadores desempregados.A internet está dando voz a muita dessa indignação, abrindo ao público um canal para desabafar fora da imprensa estatal, totalmente controlada, e dos ineficientes órgãos de reclamação do governo.?Nunca houve, antes, uma forma de o público participar de discussões sobre um caso como esta?, diz Fang Xingdong, presidente da China Internet Labs, uma empresa independente de consultoria em informática. ?O governo nunca havia sentido pressão para ordenar a revisão de um caso com a pressão da opinião pública online.?Embora a nova investigação sobre o caso do BMW possa ter ajudado a estabilizar a ira pública, Fang diz que a crítica esmagadora já provocou controles mais rígidos sobre discussões semelhantes online.Chang Chongjie, da Universidade da Lei Sudoeste, da cidade de Chengdu, acha que a nova investigação fez o governo parecer responsável. Mas não acredita que a discussão desses temas na internet continuem desregulamentados.?No fim, a opinião pública deverá apenas supervisionar, mais do que dominar, a investigação imparcial do departamento legal?, diz.Assim mesmo, os críticos continuam a ter o que dizer na Web.?Esta investigação é realmente suspeita?, diz uma mensagem da semana passada num boletim hospedado pela tom.com. ?Esperamos realmente acreditar nela??

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