Ícones do jornalismo também desembarcaram na Normandia

Ícones do jornalismo também desembarcaram na Normandia

Nomes como Robert Capa, Ernest Hemingway, Walter Cronkite, Samuel Fuller ou Ernest Pyle estiveram na França em 6 de junho de 1944

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2019 | 15h44

PARIS - Grandes nomes da imprensa escrita e fotográfica, e do cinema, como Robert Capa, Ernest Hemingway, Walter Cronkite, Samuel Fuller ou Ernest Pyle estiveram no dia 6 de junho de 1944 na Normandia.

Robert Capa

Nascido em Budapeste em 1913 e falecido em 1954 na Indochina, Robert Capa, já famoso por sua cobertura da Guerra Civil espanhola, foi único fotógrafo presente, no dia 6 de junho, na praia de Omaha Beach, no setor "Easy Red". 

Ele trabalhava para a revista Life. A bordo de uma das seis lanchas do desembarque da companhia E do 16º regimento, ele registrou com sua câmera Leica cerca de 120 fotos durante mais de seis horas sob os disparos dos alemães. 

Os rolos dos filmes fotográficos foram enviados imediatamente para o escritório em Londres da revista. Ali, um ajudante de laboratório, apressado, fecha mal a porta do local de revelação, arruinando as imagens. 

Sobraram apenas 11 fotos mais ou menos aceitáveis, fora de foco e borradas, que mesmo assim foram publicadas no mundo todo. Capa, sem perder o bom humor, publicará suas memórias de guerra com o título "Ligeiramente desfocado" ("Slightly Out of Focus"). "Tínhamos a impressão de que estava em todas as partes ao mesmo tempo, com sua câmera. E principalmente onde havia tiros", escreveria sobre ele o jornalista Walter Cronkite.

Ernest Hemingway

No dia 6 de junho pela manhã, os militares americanos deixam Ernest Hemingway (1899-1961), de forte personalidade e pouco apreciado pelos suboficiais, em um barco de apoio, já que não tinha autorização para desembarcar. 

Acompanhando a sétima onda de ataque que avança por Omaha Beach, o escritor, já famoso, observava todos os combates, com os olhos grudados no binóculo Zeiss, repreendendo o timoneiro que tentava controlar a embarcação entre as ondas, ao lado de caixas de explosivos protegidas com plástico. 

Escreveu reportagens sobre o Dia D e até um romance no qual relata o horror nas praias e o medo dos soldados. No dia 25 de agosto, o futuro Prêmio Nobel de literatura, participou da libertação de Paris, apesar de as afirmações sobre ter sido um dos primeiros a entrar na cidade, ou ter libertado o famoso Hotel Ritz, fazerem parte mais da lenda do que da realidade.

Walter Cronkite

Conhecido como "o homem que mais confiança inspira nos Estados Unidos", Walter Cronkite, morto em 2009 aos 92 anos, está associado às grandes páginas da história da segunda metade do século 20 em seu país (Coreia, Vietnã, assassinato de Kennedy, etc...). 

Começou nos anos 1930 trabalhando para as agências Scripps-Howard e United Press. Acompanhou o Exército americano durante o desembarque na Normandia. Dizem também que foi o primeiro a escrever uma reportagem sobre o desembarque. 

Narrou tudo em primeira pessoa, o que contrariava os costumes das agências de notícias. Cronkite cobriu em seguida o processo contra os chefes nazistas em Nuremberg. Entre 1946 e 1948 é o chefe do escritório da United Press em Moscou. Sua carreira continuou na televisão, na CBS. "De tudo o que vivi, o Dia D é o que mais me marcou", dizia.

Samuel Fuller

Escritor, cineasta (autor do famoso "Shock Corridor", "Paixões que alucinam", em português), Samuel Fuller (1912-1997), o então soldado de segunda classe, foi um dos primeiros a desembarcar em Omaha Beach com a 1ª divisão de infantaria do Exército americano, a famosa "Big Red One". 

Nada o preparou para esta experiência que conta em histórias cativantes: "Na Sicília, na Normandia, em todas partes, não nos importava onde estávamos. Estávamos em guerra. E a guerra é 'matar, matar, matar' (...) A guerra não é psicológica, não é os serviços de Inteligência, nem a espionagem. É m#rd@ isso. São fuzis e balas. Por 5 centavos a peça. E a morte". Filmara em 1980 "The Big Red One" ("Agonia e Glória"), a partir de sua própria experiência como soldado.

Ernest Pyle

Nascido em 1900, o repórter americano Ernest Pyle morreu em abril de 1945 sob as balas japonesas em Okinawa, ao lado do Exército dos EUA, logo após ganhar o prêmio Pulitzer. Cobriu para a agência Scripps-Howard a guerra na África do Norte, na Itália e na França, do desembarque da Normandia à libertação de Paris. 

Foi um correspondente de guerra de primeira linha, que recorria a um estilo simples e direto para alcançar pessoas comuns, de soldados a civis. O filme "Story of G.I. Joe" ("Também Somos Seres Humanos"), dirigido por William Wellman e interpretado por Robert Mitchum, usa como base seus relatos. Pyle morreu antes da estreia da produção, em 1945. Samuel Fuller dizia que este filme era "o mais autêntico" entre os produzidos durante a guerra.

Joseph Kessel

O escritor e jornalista francês Joseph Kessel (1898-1979), nascido na Argentina, coautor da letra da famosa canção da resistência francesa "Chant des Partisans", escreveu "Le bataillon du ciel", a epopeia dos paraquedistas franceses que ajudaram no avanço aliado na Normandia depois do desembarque.

Não estava na Normandia no dia 6 de junho de 1944. Em 1942, disse a De Gaulle: "quero combater". O general respondeu: "Escreva um livro melhor sobre a Resistência". Esse livro, publicado em 1943, foi "O exército das sombras".

Na cidade francesa de Bayeux, na Normandia, em colaboração com a organização Repórteres Sem Fronteiras, conta com um memorial dedicado aos jornalistas mortos trabalhando desde 1944, com dois mil nomes, um espaço único na Europa. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.