Ideais democratas

Ideais democratas

Aprovação da reforma da Saúde resgata valores nobres, mas lança sombras sobre o futuro dos Estados Unidos

, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Partidos políticos tornam-se a encarnação de suas causas. Nos últimos 90 anos, o Partido Republicano encarnou a causa da liberdade individual e do dinamismo econômico. Por um período semelhante, o Partido Democrata, na sua melhor forma, encarnou a causa da justiça e da segurança para a família. Ao longo do último século, ambos construíram um sistema de bem-estar social, tijolo por tijolo, para proteger os cidadãos contra os reveses do destino.

Para aqueles que, como eu, cresceram com um cartaz de Hubert Humphrey (ex-senador e vice-presidente americano entre 1965 e 1969, durante o governo de Lyndon Johnson) na parede da sala e uma tradição familiar de ativismo no Partido Democrata, é fácil reconhecer o DNA democrata no conteúdo da reforma do sistema de saúde e na maneira com que ela foi aprovada. Tivemos a rebeldia inevitável, as neuroses, mas também a preocupação elementar em relação aos vulneráveis e o idealismo elevado.

E houve também a fé no grande projeto liberal. Os democratas começaram a proteger os desempregados na época do New Deal (plano de recuperação econômica após a Crise de 1929), incluindo idosos e pobres. Agora, graças à reforma do sistema de saúde, milhões de famílias trabalhadoras dormirão à noite sabendo que não estão mais a apenas uma doença da ruína financeira.

Para os apóstatas, como eu, observar a aprovação desta proposta foi como assistir a uma antiga reunião de família. Bastava um rápido olhar para reconhecer todo o conjunto das características que tanto adoramos e também aquelas que consideramos irritantes nessas pessoas.

O presidente Barack Obama e a líder democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, eram os nomes certos para desempenhar os papéis de protagonistas. Ambos encarnam as duas principais alas do partido, as elevadas aspirações da classe intelectual e a natureza implacável, quase mecânica, do aparato partidário. Tanto Obama quanto Pelosi possuem a tenacidade política que só pode ser encontrada naqueles que vivem para o governo e acreditam em todas as suas possibilidades. Em algum momento, eles poderiam ter recuado em suas aspirações, mas mantiveram suas convicções até o fim.

Oposição. Os membros da equipe Obama-Pelosi passaram o último ano numa busca tortuosa e errante, suportando a exasperante mesquinhez dos colegas de partido de mentalidade estreita, a opinião pública hostil, as críticas e a desinformação grosseira, um monte de ideias absurdas e as previsões equivocadas de pessoas que, como eu, pensavam que as chances de sucesso da proposta eram pequenas. Por sua capacidade de recuperação, eles merecem as honras da posteridade.

Ainda assim, confesso que ao assistir a tudo isso volto a me lembrar do motivo pelo qual me desliguei espiritualmente do Partido Democrata. A essência dos EUA está na vibração do mercado, na mobilidade das pessoas e na demolidora criatividade dos empreendedores.

Esta vibração evoluiu de uma mistura de fervor religioso e abundância material, mas foi sustentada por opção pelos fundadores da nação, que criaram mercados nacionais de capital para romper o domínio arraigado dos agricultores proprietários de terras. Esse dinamismo foi sustentado pelos republicanos do século 19, que construíram as estradas de ferro e as universidades, criadas a partir da concessão de terras para estabelecer uma rede entre os mercados separados por grandes distâncias.

Hoje, o vigor americano é desafiado em duas frentes. Em primeiro lugar, o país caminha para a geriatria. Outros países gastam cerca de 10% do PIB com o sistema público de saúde. Nós gastamos 17%, com a previsão de gastar, em breve, 20% e, depois, 25%. Esta reforma deveria pôr fim a esse crescimento asfixiante, que deve tomar o espaço de investimentos na inovação, na educação e em outros setores. Mas a nova legislação não fará isso.

Com a palavra "segurança" gravada no coração, o Partido Democrata simplesmente não dispõe de estrutura para cortar gastos que melhorariam a saúde e a segurança. O partido sustenta, mas não é capaz de dizer: "Basta."

A segunda grande ameaça à vibração americana é a explosão da dívida federal. Novamente, os democratas podem enunciar os termos da austeridade fiscal, mas não têm em seus corações a paixão pelo que professam. Esta reforma está repleta de truques para obter uma avaliação favorável do Gabinete Orçamentário do Congresso, mas não para equilibrar o orçamento. Os democratas fizeram o suficiente para se livrarem de seu problema político (evitar a aparência de irresponsabilidade fiscal), mas não o bastante para resolver o problema de verdade.

Ninguém sabe qual será o resultado da reforma. Trata-se de uma tarefa exponencialmente mais difícil do que a guerra do Iraque, por exemplo. No entanto, para mim, ela parece ser o fim de alguma coisa, não o começo de outra etapa. Transmite a impressão de ser a nobre conclusão do grande projeto da esquerda da construção de um sistema abrangente de bem-estar social.

Decadência. A tarefa diante de nós é salvar o país da estagnação e da ruína fiscal. Sabemos o que é necessário para atingir tal fim. Temos de aumentar o imposto sobre o consumo, preservar os benefícios aos pobres e reduzi-los para a classe média e para os ricos. Temos de investir mais na inovação e no capital humano.

O Partido Democrata, de acordo com aquilo que revelou sobre si mesmo no último ano, não está à altura desse desafio (assim como o Partido Republicano também não está). Este país parece uma família gastadora que avança para a falência e anuncia, no último minuto, que fará uma imensa doação para caridade. O gesto generoso é admirável, mas seria melhor que eles tivessem vendido algumas das Mercedes para financiar o custo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É HISTORIADOR, ESCRITOR E

COMENTARISTA POLÍTICO

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