Ideologia e integridade

A campanha presidencial dos EUA deve versar sobre problemas do país, mas os partidos estão divididos em relação aos temas. A história diz que o que os políticos afirmam na campanha é um bom indicador da maneira como governarão. Na mídia, porém, muitos tentam fazer da personalidade e do caráter o centro do debate. O caráter não é inteiramente irrelevante. O próximo presidente encontrará problemas que hoje ninguém incluiu em sua agenda. Portanto, é importante entender como ele deve reagir. Só que o aspecto do caráter que mais importa não é o que a imprensa focaliza. Na realidade, ele costuma ser menosprezado.

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2015 | 02h01

As pessoas não deveriam se preocupar se o candidato é ou não alguém com quem gostariam de tomar uma cerveja. Tampouco deveriam se preocupar com sua vida sexual ou seus gastos, a não ser que envolvam corrupção. Devemos nos preocupar é com a integridade intelectual, com a disposição de encarar os fatos.

Em economia, se nada do que aconteceu nos últimos sete anos abalou nossas convicções foi porque ou não prestamos atenção ou não fomos honestos conosco mesmos. Tempos como os atuais exigem uma combinação de espírito aberto e determinação em fazer o melhor. Como disse Franklin Roosevelt: "O país exige uma experimentação ousada. O bom senso manda pegar um método e experimentá-lo. Se ele cai, admitam e tentem outro. Mas, acima de tudo, tentem alguma coisa."

No entanto, o que vemos em muitas figuras públicas é o comportamento que George Orwell descreveu: "Acreditar em coisas que sabemos serem falsas e depois, quando nos mostrarem que estávamos errados, distorcermos os fatos para mostrar que estávamos certos". Eu previ uma inflação que nunca houve? Bem, o governo falsificou os números ou eu nunca disse o que disse.

Não estou pedindo o fim da ideologia na política, porque isto é impossível. Todos têm uma visão de como o mundo funciona. O que deveríamos procurar não é a ausência de ideologia, mas um espírito aberto, disposto a considerar a possibilidade de que certas partes da ideologia podem estar erradas. A imprensa pune o espírito aberto porque o jornalismo ambíguo é mais fácil e seguro do que a análise política. Hillary Clinton apoiou acordos de comércio nos anos 90, mas agora ela é contra. Talvez tenha aprendido com a experiência, algo que deveríamos elogiar, e não ridicularizar.

A quantas anda a integridade intelectual? Mal, pelo menos do lado republicano. A lista de assessores de Jeb Bush inclui personalidade como Paul Wolfowitz, que previu que os iraquianos nos receberiam como libertadores. Ao mesmo tempo, nenhum republicano importante admite que a reforma da saúde teve consequências terríveis: maciço cancelamento dos seguros existentes, mensalidades altas, destruição de empregos.

O problema é que não estamos apenas falando de erros políticos, mas de jamais admitir o próprio erro. Não ser capaz de dizer que errou é uma falha de caráter. A covardia moral deveria desqualificar quem se candidata. Não queremos que próximo presidente responda a uma crise ditada por alguém que ainda não consegue admitir que a invasão do Iraque foi um desastre, mas que a reforma da saúde não foi. Ainda penso que as eleições deveriam tratar de problemas. Mas, se tivermos de falar de caráter, falemos do que importa, ou seja, da integridade intelectual. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.