Idolatria a ditador soviético pode unir russos e georgianos

Figura de Stalin, adorada na Geórgia, mas atacada intensamente durante a perestroika, voltou a ser respeitada na Rússia de Vladimir Putin

O Estadao de S.Paulo

04 de outubro de 2008 | 00h00

Em Gori, lugar de nascimento de Josef Stalin, uma poeirenta cidade provinciana onde uma estátua em mármore do ex-líder soviético domina a praça central, os brindes ao "nosso grande camarada" são comuns em nascimentos e casamentos. Há poucos dias, no Museu de Stalin, jovens georgianos em uniformes militares soviéticos vendiam camisetas e garrafas de vinho com a imagem do ex-líder, enquanto varredores retiravam pedaços do reboco caído nos recentes bombardeios russos. Olga Topchishvili, chefe dos guias do museu, contou que passou quase 30 anos glorificando os feitos de Stalin, até que, três meses atrás, o museu acrescentou uma nova "seção gulag". "A seção consiste de uma lâmina do tamanho de uma carta que cita frases de uma edição do jornal Pravda de 1997: "Cerca de 3,8 milhões de pessoas foram processadas entre 1921 e 1954", dizia o jornal. "Cerca de 643 mil foram condenadas à morte. E isso aconteceu em um país que passara por três revoluções, duas guerras mundiais, uma guerra civil e vários conflitos armados locais." Os números exatos não são conhecidos, mas os historiadores afirmam que a realidade foi muito mais sangrenta: 18 milhões de pessoas foram enviadas aos gulags durante o governo de Stalin, enquanto 10 milhões de camponeses morreram ou foram mortos durante a coletivização do início dos anos 30, e cerca de 1 milhão de pessoas foram executadas nos expurgos de 1937-38. Mas Topchishvili afirmou que o fato de o novo achado ser exibido é um progresso. "Até três meses atrás, ninguém queria falar dessa parte da história." Jacob Jugashvili, bisneto do ditador de 36 anos, hoje um artista de Tbilisi, disse que se os georgianos têm nostalgia de Stalin é porque ele tornou um pequeno país parte de uma grande superpotência. Jugashvili, que cresceu em Moscou, acrescentou que, quando os georgianos ouvem seu famoso sobrenome, quase sempre comentam: "Stalin era georgiano; por isso era grande!" Ele afirmou que foi difícil crescer como bisneto de Stalin na Rússia da década de 80, enquanto a liderança de seu bisavô era atacada no período de Mikhail Gorbachev. Segundo ele, naquela época os georgianos respeitavam muito mais seu legado, embora na Rússia de Vladimir Putin a figura de Stalin tenha voltado a ser respeitada. Ele disse no ápice da perestroika, em 1989, estava no colégio. "Os jornais de Moscou publicavam artigos com as manchetes ?Dugashvili é um assassino!? Eu tinha 16 anos e fiquei perturbado. Não sabia como me defender." Hoje, o respeito por Stalin pode unir georgianos e russos. Nodari Baliashvili, de 72 anos, tem uma tatuagem de Stalin nas costas e outra de Stalin e Lenin no peito. Ele lembra que após o início da guerra, em 7 de agosto, estava trabalhando como segurança na garagem de ônibus quando um coronel russo entrou apontando uma pistola para ele. Baliashvili disse que tirou a camisa e o coronel baixou a arma, beijou-o no rosto e disse: "Vovô, vá para casa." D.B.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.