AP Photo/Markus Schreiber, Pool
AP Photo/Markus Schreiber, Pool

Idosa de 96 anos foge de julgamento por crimes durante o nazismo e é presa na Alemanha

Irmgard Furchner foi detida horas depois pela polícia e a audiência foi remarcada para outubro; ela está presa preventivamente

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 18h24

BERLIM - Uma mulher alemã de 96 anos de idade fugiu do lar de idosos onde vivia para escapar de um julgamento por sua participação em campos de concentração nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.  Ela foi detida horas depois pela polícia e a audiência foi remarcada para outubro. A fuga levantou questões na opinião pública alemã sobre o julgamento de criminosos de guerra nazista, que hoje estão em idade muito avançada. 

Irmgard Furchner, que trabalhou como secretária no campo de concentração nazista de Stutthof quando tinha 18 anos, foi parada pela polícia enquanto caminhava por uma rua movimentada em Itzehoe, no norte da Alemanha, onde reside em um lar de idosos. A Justiça determinou que a acusada fosse colocada em prisão provisória e seu julgamento será retomado em 19 de outubro.

O problema começou ainda pela manhã, 20 minutos após o horário marcado para seu julgamento, quando o juiz presidente anunciou que Irmgard havia fugido e que um mandado de prisão havia sido emitido para ela. "A acusada está em fuga", disse Friederike Milhoffer, porta-voz do tribunal em Quickborn, aos repórteres, que ficaram atônitos com a virada dos acontecimentos que atrasaram o início do julgamento.

"Ela pegou um táxi pela manhã e estava a caminho da estação de trem", comentou. As autoridades dizem que não conseguiram rastrear sua viagem depois disso.

Havia mais de 50 jornalistas e espectadores esperando o início do julgamento dentro do tribunal, incluindo 12 pessoas que representavam os co-autores do processo contra ela. O julgamento marcou um total de 37 dias de depoimento, e deveria durar até pelo menos o próximo mês de junho.

Irmgard Furchner, que tinha entre 18 e 19 anos na época dos crimes que é acusada de cometer, será a primeira mulher envolvida no nazismo a ser julgada na Alemanha nas últimas décadas. Este julgamento precederá o de um ex-guarda do campo de concentração nazista Sachsenhausen, perto de Berlim, que começará dentro de uma semana. Até agora, a Alemanha, que durante muito tempo foi relutante em procurar criminosos de guerra, nunca julgou ex-nazistas tão idosos.

O julgamento também deverá ocorrer na véspera do 75º aniversário da sentença de morte por enforcamento em Nuremberg de 12 dos principais líderes do Terceiro Reich. 

Fuga premeditada

Segundo a revista Der Spiegel, a acusada já havia informado o tribunal sobre suas intenções de fuga, com uma carta enviada há algumas semanas ao juiz. Na carta, ela assegurou que "boicotaria o julgamento, (...) já que seria degradante para ela participar dele", disse à AFP o advogado Christoph Rückel, que há anos representa os sobreviventes de Shoah.

Este comportamento provocou uma grande polêmica no país. "Isso apenas mostra desprezo pelos sobreviventes e pelo Estado de Direito", disse Rückel. "Embora esta mulher seja muito velha, o tribunal não deveria ter tomado mais precauções?" perguntou o advogado.

"Se ela está em boa forma para fugir, está em boa forma para ir para a prisão", disse, por sua vez, Efraim Zuroff, presidente do Centro Simon Wiesenthal, que abre processos contra nazistas ainda vivos.

Segundo a acusação, a mulher de 96 anos de idade teve um envolvimento ativo no assassinato de detentos no campo de concentração de Stutthof, na atual Polônia, onde ela trabalhou como datilógrafa e secretária do comandante do campo, Paul Werner Hoppe, entre junho de 1943 e abril de 1945. Cerca de 65 mil pessoas morreram no campo perto da cidade de Gdansk, incluindo prisioneiros judeus, poloneses e prisioneiros de guerra soviéticos.

De acordo com Rückel, ela cuidou de toda a correspondência do comandante do acampamento.  "Ela também digitou as ordens de execução e deportação e as rubricou", disse ele à emissora pública regional NDR.

Após um longo procedimento, o tribunal decidiu em fevereiro que a mulher idosa estava apta a ser julgada, apesar de sua idade avançada. Mas as audiências judiciais devem ser limitadas a algumas horas por dia.

Morte de suspeitos

Após 76 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, o sistema judicial alemão ainda está à procura de ex-criminosos nazistas vivos. Os promotores alemães estão atualmente examinando oito casos envolvendo antigos funcionários dos campos de Buchenwald e Ravensbrück em particular, segundo o Escritório Central para a Investigação de Crimes Nacional-Socialistas.

Nos últimos anos, vários julgamentos tiveram que ser abandonados devido à morte dos suspeitos ou à sua incapacidade física de comparecer em juízo.Mas embora a Alemanha tenha condenado quatro ex-guardas ou funcionários dos campos nazistas de Sobibor, Auschwitz e Stutthof nos últimos dez anos, o país processou muito poucas mulheres envolvidas com o nazismo, dizem os historiadores.

Pelo menos três outras funcionárias do campo nazista foram julgadas, mas uma delas morreu no ano passado antes de o julgamento ser concluído. Cerca de 4 mil mulheres trabalharam como guardas nos campos de concentração, de acordo com historiadores. / EFE e AFP


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.