EFE/EPA/GUILLAUME HORCAJUELO
EFE/EPA/GUILLAUME HORCAJUELO

Idosos sofrem com coronavírus e sem atendimento médico em asilos na França

Jornal Le Monde relatou diversos casos de moradores de asilos que não conseguiram ajuda e morreram, e questiona 'falta de transparência do governo'

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 14h59

PARIS - Cuidadores submersos em números insuficientes que tentam salvar residentes confinados em seus quartos isolados: atrás das portas fechadas, ao abrigo dos olhares das famílias proibidas de visitá-los, se encena uma tragédia oculta nas centenas de estabelecimentos de abrigo para pessoas idosas dependentes (Ehpad) na França, onde o coronavírus conseguiu se infiltrar.

A guerra de atrito contra a Covid-19 está apenas começando nas casas de repouso. Até o momento, o governo tem uma visão apenas parcial do número de vítimas. Faltam meios, mas também vontade dos estabelecimentos e do governo de se mostrar transparente sobre o balanço.

Os doentes ficam isolados em seus quartos. As famílias não podem visitá-los. O problema afeta uma centena de asilos na França. Todos atingidos pelo coranavírus. O governo só tem dados parciais sobre o problema. O jornal Le Monde, da França, acusa as autoridades de falta de transparência na divulgação de dados.

“Cuidadores submersos em números insuficientes que tentam salvar residentes confinados em seus quartos isolados: atrás das portas fechadas, ao abrigo dos olhares das famílias proibidas de visitá-los, se encena uma tragédia oculta nas centenas de estabelecimentos de abrigo para pessoas idosas dependentes (Ehpad) na França, onde o coronavírus conseguiu se infiltrar. A guerra de atrito contra a Covid-19 está apenas começando nas casas de repouso”, escreve o jornal.

Um dos primeiros atingido foi o Ehpad Le Bousquet de la Mandallaz, em Sillingy (Haute Savoie), no centro-sudeste da França. Ele teve sete mortes no começo de março. No começo nos olhavam como leprosos, depois, passado o medo das pessoas do entorno recebemos auxílio de solidariedade incrível", contou Eric Lacoudre, diretor do lugar. 

No Ehpad des Aiguerelles, em Mauguio (Hérault), foram registrados 3 mortes de pacientes com testes positivos e quatro outros morreram sem serem testados, mas apresentavam os sintomas da doença. Vinte dos 78 aposentados pegaram o vírus assim como 6 dos 40 cuidadores.

Em Paris, 5 pessoas morreram no Ehpad da Fundação Rotschild. Outro cinco morreram no asilo Le Coeur em Louveciennes (Yvelines) com sintomas da covid-19. Em Thise, 15 pensionistas morreram com sintomas da doença. Muitos familiares foram informados das mortes de seus parentes sem que lhes fosse dado alguma explicação sobre a causa. 

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No Ehpad de Cornimont, o balanço é de 20 mortos. Nenhuma das direções desses abrigos para idosos quis se manifestar sobre as mortes.  A França não distingue estatisticamente as mortes nos Ehpads daquelas ocorridas em hospitais ou nas cidades. Eis a razão de não se ter uma estatística correta do fenômeno.

Quando os idosos morrem em hospitais, não se pergunta de onde veio ou onde morava o paciente.

A região Hautes-de-France é uma exceção. Ela fez uma estatística. Dezoito de 580 Ehpads declararam ter pelo menos um idosos atingido pela doença, 81 idosos foram infectados e 24 morreram.

Na região Île-de-France (a região do entorno de Paris) 39 mortes foram registradas. "Nós queremos ter uma informação precisa da situação. Seria um erro gigantesco que nos seria reprovado se a nós subestimarmos a realidade da mortalidade entre as pessoas mais frágeis", explica Aurélien Rousseau, diretor da Agência Regional de Saúde (ARS) de Île-de-France. 

Não haveria, portanto, uma omertà, sobre o problema apesar de numerosos dirigentes de asilos terem se recusado a dar informações sobre a situação de seus estabelecimentos. A reunião de informações, segundo disse Rousseau ao Le Monde, permitirá acompanhar a situação nos asilos e a necessidade de equipamentos, como máscaras, caso a caso.

Médicos geriatras apelam ao governo para que aja de forma mais decisiva contra o avanço da epidemia. A primeira exigência é fazer o diagnóstico mais rápido. O professor Hubert Blain, chefe do setor de geriatria do CHU de Montpellier, alerta aos colegas há algumas semanas sobre os sintomas atípicos que numerosos pacientes idosos apresentam quando infectados: forte diarreia, perda de equilíbrio, problemas cognitivos. 

Os diretores de asilos devem ser orientados a detectar esses sintomas que precedem a febre e a tosse a fim de isolar os casos suspeitos antes que contaminem outros residentes. Detectar mais rapidamente os doentes significa facilitar para os asilos o acesso ao teste da covid-19. Tantos para os idosos quanto para seus cuidadores.

A principal reivindicação dos médicos é o uso de máscara por todo o pessoal que trabalha no asilos. Estudos mostram que 50% dos portadores do Covid-19 são assintomáticos. Os médicos estimam a necessidade de 500 mil máscaras para os trabalhadores dos Ehpads. O ministro da saúde da França, Olivier Véran, afirmou que os asilos terão as máscaras necessárias. 

Mas a maioria das agências regionais de saúde informaram ao jornal que não têm hoje em estoque o necessário para proteger os cuidadores que não estão em contato com idosos doentes.

Os médicos também se mobilizam para assegurar a internação dos idosos em hospitais independentemente do aumento do número de vítimas entre a população, pois os asilos não tem equipamentos nem pessoal para cuidar dos doentes de covid-19. "Não é necessário raciocinar em termos de idade para a hospitalização, mas em termos de chance de superar a doença", afirmou o professor Claude Jeandel, presidente do Conselho nacional profissional de Geriatria.

Hoje "nós somos capazes de cuidar das pessoas que a gente considera poder salvar", afirmou Aurélien Rousseau. "São decisões médicas desse tipo que são tomadas todos os dias por todos os médicos. Ela são pesadas. Ela são colegiadas. mas nós permanecemos preocupados, pois nós não conhecemos como será a evolução dessa epidemia". Na Île-de-France, metade das pessoas que estão internadas com respiração artificial tem mais de 60 anos. 

Caminhões brancos e agentes funerários

Caminhões brancos e furgões vermelhos diante do Ehpad (asilo para idosos com necessidades médicas) , homens vestidos de azul e agentes funerários de branco. Numerosos caixões. Segunda-feira, 23 de março, pela manhã, novos corpos de moradores du Couarôge, um casa para pessoas idosas de Cornimont, ao sul dos Vosges, foram levados em direção ao cemitério do entorno. As brigadas da gendarmerie de Saulxures-sur-Moselotte acompanharam os funerais em razão do confinamento.

Desde o começo da epidemia , o número de mortes nesse estabelecimento municipal que conta com 166 leitos em dois pavilhões , no meio das pradarias a perder de vista , eram 15, segundo o jornal Vosges-Matin. Na segunda à noite, chegou a 20 com “provável ligação possível com a covid-19”, anunciou a Agência Regional de Saúde do Grande-Leste e a repsonsáveis pela segurança pública no Vosges. Os pacientes – idosos – não foram testados.

Nesse pequeno canto do maciço dos Vosges onde a idade média é muito elevada, todos conhecem o caminho para os cemitérios. Em La Bresse, estação de esqui vizinha, a metade do vilarejo tem mais de 60 anos. mas o que está acontecendo em Cornimont desde 3 de março é fora do comum. “Há uma mortalidade muito maior no asilo da cidade, é evidente”, disse a prefeita da cidade Marie-Josèphe Clément ao Le Monde. “As pessoas muito idosas e com patologias sérias estão morrendo”.

Basta ler os anúncios fúnebres da imprensa local para ver que, nas últimas duas semanas, os obituários se multiplicaram no vale do Moselotte. “Entre 6 de fevereiro e 3 de março não tivemos nenhum falecimento”, conta o jornalista David Jeangeorges, dos ite Remiremontvallés. 

“Depois, tivemos uma dezena de mortos”, contou ao le Monde. De acordo com ele, nem mesmo durante o calor do verão de 2003 a cidade viu algo parecido. Entre 13 e 23 de março, foram onze mortes na cidade de Cornimont.

Numerosas pessoas foram infectadas. Diversos políticos locais apresentaram sintomas e estão de quarentena. O prefeito de uma cidade vizinha, de 64 anos, e cuja mãe morreu de covid-19 em Cornimont, está internado em estado grave. “Em Cornimont isso tudo começou no dia 3 de março”, afirmou a prefeita. Quatro dias mais tarde, a prefeita – uma antiga cuidadora do asilo da cidade – soou o alarme. Por meio de um comunicado, ela cancelou o carnaval anual de 8 de março em razão de um caso confirmado de coronavirus no asilo. 

As coisas pioraram rapidamente em seguida. No dia 14, dois moradores do asilo foram infectados , assim como um membro da equipe de cuidadores do Ehpad. Em seguida, 17 casos da doença foram notificados – quatro cuidadores foram infectados e um foi hospitalizado. Estudantes da escola de enfermagem de Remiremont e o pessoal do asilo para aposentados de Saulxeres-sur-Moselotte foram chamados a Cornimont como reforço. 

“Como o vírus chegou aqui?” se questiona a prefeita. “Nós estamos perto da Alsácia. Nós temos pessoas aqui que fazem parte do movimento evangélico”. A cidade está a 50 quilômetros de Mulhouse, onde a igreja La Porte Ouverte Chrétienne (A Porta Aberta Cristã) se reuniu de 17 a 24 de fevereiro. Numerosas pessoas vindas de diversas regiões foram contaminadas ali. “Será que pessoas infectadas da minha cidade estiveram lá? Eu não sei”, afirmou a prefeita.

 


 

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