REUTERS/Manaure Quintero
REUTERS/Manaure Quintero

Idosos veem coronavírus como 'sentença de morte' na Venezuela

Sem acesso a remédios para doenças crônicas e recebendo pensão de US$ 3 por mês, muitos dependem de doações para conseguir se alimentar

Vivian Sequera, Reuters, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 14h00

CARACAS - Carlos Blanco, aposentado de 81 anos, e sua esposa, Olga Rodríguez, 78, são diabéticos, mas não recebem seus remédios há mais de um ano, em meio à crise econômica na Venezuela que esmagou sua pensão de cerca de três dólares por mês, o valor de um único pão.

Agora, em meio à quarentena nacional ordenada em 16 de março pelo presidente Nicolás Maduro para tentar conter a expansão do coronavírus, o casal enfrenta maiores dificuldades para comprar os poucos alimentos que consome. Seu dia é longo, sem acesso a serviços como televisão a cabo ou internet funcionando.

"Temos uma sentença de eutanásia para idosos na Venezuela”, disse Blanco, que mora no quarto andar de um prédio no bairro de Coche, a oeste de Caracas.

Na Venezuela, com a população atingida pela hiperinflação por três anos, seis anos de recessão e frequentes cortes no fornecimento de água e eletricidade, pagar por máscaras, remédios e alimentos por vários dias em quarentena é um fardo pesado.

Mas esse peso se multiplica se a renda mensal for de 250.000 bolívares por mês, ou o equivalente a cerca de três dólares. É com isso que cerca de 3 milhões de aposentados e pensionistas como Blanco vivem a cada mês.

Se em outras partes do mundo onde o covid-19 atingiu fatalmente a população de adultos acima de 55 anos, na Venezuela a situação é mais do que preocupante devido à crise econômica.

O governo Maduro afirmou que até 5 de abril foram relatados 159 casos de covid-19  e 7 mortes no país.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Ajuda Humanitária (OCHA) afirmou que, do número total de casos venezuelanos, cerca de 22 são de pessoas com mais de 60 anos de idade.

Os especialistas médicos expressaram suas dúvidas sobre a veracidade dos dados oficiais, indicando que não há razões para o vírus se comportar de maneira diferente na Venezuela em comparação com outros países, onde a taxa de contágio foi maior, atingindo fortemente os idosos.

Coronavírus esmaga ainda mais os idosos

Os idosos "daqui vêm arrastando um declínio progressivo em suas condições de vida: desnutrição, incapacidade de pagar por seus medicamentos, falta de acesso à saúde, migração de filhos e família", disse Luis Francisco Cabezas, diretor do grupo não governamental Convite, que desde 2006 trabalha em direitos humanos e estudou as condições dos idosos do país sul-americano.

De acordo com um estudo divulgado em novembro pelo Convite e pela HelpAge, também não governamental, que consultou 903 venezuelanos com mais de 55 anos em três dos 23 estados do país, 77% deles disseram não ter acesso a comida suficiente. Um em cada dez disse que vai dormir com fome todas as noites.

Embora não haja dados oficiais, a ONG Convite estima que pelo menos 900.000 idosos foram deixados sozinhos no país devido ao êxodo de pelo menos 4,8 milhões de venezuelanos que fugiram da crise nos últimos anos, segundo dados das Nações Unidas.

Blanco disse que ele e sua esposa, Olga, comem uma arepa com café preto pelas manhãs, todos os dias, e arroz com lentilhas entre as 4 e as 5 da tarde. Ele acrescentou que, apesar de receberem ajuda de um de seus cinco filhos, professor de uma escola particular de Caracas, não é suficiente para comer três vezes ao dia.

Outros estão em pior situação, como Andrea Guerrero, 80, que mora sozinha em uma pensão, onde paga 50.000 bolívares, seis centavos de dólar, por uma pequena sala no bairro de La Cruz, em Chacao, a leste de Caracas. 

"Então, todos nós vamos morrer?", pergunta Guerrero, quando questionada sobre a quarentena e enquanto esvazia 6 porções de alimentos doados em marmitas, que é distribuído gratuitamente uma vez por semana pela Prefeitura de Chacao a 80 idosos que estão sozinhos em condições de pobreza ou abandono por seus parentes.

Quando ela não tem a comida preparada que os voluntários da prefeitura entregam - arroz com frango, sopas, carne moída, banana assada - são os vizinhos que ajudam, disse Guerrero, que ganha dinheiro lavando pratos em restaurantes.

Mas em quarentena "isso está difícil... não estamos fazendo nada".

Maria Araque também está em situação parecida. Com 90 anos, diabética, ela não tem acesso aos remédios faz quase um ano. Recebendo a pensão de três dólares, usou uma parte para comprar a única máscara de proteção que tem, para poder receber as doações de comida.

Blanco e sua esposa passam o dia assistindo televisão, sem acesso ao serviço a cabo, porque não podem pagar. "É difícil, estou muito ansioso. Tomo sol na janela, ando dentro do apartamento, mas muitas vezes me desespero."

 

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