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Ignorância ou falsa indignação?

A disputa entre os Estados Unidos e a Europa intensificou-se com a reunião de cúpula da União Europeia, em Bruxelas, concluída ontem. O fato de 35 líderes mundiais terem sido espionados pela Agência de Segurança Nacional (NSA) americana inflamou até os mais pacíficos, como o presidente francês, François Hollande.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2013 | 02h07

A própria chanceler alemã, Angela Merkel - grande amiga dos EUA, que, em julho, se recusara a travar uma batalha a esse respeito com os americanos -, manifestou sua indignação quando soube que seu telefone celular pessoal fora grampeado.

Ocorre que Merkel passou a primeira parte de sua vida atrás da Cortina de Ferro, na socialista Alemanha Oriental, onde a Stasi - temida agência de inteligência - espionava até as criancinhas. Portanto, ela está revoltada por encontrar as mesmas manias, as mesmas perversões, no chamado mundo democrático, e entre aliados e amigos.

Todos os dirigentes europeus reclamaram energicamente em Bruxelas e alguns telefonaram para o presidente Barack Obama para manifestar a revolta. O minúsculo Luxemburgo era como um galo esticando bravamente seu pescoço. O italiano Enrico Letta, o belga Elio di Rupo - todo mundo se uniu às reclamações. Houve apenas uma leve hesitação dos britânicos, seja porque o humor e o sangue-frio estão inscritos em seus genes, seja porque eles sabem muito bem como atuam seus amigos americanos. Mas, terminados os apelos à moral, era preciso fazer algo.

Por acaso a Europa empreenderia uma ação comum contra Washington? Então, frisou-se o fato de que a questão dizia respeito a cada país espionado, e não à Europa enquanto entidade política. Mesmo assim, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, propôs que as tratativas com os EUA sobre livre comércio fossem congeladas enquanto os americanos não tomarem medidas para controlar seus espiões. Não foi acompanhado por Hollande, que, entretanto, usara palavras muito duras contra os EUA. E muito menos por Merkel.

Nos corredores, os ânimos se acalmaram. Sobretudo os embaixadores, que estão muito bem colocados para saber que a coleta de informações é uma atividade proibida, vergonhosa, mas universal, constante e cada vez mais intensa. Um embaixador da França usou termos quase protetores falando dos "políticos". "É preciso um gesto", disse. "É preciso fazer alguma coisa para que a imprensa possa falar disso. Então, vamos gesticular em coro, meus amigos!"

O jornal Le Monde publicou um artigo de opinião de Jacques Villain, membro da Academia do Céu e do Espaço da França. Ele conhece muito bem os serviços de informação de seu país e de vizinhos europeus. "O que me intriga é o profundo espanto dos dirigentes europeus. De duas uma: ou eles não analisaram a história das relações entre os EUA e os países da Europa nos últimos 60 anos ou zombam dos cidadãos europeus ao exibirem uma falsa indignação." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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