Igreja argentina condena fim de leis pró-militares

"Profundo mal-estar." Foram estas as palavras utilizadas pelo episcopado argentino pela recente decisão do juiz Gabriel Cavallo de declarar nulas as leis do Ponto Final e da Obediência Devida, que em 1986 e 1987, respectivamente, implicaram o perdão aos ex-repressores envolvidos em graves violações dos direitos humanos durante a última ditadura militar (1976-83). Os bispos argentinos afirmaram que se sentiam mal pela "insistência" com a qual diversas pessoas tinham de estar "rebuscando coisas no passado". Com a nulidade dessas leis, órgãos de defesa dos direitos humanos e parentes de desaparecidos políticos pretendem iniciar uma série de processos contra os ex-repressores, que haviam sido proibidos durante mais de uma década. A declaração foi realizada durante a primeira reunião de cúpula do Episcopado neste ano. Ao longo da reunião, que começou na quarta-feira, alguns bispos mais progressistas - minoria no clero argentino - haviam especulado em emitir uma declaração no dia 24 de março, data em que se comemora o 25º anivérsário do golpe militar. Para evitar polêmica, em vez de um posicionamento conjunto do clero do país, ficou decidido que cada bispo decidirá individualmente que mensagem destinar a seus fiéis. A igreja argentina teve ativa participação na repressão durante a ditadura. As principais autoridades eclesiásticas do país abençoaram o golpe, alegando que os militares estavam defendendo o "estilo de vida ocidental e cristão". Houve padres presentes nos lugares da tortura, apoiando os torturados e convocando os presos políticos a se arrependerem e delatarem seus colegas. A mentalidade de "cruzada" incitada pelo clero fez com que alguns repressores cunhassem frases que ficaram na antologia dos relatos dos torturados. Foi o caso do capitão "Beto", que enquanto torturava o jornalista Jacobo Timmerman, dono do jornal "La Opinión", um dos principais do país, dizia: "Somente Deus tem o poder de retirar a vida. Mas Deus está ocupado em algum lugar e, por isso, aqui na Argentina estamos encarregados dessa tarefa." Além disso, na época, o núncio papal de Buenos Aires era habitué de jogos de tênis com o então presidente e ditador, general Jorge Rafael Videla. Simultaneamente, o general Mario Chretien, comandante da Brigada de Infantaria de Montanha, convocado pela Justiça da cidade de Mendoza como a primeira testemunha para prestar esclarecimentos sobre as atividades da repressão (centros de tortura e localização dos corpos dos desaparecidos) nas províncias do oeste do país, afirmou que não possuía nenhuma informação sobre o assunto. Chretien disse que "não existem documentos sobre isso. Tudo foi incinerado". Calcula-se que mais de 2.000 pessoas desapareceram durante a ditadura nas províncias de San Juan, San Luis e Mendoza. Impassível, Chretien sustentou que durante a ditadura desconhecia o fato de que desapareciam e eram torturadas milhares de pessoas. Enquanto isso, em Buenos Aires, tanto no governo como em setores vinculados aos militares, ainda não houve movimentação jurídicas para tentar conseguir a anulação da decisão do juiz Cavallo. Somente o ministro da Defesa, Horacio Jaunarena, expressou seu desgosto em reabrir casos sobre a repressão.

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