Ilegais e drogas chegam à Europa em jet skis

Imigrantes africanos pagam menos a traficantes de pessoas se aceitarem levar quantidades significativas de entorpecente para o Velho Continente

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL , TARIFA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h04

Grupos criminosos do Norte da África estão oferecendo a quem quer chegar à Europa pelo sul da Espanha uma nova forma de superar os controles migratórios: cruzar o Estreito de Gibraltar em jet ski em alguns minutos.

O estreito tem apenas 14,4 quilômetros de largura em um de seus pontos. Até hoje, a forma mais usada pelos imigrantes era justamente a tentativa de saltar as grades colocadas em Ceuta. Outra forma ainda mais arriscada é o uso de botes. Mas diante dos controles cada vez mais fortes, a polícia espanhola confirma o registro crescente de imigrantes que optam pelo jet ski, numa viagem que pode durar menos de meia hora.

O preço da travessia é extremamente elevado para a maioria dos imigrantes. A "passagem" custa em torno de 4 mil, mas as existem "pacotes" mais baratos. Se o imigrante concordar em levar drogas recolhidas na Espanha por alguém do grupo criminoso, o preço da passagem ficaria em de 800 a 1.000, dependendo do tamanho do carregamento.

O método começou a ser identificado em 2013. No fim do ano passado, a Guarda Civil espanhola havia desarticulado um rede de traficantes que, em jet skis, fazia o transporte de drogas entre Marrocos e Espanha. Na ocasião, 12 integrantes do grupo foram presos com 422 quilos de haxixe.

Segundo a Guarda Civil, a operação começou em agosto de 2013, "quando se detectou a existência de um grupo que se dedicava a levar importantes quantidades de drogas na Espanha por via marítima". "Os envios sempre partiam das praias de Restinga (Marrocos)", dizia o comunicado da polícia. O que parecia ser apenas uma operação contra o narcotráfico se revelou uma ofensiva contra a imigração ilegal, já que os mesmos grupos que faziam o transporte de drogas também se dedicavam a levar estrangeiros para a Espanha.

Ao Estado, a Guarda Civil afirmou que, desde o final de 2013, as viagens no estreito com jet skis passaram a ser quase diárias. Há duas semanas, a polícia indicou também em um comunicado que "detectou como uma moto aquática tocou a terra na zona de La Macotilla, em Tarifa". A Guarda Civil chegou ao local antes que o piloto fugisse. O estrangeiro foi preso e a polícia ainda encontrou na região um carro com quatro suspeitos de fazer parte do mesmo grupo criminoso. Dois dos ocupantes do carro eram justamente os imigrantes que acabavam de descer do jet ski.

A polícia também descobriu que o "pacote" de viagem ainda incluía óculos de sol e roupas novas de verão, para que o imigrante rapidamente se misturasse aos turistas que, nesta época do ano, lotam as praias do sul da Espanha.

No dia 7, outra operação também identificou a chegada de um jet ski, na mesma praia de La Macotilla. O imigrante já havia saltado ao mar e estava nadando até a praia, enquanto o piloto acelerava de volta para o Marrocos. Mas o jet ski foi interceptado antes deixar as águas espanholas.

Na região de Tarifa, no Centro de Acolhimento de Estrangeiros, o Estado conversou com três africanos que haviam viajado com jet ski. Nenhum dos três permitiu que seus nomes fossem revelados, mas todos confirmaram que o esquema atrai cada vez mais gente.

Um deles - um marroquino de 28 anos - explicou que a viagem havia sido um "investimento" de toda a família. Segundo ele, pais, irmãos e primos coletaram o dinheiro e ele vendeu o carro que tinha. Se conseguir trabalho, garante que vai pagar cada um de seus financiadores. Na Espanha, o desemprego chega a 25% da população. Entre os estrangeiros, ultrapassa a marca de 35%.

Outro imigrante que havia viajado de jet ski era do Mali. Questionado se havia pago o preço integral ou levado droga para reduzir o valor da passagem, o africano manteve silêncio. Quando a reportagem concluiu a conversa, o imigrante do Mali pediu que não se confundisse traficantes com imigrantes que estavam fazendo "qualquer negócio" para chegar à Europa. "Só queremos trabalhar", disse.

O fenômeno dos jet skis e a relação entre o tráfico de drogas e a imigração ilegal coloca a polícia espanhola em estado de alerta. O número de estrangeiros que entram ilegalmente na Europa voltou a aumentar este ano. A crise na Líbia, a guerra na Síria, no Sudão do Sul e tantos outros pontos de conflito foram sentidos nas margens do Mediterrâneo.

Dados obtidos pelo Estado com a Frontex - a agência de fronteiras da Europa - mostram que 110 mil estrangeiros entraram de forma ilegal no continente nos três primeiros meses do ano, sete vezes mais que o registrado no mesmo período do ano passado. Apenas na semana passada, 78 barcos foram interceptados no Estreito de Gibraltar com mais de 750 passageiros.

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