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Ilha quer apagar estigma de porto clandestino

Chegada de africanos cresce 75% em um ano; governo envia ilegais para cidades do continente

, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Lampedusa, a ilha mais procurada por quem cruza o Mediterrâneo em botes rumo à Itália, é um deserto de estrangeiros. Mesmo tendo recebido cerca de 33 mil imigrantes africanos só em 2008 - 75% a mais do que no ano anterior -, é praticamente impossível localizar um que resida na ilha.

Por ordem do governo italiano, os 1.800 que chegaram a viver no centro de detenção da cidade foram removidos e estão espalhados pelo país, uma medida que tenta livrar a ilha turística do estigma de porto dos clandestinos. O Estado localizou dezenas de náufragos resgatados em Lampedusa vivendo na cidade de Foggia, na Itália continental, a mais de mil quilômetros do porto de chegada.

Entre os imigrantes, há originários da Nigéria, da Eritreia, de Gana, da Somália, de Burkina-Faso, da Costa do Marfim e até de Bangladesh, entre outros. Em comum, todos têm a passagem por portos da Líbia, de onde embarcaram após pagar, em média, US$ 1 mil aos traficantes que exploram a imigração ilegal na região.

Charity Akhabue é uma das sobreviventes da travessia. Nigeriana de 20 anos, embarcou em novembro para a Europa na cidade de Suara, na Líbia, com outros 71 imigrantes africanos. Cinco dias depois, quando o combustível estava acabando, ela foi resgatada pela Guarda Costeira italiana nas imediações de Lampedusa.

"Nos últimos três dias, não tínhamos mais comida nem água", recorda-se. Desde sua chegada à Itália, Charity passou pelo centro de detenção de Lampedusa e por um centro de acolhimento na Sicília. Hoje, vive em Foggia à espera de trabalho. "Graças a Deus, vou receber meus documentos de refugiada", afirmou.

Um de seus amigos é Samuel Oleike, nigeriano de 25 anos, outra testemunha do drama. Recém-formado em engenharia mecânica, falando inglês com poucas falhas, contou ter chegado à Itália vindo de Trípoli, em 5 de abril, em uma das últimas levas antes que a Guarda Costeira italiana passasse a enviar os barcos de volta para a África.

Oleike aguarda o julgamento de seu pedido de asilo político, cujas razões não aceita comentar. "Temos problemas na Nigéria. Se tiver de voltar, não sei o que farei", diz, em tom angustiado. "Gostaria de ficar, de fazer algo na minha área, a engenharia. Tudo o que eu quero é trabalhar. Aceito qualquer coisa."

A também nigeriana Queen E., de 21 anos, obteve o status de refugiada, mas nada sabe sobre seu destino. "Eu gosto da Itália, mas vou ficar onde me aceitarem. Por enquanto, tenho de ficar no "campo" (centro de detenção), porque ninguém me dá emprego", desabafa. "Os italianos não gostam de ver negros no centro da cidade, pegando seus ônibus ou trabalhando. Eles são racistas."

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