Ilusões americanas no Líbano

Fica provado que as intenções dos EUA de construir um ''novo Oriente Médio'' a partir do país são apenas um sonho

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Certa vez, uma secretária de Estado dos EUA referiu-se a um "trabalho de parto de um novo Oriente Médio". Hoje esta frase seria a mais ridícula num Líbano que desafia a gravidade - um país com dois Exércitos; um governo de "unidade" muito dividido; um boom imobiliário selvagem; e uma bomba relógio chamada "tribunal internacional".

O Líbano não é para amadores. Condoleezza Rice acreditava que na sangrenta guerra de Israel contra o movimento militante xiita Hezbollah, em 2006, estavam as sementes de um novo Oriente Médio - democrático, livre do Hezbollah e acomodado aos interesses dos Estados Unidos. Mas ficou provado que ela estava sonhando.

Quatro anos depois e o Hezbollah está mais forte do que nunca. Seu Exército é mais poderoso do que as Forças Armadas Libanesas, o grupo tem uma presença no governo, poder de veto sobre a condução do país e um líder, Hassan Nasrallah, cuja popularidade como a encarnação soberba da resistência árabe nunca esteve tão alta.

O subúrbio de Dahiye, ao sul de Beirute, controlado pelo Hezbollah, arrasado por Israel em 2006, hoje é uma área em efervescência, com as construções e o comércio, incluindo bares especializados em sucos de frutas moderníssimos e lojas de lingerie ousadas. Parece um lugar tão ameaçador quanto Canal Street em Nova York.

E os EUA continuam sonhando, embora de modo mais sóbrio. Certamente, o "novo Oriente Médio" passou a fazer parte do "eixo do mal" no quarto de despejo diplomático. Mas a política americana ainda procura ignorar a realidade.

O Hezbollah, financiado pelo Irã e apoiado pelos sírios, assumiu um papel capital na política libanesa. É um partido político, um movimento social e uma milícia para a qual o termo "grupo terrorista" é totalmente inadequado. E também o mais poderoso símbolo do que em todo o Oriente Médio se conhece como "resistência".

Esta é uma verdade dura de engolir. E é também, eu suspeito, uma verdade indestrutível. Para os Estados Unidos se absterem de qualquer contato com o Hezbollah será como jogar um jogo de xadrez médio-oriental sem algumas peças. Como mostra a história recente, esta é a receita para o fracasso.

É importante rever um pouco dessa história. O assassinato, em 2005, do primeiro-ministro do Líbano, pró-ocidental, Rafik Hariri, desencadeou protestos em massa que levaram a Síria a retirar suas tropas do país e reavivaram as velhas ilusões de um Líbano instalado solidamente no campo ocidental.

Um tribunal das Nações Unidas foi criado para investigar o assassinato do premiê, em meio à suspeita generalizada de que os sírios estavam envolvidos no crime. Um cartaz "A Verdade - para o bem do Líbano" captou essa sensação de um novo começo num país marcado pela intromissão estrangeira. Ninguém falou mais de "verdade" do que Saad Hariri, filho do líder assassinado e hoje primeiro-ministro.

E todo mundo, parece, deixou-se enganar, como se tivesse bebido alguma coisa hipnótica. Até Walid Jumblatt, líder da comunidade drusa e o derradeiro sobrevivente médio-oriental, falou de um "início de um novo mundo árabe", opôs-se à Síria e defendeu vigorosamente a instalação do tribunal. Como é considerado um guia pelos libaneses, sua posição foi bastante significativa.

Agora, num delicioso almoço em sua casa em Beirute, encontrei um Jumblatt que falou-me da "loucura" daquele momento, a sua breve passagem pelo "campo imperialista", a sensação depois de que "fora longe demais com os americanos e os moderados árabes" e sua descoberta de que a sobrevivência da sua pequena comunidade dependia de seguir o caminho familiar na direção de Damasco. O governo Obama ficou enfurecido com essa mudança de posição do líder druso. Mas ela reflete toda uma situação que se alterou.

Como disse Nadim Houry, diretor da organização Human Rights Watch, "depois do que Israel fez em julho de 2006, os Estados Unidos perderam a guerra estratégica". O que foi consumado em 2008, quando o Hezbollah derrotou seus rivais pró-ocidentais nas ruas de Beirute.

"Líder tribal". Um recente encontro entre Jumblatt e Jeffey Feltman, secretário-adjunto dos Estados Unidos para assuntos do Oriente Médio, não foi muito sereno. "Ele me falou que eu era um líder nacional e tinha de apoiar o tribunal", disse ele. "E respondi que não, preferia ser um líder tribal, estaria me degradando! E perguntei qual era a utilidade da justiça do tribunal se ela levava à matança? Melhor desistir da justiça em favor da estabilidade."

Walid Jumblatt está exaltado, mas é perspicaz. Uma acusação formal a ser emitida pelo tribunal é iminente; há fortes rumores de que membros do Hezbollah serão indiciados. O que pode reacender as tensões entre xiitas e sunitas (iranianos e árabes). E pode também apresentar Hariri como um Hamlet: o líder de um governo que inclui os acusados de assassinar seu pai.

Hassan Nasrallah tem multiplicado as advertências e apresentado teorias ridículas - mas que muitos acreditam - sobre um envolvimento israelense no assassinato. Hariri evoca cada vez menos a "verdade" e tem se reunido mais assiduamente com o líder sírio, Bashar al-Assad.

Na minha opinião, o passar do tempo, e também os erros e as inconsistências tornaram impossível fazer justiça no assassinato de Hariri. A estabilidade libanesa é preciosa e tênue.

Ela triunfa sobre a justiça demorada, falha e estrangeira. Neste aspecto, o delicado equilíbrio dos interesses xiitas e sunitas, a economia libanesa registrando um boom e o Hezbollah fazendo acordos com Hariri, representam o novo Oriente Médio do pragmatismo do lucro.

Não é o Oriente Médio que os Estados Unidos gostariam ou com o qual estejam prontos para negociar.

Como disse Nadim Houry, "nem lá, nem cá. O país não é um satélite do Irã. Os verdadeiros instintos liberais permanecem".

Alguém está ouvindo em Washington? É hora de abandonar a diplomacia dúbia para enfrentar uma realidade que tem muitas nuanças. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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