Julia Le Duc/AP
Julia Le Duc/AP

Pai e filha afogados no Rio Grande deixaram El Salvador pelo sonho de comprar uma casa

Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 25 anos, e Valeria, de 23 meses, morreram afogados durante travessia do Rio Grande, na fronteira de México e EUA; família decidiu se arriscar depois de não conseguir fazer o pedido de asilo

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2019 | 21h23
Atualizado 26 de junho de 2019 | 21h52

CIDADE DO MÉXICO - Um homem e sua filha de apenas 23 meses deitados de bruços com rostos submersos às margens do Rio Grande (Rio Bravo para os mexicanos), que marca a divisa entre México e EUA. A camiseta preta dele está erguida até o peito com a cabeça da menina por dentro. O braço dela está em volta do pescoço do pai, sugerindo que ela se agarrou a ele em seus momentos finais. 

A fotografia abrasadora da triste descoberta de seus corpos na segunda-feira, captada pela jornalista Julia Le Duc e publicada pelo jornal mexicano La Jornada, ressalta os perigos enfrentados por migrantes da América Central que fogem da violência e da pobreza e esperam encontrar asilo no território americano.  Em Washington, a imagem foi usada nesta quarta-feira, 26, na disputa política entre republicanos e democratas sobre imigração

ATENÇÃO: IMAGEM FORTE ABAIXO

A jovem família de El Salvador – Óscar Martínez, de 25 anos, Tania Vanessa Ávalos, de 21, e Valeria, de 23 meses – chegou no fim de semana à cidade mexicana de Matamoros, na fronteira com os EUA. Eles foram até a ponte internacional Puerta México pela manhã para pedir asilo aos EUA, mas foram informados de que a passagem estava fechada e eles deveriam retornar no dia seguinte. 

Em seguida, a família caminhou pela margem mexicana do rio e considerou que a água estava tranquila para a travessia. Por volta do meio-dia, decidiram se arriscar. De acordo com o jornal New York Times, Martínez foi na frente com a filha em suas costas e Tania seguiu atrás, nas costas de um amigo da família, segundo relatou ela a autoridades mexicanas. 

Quando ela avistou o marido se aproximar da margem oposta, levando Valeria, percebeu que ele já estava cansado da correnteza. Ela decidiu então voltar para a margem mexicana. De lá, viu quando a filha e o marido sumiram e foram levados pelas águas.

A jornalista Le Duc apresentou um relato distinto. De acordo com ela, Martínez colocou a filha na margem e voltou para ajudar a mulher. Mas, ao ver o pai se afastar, a menina entrou na água e ele retornou para resgatá-la. Nesse momento, os dois teriam sido arrastados. 

Os dois corpos foram encontrados na manhã seguinte. Valeria abraçando o pai, cerca de 500 metros de onde tentaram fazer a travessia.

Detalhes do incidente foram confirmados na terça-feira, 25, por uma fonte do governo de Tamaulipas, que não estava autorizado a discutir o assunto publicamente e pediu anonimato, e pela mãe de Ramírez em El Salvador, Rosa Ramírez, que conversou com a agência por telefone. 

"Quando a menina pulou para dentro da água ele tentou alcançá-la, mas quando ele tentou agarrá-la, foram para mais longe... e não conseguiu sair", disse Rosa à AP. "Ele a colocou em sua camisa, e imagino que tenha dito a si mesmo: 'cheguei até aqui' e decidiu seguir com ela." 

Passagem mortal

Do escaldante deserto de Sonora até o Rio Grande, a fronteira entre EUA e México de 3.218 km tem sido frequentemente uma passagem mortal entre os pontos de entrada. Um total de 283 mortes de migrantes foram registradas no ano passado; o número deste ano até agora não foi divulgado. 

Nas últimas semanas, dois bebês, uma criança e uma mulher foram encontrados mortos pelo calor sufocante; em abril, três crianças e um adulto de Honduras morreram depois que sua balsa virou no Rio Grande; e um menino de 6 anos da Índia foi encontrado morto no início deste mês no Arizona, onde as temperaturas sobem rotineiramente bem acima de 38°C.

As autoridades de imigração e defesa civil de Tamaulipas visitaram os abrigos que começaram a criar há algumas semanas para alertar contra a tentativa de atravessar o rio, que estaria muito cheio devido à água liberada das barragens para irrigação. Na superfície, o Rio Grande parece plácido, mas ele é formado por fortes correntezas. "É um rio muito profundo e muito perigoso", disse Julia. 

Sonho de ter uma casa

“Eles foram (tentar) viver o sonho americano”, disse Wendy Joanna Martínez de Romero, irmã de Óscar, ao jornal salvadorenho El Diario de Hoy.

Rosa informou à AP que seu filho e a família deixaram El Salvador em 3 de abril e passaram dois meses em um abrigo em Tapachula, perto da fronteira do México com a Guatemala.

Antes de se arriscar na longa travessia, Óscar trabalhava na rede de pizzarias Papa John's, onde ganhava cerca de US$ 350 por mês.  Sua mulher tinha saído do trabalho como caixa em um restaurante chinês para cuidar da filha do casal.

Os três viviam com a mãe de Óscar na comunidade de Altavista, um complexo habitacional de pequenas casas de concreto aparente a leste de San Salvador, segundo a imprensa local. Embora Altavista esteja sob o controle de gangues, o casal e sua bebê não estavam fugindo da violência, disse Rosa. Na verdade, o que se tornou insuportável para eles foi ter que tentar sobreviver com cerca de US$ 10 por dia.

"Eu implorei para eles não irem, mas ele queria juntar dinheiro para construir uma casa", disse Ramírez. "Eles queriam ficar lá por alguns anos e guardar dinheiro para (ter) uma casa."

O Ministério das Relações Exteriores de El Salvador disse que estava trabalhando para ajudar a família, incluindo Tania, que estava em um abrigo de migrantes na fronteira. Os corpos devem ser levados para El Salvador na quinta-feira. 

A foto lembra a imagem de 2015 de um menino sírio de 3 anos, Aylan Kurdi, que se afogou no Mediterrâneo perto da Turquia

"Muito lamentável isso ter acontecido", disse o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, na terça-feira, em resposta a uma pergunta sobre a fotografia. "Sempre denunciamos que, como há mais rejeição nos Estados Unidos, há pessoas que perdem suas vidas no deserto ou ao tentar atravessar o rio." 

A atual política migratória dos EUA reduziu drasticamente o número de migrantes que têm permissão para pedir asilo. Na semana passada, um diretor de abrigo disse que apenas de 40 a 45 entrevistas de asilo estavam sendo conduzidas em Matamoros a cada semana, diante de listas de nomes ao longo da fronteira que vão de 800 a 1,7 mil nomes.

"Me chamou atenção o fato de o braço da menina estar dentro da camisa do pai", disse Julia ao descrever o que viu ao chegar ao local em que os corpos foram encontrados. "Foi algo que mexeu muito comigo porque mostra que até seu último suspiro ela se uniu a ele não só pela camisa, mas também pelo que foi o último gesto deles antes de morrerem.

"É uma imagem horrível", disse Maureen Meyer, especialista em imigração da Washington Office on Latin America, que defende os direitos humanos na região, ao referir-se à fotografia. "E acho que isso fala tão claramente sobre os riscos reais desses programas dos EUA que estão devolvendo pessoas ao México em busca de asilo ou, neste caso, limitando quantas pessoas podem entrar diariamente nos EUA."

EUA fecham o cerco

Os Estados Unidos estão expandindo o programa segundo o qual os solicitantes de asilo devem esperar no México enquanto seus pedidos são processados nos tribunais americanos, uma espera que pode durar muitos meses ou mesmo anos. 

Esta semana, Nuevo Laredo em Tamaulipas, o mesmo Estado onde Matamoros está localizado, afirmou que se tornará a última cidade a receber retornados dos EUA a partir de sexta-feira. 

Muitos abrigos de imigrantes estão transbordando do lado mexicano, e os cartéis dominam grande parte de Tamaulipas e são conhecidos por sequestrar e matar migrantes. 

Enquanto isso, o México está intensificando sua própria repressão à imigração em resposta à pressão dos EUA, com o objetivo de desacelerar o fluxo migratório no sul do país. 

"Com maiores repressões e restrições, vamos ver mais medidas desesperadas de pessoas tentando entrar no México ou nos EUA", disse Cris Ramon, analista sênior de política de imigração do Centro de Política Bipartidária, em Washington. / AP e AFP

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