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Imagem de porto seguro turístico de Sri Lanka é arranhada

Desde 2016, país recebeu quase 3 milhões de visitantes graças as suas belas paisagens e ao clima de segurança, agora desfeito

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2019 | 05h00

Há dez anos, as armas silenciaram na guerra civil no Sri Lanka. Mas o derramamento de sangue retornou ontem, domingo de Páscoa, quando uma sucessão de ataques a bomba atingiu três igrejas repletas de fiéis e três hotéis cinco estrelas. Pelo menos 207 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

A proximidade dos ataques com o aniversário da derrota dos rebeldes tâmeis pelo Exército do Sri Lanka - que pôs fim a uma guerra de uma minoria tâmil e hindu contra a maioria budista cingalesa - pode ser apenas coincidência. As autoridades mostram cautela em apontar os culpados, especialmente por causa da história recente de violência nas comunidades na ilha, durante e após a guerra.

Uma autoridade do alto escalão da polícia afirmou haver indícios de que as seis explosões (contra as igrejas e os hotéis) foram cometidas por homens-bomba. Esta era uma das táticas favoritas dos Tigres Tâmeis, mas até o momento nenhum grupo tâmil foi apontado como responsável. Além disso, as táticas suicidas, especialmente quando voltadas contra alvos religiosos e turistas estrangeiros, também são uma das marcas registradas de grupos jihadistas internacionais. No entanto, o país tem pouco histórico de atividade jihadista.

As explosões foram os ataques mais mortíferos no país desde o fim da guerra civil. Elas aconteceram quase que simultaneamente, com a primeira às 8h30 (0h, em Brasília), na Igreja de São Sebastião, em Negombo - uma área de maioria católica. Fotografias mostram danos nas paredes e no teto do templo e dezenas de corpos mutilados no chão. As outras duas outras explosões em locais de oração atingiram a Igreja de Santo Antônio, em Colombo (outra igreja católica), e a Igreja Zion (Evangélica), em Batticaloa, a cerca de 220 quilômetros a leste da capital.

Quaisquer que sejam os responsáveis pelos atentados, a preocupação é de que eles provoquem novos embates entre as comunidades. A população do Sri Lanka compreende mais de 20 milhões de pessoas, 70% são cingaleses (a maior parte budista). Os tâmeis, que vivem especialmente ao norte e no leste do país, constituem 12,6% e são predominantemente hindus.

A rebelião dos Tigres Tâmeis durou 27 anos. Os muçulmanos, 9,7% da população, falam a língua tâmil. Embora os islâmicos não tenham se aliado à rebelião dos Tigres Tâmeis - na verdade, alguns foram expulsos do norte por eles - após a guerra se tornaram alvo de ataques de nacionalistas budistas. Os cristãos, de maioria católica, formam 7,6% da população e não assumem posição nesse cisma entre tâmeis e cingaleses.

Fora do comum

“O quebra-cabeça é por que a Igreja Católica foi o alvo”, questiona Jayadeva Uyangoda, cientista político. A propagação do catolicismo remonta a 1505, com a colonização portuguesa e subsequente conversão. Os católicos permeiam todos os níveis de governança, o setor privado e mesmo o Exército, mas não foram alvo dos ataques dos Tigres Tâmeis durante a guerra civil.

A igreja de Santo Antônio, um dos alvos dos terroristas, é frequentada por tâmeis e cingaleses, incluindo não cristãos. E ataques nos últimos tempos contra cristãos - cometidos também por grupos extremistas budistas - visavam os novos templos evangélicos.

Daí terem surgido especulações sobre “agentes externos”, como disse o cardeal Ranjith - em particular extremistas muçulmanos. Somente alguns muçulmanos do Sri Lanka se juntaram ao Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Algumas pessoas ficaram temerosas com formas mais radicais de islamismo sendo introduzidas na ilha pelo contato com pregadores de fora. O mais alarmante é que em janeiro a polícia informou ter descoberto um enorme esconderijo de explosivos num campo de treinamento do Estado Islâmico ao norte do país. Aparentemente seriam usados contra monumentos budistas na cidade antiga de Anuradhapura.

Uma razão para o temor quanto a uma possível radicalização de muçulmanos é que os extremistas budistas cingaleses instigaram e coordenaram a violência por parte de bandos contra eles. Um acidente de trânsito em que o motorista de um caminhão foi atacado por quatro muçulmanos (e depois morreu) resultou em vários dias de ataques contra casas e empresas de muçulmanos e muitos feridos, o que fez o governo decretar estado de emergência dez dias no centro do país.

Em 2014, choques violentos entre budistas e muçulmanos ocorreram em várias cidades ao sul do país desencadeados por um discurso racista de um monge budista, Galagodatte Gnarasara, que hoje está preso por desacato às autoridades.

Após os atentados do domingo de Páscoa, com os rumores e comentários incendiários contra muçulmanos se propagando como fogo, o governo rapidamente bloqueou as plataformas de mídia social, incluindo o WhatsApp, Viber, Facebook e YouTube.

Enquanto a caça aos responsáveis pelos ataques ocorre, o Sri Lanka conta os mortos num massacre inesperado. A Igreja Católica está preparando funerais em massa, pelos quais o governo se comprometeu a pagar. O país como um todo sofreu um duro golpe no seu lucrativo setor de turismo. Até ontem, o país tinha a reputação de ser um dos mais seguros para os viajantes. Depois dos atentados, isso mudou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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