Imagens retratam perdas sofridas durante regimes militares

Fotógrafo mostra histórias de argentinos e brasileiros que tiveram parentes assassinados durante a repressão

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo,

24 de março de 2013 | 08h00

Durante os regimes militares argentino (1976-1983) e brasileiro (1964-1984), diversas pessoas, consideradas "subversivas" foram sequestradas e mortas. As famílias dessas pessoas seguiram buscando por justiça e algumas até hoje procuram pelos restos mortais daqueles que perderam.

Algumas dessas histórias estão retratadas no trabalho "Ausencias", do fotógrafo argentino Gustavo Germano. 

Ele iniciou o projeto quando decidiu que usar a fotografia para falar "do que realmente eu era, familiar de um desaparecido". O fotógrafo foi além de seu país de origem e resolveu retratar a Operação Condor - aliança entre as ditaduras da América do Sul, com o objetivo de eliminar aqueles contrários ao regime.

Em 1976, Gustavo tinha 12 anos e seu irmão mais velho, Eduardo – então com 18 anos – foi sequestrado por agentes do regime militar e nunca mais foi encontrado, entrando para a lista de "desaparecidos". "Começamos o caminho de buscar o corpo e saber o que de fato havia ocorrido. Então vi que muitas famílias passavam pela mesma situação", explica Germano sobre a motivação de retratar outras histórias como a da própria família.

Omar Amestoy, a esposa dele, María del Carmen Fettolini, e seus dois filhos, María Eugênia e Fernando, na época com 5 e 3 anos, respectivamente, foram mortos em San Nicolás, no que ficou conhecido como o massacre da rua Juan B. Justo. Eles haviam abrigado Ana María Granada e seu filho recém-nascido, Manuel Gonçalves Granada. Em 19 de novembro de 1976, militares atacaram a casa, jogando bombas de gás lacrimogêneo, invadiram o local e mataram todos - exceto Manuel.

"Omar sempre foi muito comprometido com as pessoas. Nós descobrimos o que tinha acontecido a partir de uma notícia de jornal e ficamos cinco dias tendo um velório sem corpo", explica Alfredo sobre a busca feita por seus pais para encontrar os corpos de Omar, María e dos dois netos.

A fotografia de 1975, na qual Omar aparece ao lado do irmão Alfredo, foi reproduzida em 2006 por Germano. Dessa vez, um vazio ocupa o lugar daquele que foi morto pelo regime ditatorial. "Este projeto é muito importante para cobrar e manter viva a memória. Sem memória, não seguimos, ficamos atados", considera Miguel Amestoy.

Luiz Eurico Tejero Lisbôa foi o primeiro desaparecido político a ser localizado. Após sete anos desaparecido, seus restos mortais foram encontrados no cemitério Dom Bosco, em Perus, em São Paulo, sob outro nome, em agosto de 1979.

Atualmente, a esposa de Luiz, Suzana Lisbôa, está fazendo um requerimento para enviar à Comissão Nacional da Verdade pedindo a alteração do atestado de óbito do marido, na qual consta que ele se suicidou. "Eu tenho um laudo que prova que ele não se suicidou."

A primeira fotografia data de sete de março de 1969, quando os dois se casaram, e foi feita na casa da mãe de Suzana. A segunda fotografia foi feita por Germano em 2012. "Não foi fácil para mim e para minha mãe voltarmos ao lugar onde ela morava e de onde eu saí para casar, eu nunca mais tinha voltado lá...No dia foi um contato muito intenso da nossa parte e da parte dele pela identificação."

Suzana, desde que a lei da anistia foi promulgada e ela pode sair da clandestinidade, integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. Para ela, é importante que a Comissão da Verdade aponte os agentes responsáveis por torturas e mortes durante o regime militar, mas, além disso, que essas pessoas possam ser responsabilizadas pelos crimes que cometeram. "Não existe verdade sem Justiça."

João Carlos Haas Sobrinho se formou em medicina em Porto Alegre no ano de 1964 e fez parte do Partido Comunista do Brasil. Ficou conhecido como doutor Juca, atuando no Araguaia.

Seu último contato com a família foi em 1968. Depois disso, apenas em 1979, com o início da abertura política, os familiares começaram a ter conhecimento de seu envolvimento com o movimento de esquerda, por meio de comunicados que começaram a ser divulgados sobre a guerrilha do Araguaia.

Até hoje, a família de João, como conta sua irmã Sônia Maria Haas, continua a busca pelos restos mortais do médico. "É um ponto final, faz parte de um ritual que as famílias não conseguiram cumprir."

A primeira fotografia data de 1947 e João está com um de seus seis irmãos, o Roberto, e dois primos. Para que a imagem fosse refeita no ano passado, essas pessoas precisaram se reencontrar e Sônia diz que foi uma experiência muito importante. Para ela, o trabalho "Ausências amplia o nosso grito de socorro". "Como João mesmo dizia, tem uma frase que ele disse em sua última entrevista, 'nenhum sacrifício será feito em vão'."

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