Andrei Netto / Estadao
Andrei Netto / Estadao

Imigração no Mediterrâneo cai e meta passa a ser a Espanha, em vez da Itália

Líderes trabalham pela aprovação de novas leis para reforçar patrulhamento de fronteiras, criar política de gestão dos pedidos de refúgio e mudar a regra que obriga o imigrante a fazer o pedido de permanência no primeiro país da Europa que chegou

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2018 | 05h00

O presidente da França, Emmanuel Macron, e seis outros líderes de Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Chipre, Malta, os sete países mediterrâneos (Med-7), discutiram nesta quarta-feira em Roma meios de ampliar o policiamento de fronteiras e impedir a chegada de novos imigrantes. O novo foco da luta contra a imigração ilegal deixou de ser a Itália e passou a ser a Espanha.

O maior problema do Med-7 é que, quando uma rota é fechada ou mais fiscalizada, outras se abrem. Por isso, enquanto as chegadas à Itália caíram de forma drástica, a travessia em direção à Espanha cresceu. Em 2016, 6 mil pessoas cruzaram o Mediterrâneo em direção à Península Ibérica. Em 2017, o número explodiu: 23 mil pessoas. 

Na reunião de cúpula desta quarta-feira, os líderes europeus acertaram que trabalharão para que a União Europeia aprove sete novas leis para reforçar o patrulhamento de fronteiras, criar uma política de gestão comum dos pedidos de asilo – o Regime Comum de Asilo Europeu (Raec) – e reformar a Regra de Dublin, que obriga um candidato a refugiado a solicitar o status no primeiro país da Europa em que chegou. 

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Os países do Med-7 decidiram ainda que pressionarão a UE a cumprir o acordo de controle da imigração firmado com a Turquia, que pressupõe o pagamento de € 30 bilhões a Ancara para ajuda financeira aos refugiados instalados no país. Em troca, o governo turco promete impedir a chegada por terra de novos imigrantes vindos de países como Afeganistão, Paquistão, Irã e Síria.

O objetivo do Med-7 é consolidar a queda no fluxo de imigração pelo mar obtida em 2017. No ano passado, o número de estrangeiros que atravessaram o mar em embarcações clandestinas caiu de 363,4 mil para 178,7 mil, em parte em razão de um acordo de repressão firmado pelo governo da Itália com a Líbia. 

“Em 2017, obtivemos resultados encorajadores em relação à gestão externa e à luta contra o tráfico de seres humanos”, comemorou o primeiro-ministro da Itália, Paolo Gentiloni. “Sabemos que esses resultados devem ser reforçados, não só por acordos externos, mas também por regras no interior da União Europeia.”

Sobrevivência. Hassan Khuder, estudante sírio de 20 anos, esperava ontem em uma fila um lugar para passar a noite no Centro Humanitário de Paris, evitando dormir pela quinta madrugada consecutiva ao relento e sujeito ao frio de 0°C. Seus pertences, duas mochilas com poucas roupas, estavam no chão umedecido pela chuva, mas as dificuldades que vem enfrentando não o desanimam de seu objetivo: viver na França, custe o que custar.

Hassan foi um desses imigrantes a atravessar pela rota espanhola. Agora na França, ele espera uma oportunidade para viver no país. O jovem chegou a Paris há cinco dias cruzando o Mediterrâneo. Depois de três anos vivendo na Argélia sem visto de permanência, foi expulso pelas autoridades. Foi para o Marrocos, onde foi abordado pela polícia e advertido a deixar o país. Na segunda tentativa, conseguiu cruzar o posto de fronteira e pisou pela primeira vez em Melilla, enclave da Espanha em solo africano. 

De lá, cruzou o Mediterrâneo de forma clandestina, escondido no chassi de um caminhão que fez a travessia em uma balsa até Málaga. Então, passou por Madri antes de chegar a Paris, onde pretende solicitar o status de refugiado.

“Não me importa se não puder viver em Paris, se tiver de viver em uma cidade pequena. Só não quero viver em um país em guerra”, disse o jovem, ex-estudante de odontologia em Idlib, no norte da Síria. “Quero viver tranquilo, não ver pessoas mortas nas ruas, não ver amigos morrerem nos meus braços. Não quero ver sangue, não quero mais ver corpos sem cabeças, nem cabeças sem corpos”, disse o jovem, que pediu para não mostrar o rosto na foto.

Em Paris e outras capitais europeias, as filas de candidatos a refugiados persistem. Esportista afegão de 30 anos, Nisar Khan Rhemzai também tenta a sorte na França depois de atravessar a pé Afeganistão, Irã, Turquia e os países da Europa até a capital francesa, em um trajeto de oito meses.

Sem a mulher e seus quatro filhos, Rhemzai também tentava nesta quarta-feira um leito no centro de acolhimento para pôr fim às noites a céu aberto. “Perdi tudo e viajei sozinho. Não estaria vivendo como estou, sem a minha família, se não precisasse. Não posso mais voltar ao Afeganistão.”

Para os líderes europeus, a chegada contínua de imigrantes exige que novas medidas para controlar os fluxos de imigração sejam propostas à UE o mais rápido possível. “Esse é o objetivo dos sete textos que estamos discutindo”, explicou Macron. “Pretendemos finalizá-los neste semestre, com o objetivo de dar corpo à maior solidariedade e à maior gestão e prevenção dos fluxos imigratórios.”

 

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