Darrin Zammit Lupi / Reuters
Darrin Zammit Lupi / Reuters

Imigração no Mediterrâneo cai, mas mortes crescem

Maior controle sobre estrangeiros ilegais inibe saídas e torna trajeto mais perigoso; número de mortos subiu 28% no último bimestre

Andrei Netto, correspondente / Paris; Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

PARIS e GENEBRA - Há sete meses, quando viu pela última vez a terra firme da Líbia, Idris Diawara, de 25 anos, não sabia se chegaria, como sonhava, à costa da Ilha de Lampedusa, na Itália. Foi resgatado pelo barco de uma organização não governamental quando o bote inflável e superlotado em que estava sofria pane. Escapou de se tornar parte de uma tendência estatística: o número de mortos cresce, embora a imigração marítima para a Europa caia.

Após deixar o Senegal, seu país natal, e enfrentar a violência e os maus-tratos em solo líbio, Diawara decidiu cruzar o Mediterrâneo. Em 2018, o maior controle das fronteiras exteriores da Europa, e logo a maior dificuldade de chegar ao solo do continente, fez crescer de forma vertiginosa o número de mortes de imigrantes nas águas do Mediterrâneo. Só em junho e julho, meses que sucederam o fechamento dos portos italianos, 850 pessoas morreram – 28% a mais do que no mesmo período de 2017. Os dois meses representam 50% das mortes de todo o ano. 

Os números foram fornecidos na semana passada pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e causam espanto porque, nos últimos anos, nunca tão poucos migrantes chegaram à Europa quanto em 2018 – em que pese o discurso alarmista de partidos populistas. 

Nos primeiros oito meses do ano, 63 mil pessoas conseguiram cruzar o Mar Mediterrâneo e chegar ao solo europeu, um número três vezes menor do que em 2015. “Eu me sinto um privilegiado por ter chegado, pois antes e depois de mim muitas pessoas morreram tentando chegar onde estou”, diz o senegalês Diawara, hoje vendedor de miniaturas da Torre Eiffel aos pés do monumento, em Paris.

As explicações para este fenômeno são várias, mas a principal delas é a de que os embarques na Líbia, na margem africana, caíram de forma drástica. Isso ocorreu porque a União Europeia, e em especial os governos da Itália e da França, investiram em equipamentos e treinamentos da Guarda Costeira líbia, além de acordos políticos com o governo provisório do país, para que desmembrasse redes de tráfico de seres humanos. 

Em julho de 2017, 90% dos imigrantes que se lançavam ao mar para tentar chegar à Europa eram bem sucedidos. Em julho de 2018, esse número foi de 22%, segundo levantamento do pesquisador Matteo Villa, do Instituto para Estudos de Políticas Internacionais (ISPI), de Milão, na Itália.

Por outro lado, a queda do número de travessias veio acompanhada do aumento do nível de risco assumido por quem se lança ao mar – e logo do número de mortes. Para a Organização Internacional de Migrações (OIM), a rota “continua entre as mais perigosas do mundo”. Em média, 2% dos imigrantes que tentaram cruzar o Mediterrâneo em 2017 não sobreviveram. Em 2018, essa taxa aumentou para 2,5%. Para cada mil estrangeiros que tomam o caminho da Europa, em média 25 morrem. No caso da Itália, para cada mil pessoas que chegam, 55 não sobrevivem. Já a rota entre Turquia e Grécia, que causou enorme polêmica entre 2015 e 2016, hoje representa apenas 0,6% de vítimas fatais. 

Tendência

De acordo com o relatório Missing Migrants da OIM, até 17 de agosto 1.527 pessoas morreram no Mediterrâneo, das quais 1.110 ao largo da costa da Líbia, a caminho da Itália, 105 entre Turquia e Grécia, e 312 entre o Marrocos e a Espanha.

A última rota foi o trajeto escolhido pelo sírio Hassan Khuder, estudante de odontologia que deixou Idlib, no norte do país, depois de não suportar mais a morte de seus amigos e parentes em meio ao conflito armado. Em janeiro, o jovem arriscou a vida escondendo-se no chassi de um caminhão para ingressar em um ferryboat que cruzaria o mar entre o enclave de Melilla e Málaga. Também quase virou estatística. Hoje, vive em Narbonne, no extremo sul da França. “Não tenho visto, nem nada. Sou um refugiado, mas por isso me deixam ficar na França”, conta o jovem, para quem o risco valeu a pena.

Na OIM, a alta nas mortes tem chamado a atenção. O porta-voz da entidade, Joel Millman, confirma o número elevado de vítimas desde junho. “A Itália já deixou de ser o principal porto de chegada desses imigrantes e hoje recebe menos de um terço de todos os desembarques na Europa. Mas o que vemos e o que nos surpreende é que quase 75% das mortes têm ocorrido nesse trajeto entre a Líbia e o sul da Itália”, explica. 

Uma das suspeitas da agência da ONU se refere à falta de vigilância nesse trecho, o que ainda estaria permitindo que os grupos de contrabandistas atuem de forma mais arriscada, com barcos mais lotados e embarcações mais frágeis. “Acreditamos que esse número elevado de mortes em um só trajeto possa ser explicado pelo fato de que na Espanha, Turquia ou Grécia, a vigilância em relação às ações de organizações criminosas esteja sendo mais eficiente”, apontou.

A questão da vigilância se soma agora com o bloqueio que organizações não governamentais estão sofrendo na região. O último exemplo ocorreu na semana passada, quando o navio Aquarius, mantido pelas ONGs SOS Mediterranée e Médicos Sem Fronteiras (MSF), foi proibido de atracar na ilha italiana de Lampedusa por transportar 141 imigrantes resgatados do mar. Após vários dias de negociações, a embarcação pôde chegar a Malta.

Acusadas de cumplicidade com traficantes de seres humanos pelo ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, do partido de extrema direita Liga, as ONGs europeias estão enfrentando um bloqueio sistemático dos portos italianos, contrariando tratados internacionais. Os resgates realizados pelas organizações deixaram de ser feitos na mesma medida – tornando o mar ainda mais inseguro para quem se arrisca.

Espanha recebe mais ilegais

A Espanha tornou-se o principal destino dos imigrantes ilegais que cruzam o Mediterrâneo após Itália e Malta, os países mais próximos da costa da Líbia, fecharem seus portos ao navios de grupos de ajuda humanitária que socorrem as balsas clandestinas à deriva no mar. De acordo com a Agência da ONU para Migrações (OIM), a Espanha recebeu 22,1 mil pessoas até o final de julho, superando todo o volume que havia registrado em 2017. Nos cinco primeiros meses do ano, 8,1 mil pessoas foram resgatadas pelas frotas espanholas, uma média de 54 estrangeiros por dia. Desde o final de maio, porém, o fluxo aumentou de forma expressiva e um total de 14,8 mil pessoas foram resgatadas. A média passou a ser de 240 por dia.

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