Cindy Karp/The Washington Post
Cindy Karp/The Washington Post

Imigração nos EUA: a história de Pascual, menino enviado da Guatemala que os pais pediram de volta

Família travou batalha judicial para recuperá-lo; agora, enquanto milhares de crianças da América Central tentam entrar em território americano, ele está indo na direção oposta

Michael E. Miller e Jeff Abbott, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 05h00

FORT LAUDERDALE, FLÓRIDA – Ele, um menino de 9 anos sem passaporte, estava no balcão da companhia aérea, rabiscando num tablet enquanto seus pais adotivos tentavam fazer seu check-in para um voo internacional.

“Ele vai voltar para a mãe”, disse Galo Solorzano à cética funcionária da Spirit Airlines no mês passado.

“Ela?”, perguntou a funcionária, apontando para uma mulher do consulado guatemalteco que deveria acompanhar Pascual Raymundo de Fort Lauderdale à Cidade da Guatemala.

“Não”, disseram Galo e sua esposa, Millie Rosa, em uníssono.

“Quem são os pais?”, perguntou a funcionária da Spirit, balançando a cabeça, sem nada entender.

“A mãe e o pai estão esperando por ele”, respondeu Millie.

Haviam se passado quase dois anos desde que os pais de Pascual confiaram seu filho primogênito ao primo mais velho para uma viagem de sua remota aldeia guatemalteca aos Estados Unidos. Queriam que ele tivesse uma vida melhor.

E, de muitas formas, ele a encontrara na casa de Galo e Millie. Nos quatro meses desde que o casal o acolhera depois que o primo fora acusado de abuso e deportado, Pascual florescera. O menino que frequentava a escola apenas ocasionalmente na Guatemala agora gostava de aprender. Tinha esquecido o dialeto maia de seus pais, mas logo aprendeu espanhol e inglês. Sentia falta de seus irmãos mais novos, mas tinha um vínculo com os dois irmãos adotivos. Tinha brinquedos novos, roupas novas e dentes novos para substituir os que haviam apodrecido.

Começara a chamar Millie e Galo de “mãe” e “pai”, mesmo enquanto o Estado da Flórida ainda tentava privar sua mãe e seu pai biológicos dos direitos parentais. Autoridades responsáveis pelo bem-estar infantil argumentaram que os pais de Pascual o haviam abandonado e iniciaram procedimentos para que ele fosse adotado – uma forma de separação familiar que ocorre em centenas de tribunais dos Estados Unidos todos os anos, com pouco escrutínio.

Mas, na Guatemala, os pais que o mandaram embora travavam uma batalha judicial para recuperá-lo. Agora, enquanto milhares de crianças da América Central tentam entrar nos Estados Unidos, um menino está indo na direção oposta.

Durante meses, Millie e Galo se perguntaram o que era melhor para o menino que eles aprenderam a amar como a seu próprio filho.

Mas aí viram Pascual irromper em lágrimas quando fez uma chamada de FaceTime com seus pais no dia de Natal e souberam o que tinham de fazer.

“Última chamada, Cidade da Guatemala”, anunciou a Spirit.

“Última chamada, Cidade da Guatemala”, Pascual repetiu animado, erguendo os olhos do tablet, onde desenhava as montanhas nas quais costumava coletar lenha com seus pais.

Ele saltou em direção ao posto de controle de segurança com uma nova mochila cheia de salgadinhos, livros e brinquedos. E, no entanto, era difícil partir. Pascual deu um abraço de despedida nos irmãos adotivos. Quando foi a vez de Millie, ele começou a soluçar, as lágrimas molhando sua máscara do Flash.

“Eu te amo muito”, disse Galo em espanhol, agachando-se para dar um abraço em Pascual. “A gente se vê em breve lá na Guatemala”.

Enquanto a mulher do consulado guiava Pascual em direção ao posto de controle de segurança, Millie pressionou o rosto contra uma janela de acrílico.

Pascual ergueu os olhos e viu Millie fazendo um coração com as mãos, murmurando “eu te amo”. Seus ombros magros caíram num choro que sua mãe adotiva não conseguia ouvir.

Em seguida, o agente da TSA fez sinal para Pascual passar e o menino desapareceu.

Millie fez o sinal da cruz, orando para que ele ficasse bem.

Pascual tinha acabado de comemorar seu 8º aniversário quando embarcou num ônibus com nada além de algumas tortilhas da mãe e umas trocas de roupa. Quando o ônibus saiu do vilarejo da família e entrou na esburacada estrada de terra, ele começou a entrar em pânico.

“Não quero ir”, Pascual se lembra de ter dito a seu primo de 22 anos, Marcos Diego, sentado ao lado dele. “Eu quero ficar”.

Mas Marcos não respondeu e, quando Pascual parou de chorar, eles estavam a quilômetros de distância do barraco de madeira onde o menino tinha vivido a vida inteira.

Em Las Pilas, um monte de sessenta casas empoleiradas nas montanhas perto da fronteira com o México, ele subia nas árvores e arrancava as limas das mudas crescidas que plantara com o pai, Federico Pascual. Ele e o irmão mais novo ajudavam a mãe, Lucia Raymundo, a cuidar da irmã mais nova, acender o fogão ou fazer masa.

E, então, num dia de maio de 2019, seu primo chegou da capital.

Três meses antes, Marcos fora pego tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos e deportado, de acordo com os registros da Fiscalização Alfandegária e de Imigração. Agora ele tinha ouvido falar que estavam permitindo a entrada de pessoas com crianças.

E perguntou ao tio Federico se poderia levar Pascual para os Estados Unidos.

Autoridades do Departamento de Crianças e Famílias da Flórida (DCF, na sigla em inglês) tempos depois afirmariam que Marcos pagou 100 quetzales – cerca de US$ 13 – para levar o menino. Os pais de Pascual negam. E dizem que Marcos lhes ofereceu algo muito mais valioso.

“O Marcos falou: ‘Já que vocês são pobres, talvez seja melhor me dar seu filho, para que ele possa ter uma vida melhor’”, lembrou Federico.

Lavradores, Federico e Lucia ganhavam apenas alguns dólares por turno no campo. Pascual já faltava às aulas de vez em quando para ajudar os pais no trabalho, muitas vezes se deparando com cobras venenosas. Quando terminasse a escola primária, a família não teria condições de pagar mensalidades caras para ele continuar estudando.

“Queria que meu filho estudasse”, disse Federico. “Ele teria mais ideias. Seria mais inteligente, em todos os sentidos. Queria dar educação ao meu filho aqui na Guatemala, mas não tenho dinheiro”.

Federico disse a Pascual que ele iria embora com Marcos.

Quando chegou a hora de partir, o pai lhe deu alguns quetzales e lhe disse para ser um bom menino. Depois fez uma promessa a Pascual: Marcos iria cuidar dele. A mãe quase não disse nada, Pascual lembrou, mas seus olhos ficaram vermelhos.

Dois ônibus e uma motocicleta os levaram até a fronteira com o México, onde Marcos colocou Pascual na parte de trás de um trem tão comprido que o menino não conseguia ver a locomotiva. À luz da lua, Pascual distinguiu as formas de outras famílias agarradas ao vagão de carga.

Na fronteira dos Estados Unidos com o México, um guia os orientou a passar por um buraco na cerca de metal. Então Marcos disse para ele fechar os olhos e a boca, e Pascual de repente estava sendo puxado pela água. Cruzaram o rio Colorado perto de Yuma, Arizona, onde Marcos e Pascual se entregaram aos agentes da Patrulha de Fronteira americana.

Eles fizeram parte de um aumento recorde no número de famílias centro-americanas que entraram ilegalmente nos Estados Unidos naquela primavera – tantas que, apesar de um decreto de Trump ordenando o fim da prática no outono anterior, os migrantes muitas vezes recebiam datas de julgamento de imigração e eram rapidamente liberados.

Depois que Marcos forneceu uma certidão de nascimento falsa, afirmando que era o pai de Pascual, eles foram dispensados e pegaram um ônibus para Orlando, Flórida, onde moravam o pai e a madrasta de Marcos.

Mas a casa no centro da Flórida não era o futuro brilhante que os pais de Pascual haviam imaginado para ele. Em vez de matricular o menino na escola, Marcos o deixava com uma babá. E costumava voltar bêbado e com raiva do trabalho na construção civil, lembrou Pascual.

Certo dia, em novembro de 2019, Marcos voltou para casa e viu que a porta do quarto que ele dividia com Pascual estava trancada. Ele descarregou a raiva no menino, chutando-o nas costas enquanto ele estava deitado no chão, Pascual relembrou.

No dia seguinte, quando Marcos estava no trabalho, alguém bateu à porta. Era uma assistente social do DCF.

O departamento, que fora alertado sobre o suposto abuso, determinaria que Marcos havia “empurrado’, “socado” e “batido nas costas de Pascual com um cinto”, segundo documentos posteriormente ajuizados na Justiça, que também apontam que o menino tinha um “quadro severo de cárie dentária”.

Marcos não foi encontrado para comentar.

A assistente social tentou contar a Pascual o que estava acontecendo, mas ele não conseguia entendê-la. Quando ela trouxe um colega que falava espanhol, ele ouviu uma palavra que compreendeu.

Corte. Ou seja, tribunal.

Seu destino estava agora nas mãos do Tribunal de Família do Condado de Orange.

No final de 2019, Lucia Raymundo estava fazendo tarefas fora da casa em Las Pilas quando ergueu os olhos e avistou um rosto familiar.

Era Marcos, que levara Pascual aos Estados Unidos seis meses antes. Agora ele estava a milhares de quilômetros do centro da Flórida e não havia sinal de seu filho.

“Onde está Pascual?”, Lucia gritou, correndo em sua direção.

Marcos disse que o menino lhe fora tirado e que ele tinha sido preso e deportado, mas se recusou a dizer mais, relembrou Lucia.

A separação de famílias de imigrantes gerou indignação no verão de 2018, quando a política de “tolerância zero” do governo Trump apartou crianças migrantes de seus pais, para que os adultos pudessem ser criminalmente acusados de entrar ilegalmente no país.

Mas outro tipo de separação familiar ocorre há muito tempo nos tribunais estaduais de todo o Estados Unidos, onde centenas, talvez milhares de pais sem documentos perdem permanentemente a custódia de seus filhos. Em alguns casos, os juízes destituem mães e pais de seus direitos parentais após condenações criminais ou sérias alegações de abuso ou negligência. Mas ativistas dizem que as famílias de migrantes muitas vezes são facilmente dilaceradas por questões de imigração, pequenas infrações ou mal-entendidos culturais.

O sistema jurídico americano há muito trata as famílias pobres ou minoritárias de maneira diferente das famílias brancas, disse Vivek Sankaran, professor de direito da Universidade de Michigan que estudou casos de rescisão de direitos parentais. Mas, ainda que alguns estados rastreiem esses casos por raça, poucos os rastreiam por status de imigração, disse Sankaran. E os casos não são públicos.

“É realmente difícil descobrir como tudo isso é comum”, disse ele.

O DCF não forneceu dados sobre a frequência com que as famílias de imigrantes perdem seus filhos na Flórida, e o departamento não respondeu aos pedidos de comentários sobre o caso de Pascual.

Quando Lucia avistou Marcos na Guatemala, fazia mais de seis meses que ela e o marido não falavam com Pascual. Agora eles não tinham ideia de onde Pascual se encontrava, muito menos de quem estava cuidando dele.

Por fim, eles foram colocados em contato com Sylvia Rodriguez, voluntária da Every Last One, organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos criada para reunir famílias separadas e ajudá-las a se recuperarem dos traumas.

Rodriguez apurou que Pascual, agora com 9 anos, fora colocado com uma mãe adotiva. E descobriu mais uma coisa: Federico e Lucia estavam a semanas de perdê-lo para sempre.

Era tarde de Natal e a casa em Kissimmee, Flórida, estava agitada. Novos brinquedos cobriram o chão de ladrilhos e um filme passava na TV. De chapéu de Papai Noel vermelho e branco, Pascual ia e vinha entre o robô dançante que desembrulhara naquela manhã e um caminhão monstro de controle remoto.

“Pascual”, disse Galo, entregando-lhe um celular. “Você tem mais um presente”.

Na tela, havia um homem de jeans e uma mulher com saia indígena. Millie perguntou a Pascual quem era a mulher.

“É minha mãe”, ele disse e começou a chorar.

Nos dois meses desde que Galo e Millie haviam assumido o papel de pais adotivos da mulher com quem ele fora deixado, o casal viu o menino se tornar uma criança diferente. Ele tinha chegado tímido e triste. Mas, a cada refeição, cada ida à praia ou à lanchonete Chuck E. Cheese, cada hora passada explorando o quintal com seus irmãos adotivos – pequeno, médio e grande, Millie gostava de brincar – Pascual tinha desabrochado.

Ele também estava mais aberto. Galo contou ao menino sobre sua própria jornada do Equador para os Estados Unidos quase vinte anos antes, quando cruzou a fronteira e passou uma semana sozinho no deserto antes de seguir para um lugar seguro e, por fim, um status legal.

Aos poucos, Pascual contou sua história. Seus pais não o venderam nem o abandonaram, disse ele a Galo. Eles estavam tentando buscá-lo de volta.

Durante o telefonema de Natal, organizado por Rodriguez, Galo prestou muita atenção à interação deles com o filho.

“Nos primeiros trinta segundos, já deu pra ver que os pais dele estavam sofrendo”, disse.

Lucia chorou ao perguntar a Pascual, em sua língua nativa, o q’anjob1al, se ele estava se alimentando bem. Pascual entendeu o que ela estava dizendo, mas respondeu em inglês que Millie havia feito panquecas, bacon e ovos para ele naquela manhã. Em seguida, mostrou aos irmãos sua cama no beliche com cobertor das Tartarugas Ninja.

A cada ligação subsequente, Galo e Millie se sentiam mais decididos a mandá-lo de volta.

As assistentes sociais argumentaram que Pascual teria uma vida melhor na Flórida, mas Millie discordou. “Não ligo para uma vida melhor”, disse ela. “Dinheiro não substitui ninguém. Ele não se importa se voltar a comer tortilhas e frijoles. Ele quer ir para casa”.

Em janeiro, Galo convocou uma audiência para dizer que achava que Pascual deveria estar com seus pais. No início de fevereiro, depois de viajar quatro horas até a cidade com internet mais próxima, Lucia e Federico finalmente puderam dizer o mesmo ao tribunal.

“Queremos é que nosso filho volte, claro”, disse Federico por meio de um tradutor.

Lúcia prometeu mandar Pascual para a escola, acrescentando que a família economizara dinheiro para buscá-lo na capital.

“Meu filho vai ser mandado de volta para nós?”, ela perguntou. “Eu preciso ficar com meu filho”.

Mas o juiz parecia impassível.

“O tribunal mantém a criança sob os cuidados do departamento e conclui que não foram atendidas as condições para o retorno aos pais”, disse a magistrada da 9ª Vara Judicial, Kathryn Durnell.

Algumas semanas depois, tudo mudou.

Amy Cohen, diretora executiva do Every Last One, havia contatado o chefe da Embrace Families, uma provedora de bem-estar infantil que supervisionava a organização sem fins lucrativos responsável pelo caso de Pascual. Os pais do menino estavam ansiosos e tinham condições de aceitá-lo de volta, disse ela, então por que o Estado estava prestes a separá-los para sempre?

Em 19 de fevereiro, as mesmas autoridades que dias antes haviam insistido para que Pascual fosse adotado inverteram o curso dos acontecimentos, solicitando que o menino recebesse permissão para voltar para os pais. Eles até pagariam seu voo.

O tribunal concordou.

Millie deu a notícia a Pascual naquele fim de semana.

“Agora faltam apenas dez dias até você estar com sua mamãe e papai, sua irmã e irmão mais novo”, ela disse a ele, quase deixando cair o telefone que estava usando para gravar a conversa quando ele correu e a abraçou.

Millie e Galo costumavam ouvir Pascual chorando no chuveiro. Mas, naquela noite, pouco depois de dizer aos pais que voltaria para casa, eles o ouviram cantando.

Uma semana depois, no seu último dia de escola nos Estados Unidos, seus professores lhe deram um livro do Dr. Seuss em espanhol.

¡Oh, cúan lejos llegarás! era o título. Algo como “Você ainda vai muito longe!”.

Naquela tarde, Pascual tentou espremer um boneco do Capitão América numa mochila já estufada enquanto Millie punha na mala sobras de doces do Valentine’s Day para o garoto que aprendera a amar o sabor do açúcar processado. Em seguida, colocou a foto da escola no álbum de fotos que tinha feito para os pais dele.

Enquanto brincava no quintal pela última vez com seus irmãos adotivos, Pascual avistou um pássaro comendo do comedouro que ele fizera com Galo. Pascual o pintara com o tom de roxo favorito de Millie. Mas não conseguia se lembrar da cor favorita de sua mãe.

Na Cidade da Guatemala, sua mãe e seu pai ficaram horas sentados numa sala de espera bege e branca do governo. Nunca tinham pisado na capital e trouxeram Francisco Figueroa, que morava perto deles em Las Pilas e falava espanhol, para traduzir.

Diego, o irmão de 8 anos de Pascual, se remexia na cadeira enquanto sua irmã de 5 anos, Juanita, penteava os cabelos. Um pôster anunciava um aplicativo de smartphone para migrantes que seguiam para o norte. De repente, uma caminhonete parou na rua e Lucia e as crianças correram até a janela para ver Pascual.

Mas, antes que pudessem se virar, o menino que esperavam já estava abraçando o pai que o mandara embora.

Lucia levou o filho a um assento, onde o abraçou e sussurrou em q’anjob’al.

“Nunca mais vou deixar você partir”, prometeu ela, enquanto o menino balançava a cabeça e silenciosamente retribuía o abraço.

A jornada da família recém-reunida de volta à aldeia levou quase dois dias.

Conforme avançavam pelas montanhas sinuosas, Pascual começou a se sentir em casa. Quando o caminhão finalmente parou, ele saiu correndo pela trilha de terra através da folhagem espessa até chegar a uma cabana de madeira com telhado de zinco.

Mas, na empolgação e confusão, ele não foi para sua casa e sim para a de seu avô, onde o velho se levantou e deu um abraço no menino.

Sua própria casa agora parecia diferente. Seus pais haviam reorganizado as coisas e acrescentado uma cozinha separada, mas o espaço parecia menor. Num canto, os lençóis criavam um quarto onde sua mãe e irmã geralmente dormiam. Em outro, havia uma segunda cama para Federico e os meninos.

Pascual abriu suas mochilas e começou a tirar presentes: uma boneca Barbie para a irmã; um boneco do Homem de Ferro para o irmão; um bicho de pelúcia que cantava ABC em inglês – língua que só ele entendia. Quando os dois meninos começaram a cavar no chão de terra com caminhõezinhos basculantes, Lucia os repreendeu e rapidamente colocou a terra de volta no lugar.

Comeram ovos e tortilhas sob lâmpadas nuas antes de os irmãos adormecerem na mesma cama.

Na manhã seguinte, Pascual acordou cedo para ajudar sua mãe a cortar lenha e jogou a caixa da boneca Barbie nas chamas. Depois a família se sentou em bancos baixos para comer a sopa de legumes de Lucia.

Mas, antes que pudesse terminar de comer, Pascual ouviu uma voz assustadoramente familiar lá fora.

Era Marcos.

O primo que fora deportado dos Estados Unidos por supostamente abusar de Pascual agora estava morando com o avô, a apenas vinte metros dali.

Pascual se espremeu atrás da porta e sumiu de vista quando Federico saiu.

Lucia parou de cozinhar e foi atrás do marido. Tinha deixado Marcos levar seu filho uma vez, disse a si mesma, mas nunca mais o deixaria chegar perto do menino.

Entre as frestas nas tábuas de madeira, Pascual podia ver sua mãe observando os homens à distância. Então ela se virou e voltou para seu filho./ Tradução de Renato Prelorentzou.

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