Arquivo Pessoal/NYT
Arquivo Pessoal/NYT

Imigrante de 10 anos é detida nos EUA após agentes a abordarem no caminho para o hospital

Menina, que tem paralisia cerebral, chegou aos EUA com apenas 3 meses de vida e seus pais têm status legal; agentes de imigração aguardaram do lado de fora até que ela tivesse alta médica para prendê-la

O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 16h17
Atualizado 26 Outubro 2017 | 18h09

HOUSTON - Uma menina de 10 anos com paralisia cerebral foi detida por autoridades federais de imigração no Texas após ela passar por um posto de checagem da Patrulha de Fronteira no caminho para o hospital onde foi submetida a uma cirurgia de vesícula biliar de emergência. 

A garota, Rosamaria Hernandez, que foi levada para os EUA ilegalmente para viver em Laredo, no Texas, quando tinha apenas 3 meses de vida, estava sendo transferida de um centro médico em Laredo para um hospital em Corpus Christi por volta das 2 da manhã da terça-feira, quando patrulheiros pararam a ambulância que a levava, segundo relatou sua família. Os agentes permitiram que ela continuasse para o Hospital Discoll Children, mas seguiram a ambulância até lá, onde esperaram do lado de fora do quarto da menina até ela receber alta do hospital. 

+Centro de detenção de imigrantes no Texas é local de abusos, dizem entidades

Na noite de quarta-feira, de acordo com membros da família e advogados envolvidos no caso, agentes da imigração a levaram para uma instalação em San Antonio onde crianças imigrantes que chegam aos EUA sozinhas de países da América Central são mantidas. Ela foi mantida detida mesmo com seus pais estando em situação legal nos EUA. 

 

Sua situação destaca as circunstâncias atípicas do caso: o governo federal mantém centros de detenção para imigrantes adultos com o objetivo de deportá-los, unidades para famílias que fazem a travessia da fronteira juntos e abrigos para crianças que chegam sozinhas, conhecidas como menores desacompanhados. Mas é raro, se não desconhecido, para uma uma criança que já está vivendo nos EUA ser presa, particularmente uma com sérios problemas de saúde. 

Agentes de imigração têm, no entanto, prendido alguns adolescentes suspeitos de pertencer a gangues como o MS-13, que nasceu em Los Angeles e em El Salvador, que o presidente Donald Trump e o secretário de Justiça, Jeff Sessions, têm repetidamente condenado. Como uma questão geral, a administração Trump endureceu a aplicação das regras de imigração pelo país, levantando diretrizes estabelecidas sob a presidência Barack Obama que tornaram improvável que um imigrante sem documentos, com exceção daqueles que chegaram recentemente ao país ou daqueles com ficha criminal, ser deportado. 

 

Entre a posse de Trump e o começo de setembro, o número de imigrantes presos cresceu mais de 40% comparado com o mesmo período no ano passado, de acordo com os dados divulgados pelo Departamento de Imigração e Fiscalização Aduaneira. 

O primo de Rosamaria, Aurora Cantu, um cidadão americano que estava com ela na ambulância e a acompanhou até o hospital junto com a mãe da menina e outras pessoas, explicou que os agentes de imigração, primeiro, tentaram persuadir a família a concordar com uma transferência da garota para um hospital mexicano, pressionando a todos a assinar um formulário de "partida voluntária" para a menina. Eles se recusaram a fazê-lo. Todo o tempo em que Rosamaria estava em cirurgia e na sua recuperação, vários agentes de fronteira se posicionaram no lado de fora do quarto dela no hospital, segundo sua família. 

 

Sua mãe, Felipa de la Cruz, de 39 anos, disse em uma entrevista que sua família se mudou para Texas de Nuevo Laredo, a cidade do México do outro lado da fronteira, bem próxima da Laredo americana, quando Rosamaria era ainda um bebê, com a esperança de obter um tratamento melhor para ela contra a paralisia cerebral. 

Eles não conseguiam pagar pelos tratamentos no México, disse Felipa, mas no Texas, eles tiveram acesso ao Medicaid, que possibilitou à criança receber o tratamento, incluindo visitas em casa de terapeutas. 

"Eu sou uma mãe. Tudo o que eu queria era que ela tivesse a chance de ser submetida à cirurgia de que necessitava", disse Felipa. "Nunca passou pela minha cabeça isso que está acontecendo agora. Quando você é mãe, tudo o que você se importa é com o seu filho." 

Os médicos de Rosamaria recomendaram que ela deveria permanecer sob os cuidados de algum parente por causa da sua doença, explicou Alma Ruiz, uma advogada de San Antonio que integra o time de defesa da família. Mas a agência de imigração não concordou, até a tarde desta quinta-feira, com a soltura da menina. 

O deputado Henry Cuellar, democrata do Texas, que representa a áraea de Laredo no Congresso, pediu que a menina fosse entregue a sua família. "Eu entendo que os agentes têm um grande papel para proteger nossa nação", disse ele em um comunicado. "Mas nós deveríamos direcionar nossos recursos e foco às grandes ameaças." 

Um porta-voz da agência de imigração, que engloba a patrulha de fronteira, não respondeu aos pedidos do jornal The New York Times para comentar o caso. 

O caso de Rosamaria talvez seja o exemplo mais extremo na história recente de um dilema relacionado à situação dos imigrantes ilegais que vivem na região do Rio Grande Valley, ao sul dos postos de checagem da fronteira: receber tratamento médico adequado requer ver médicos e hospitais no norte, mas cruzar os postos de checagem pode significar detenção e deportação. / THE NEW YORK TIMES 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.