Manan Vatsyayana
Manan Vatsyayana

Imigrante ilegal do Vietnã é peão no tráfico de maconha no Reino Unido

Cuong Nguyen pagou mais de US$ 20 mil para trabalhar nas plantações escondidas de cannabis no país

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 11h21

HAI PHONG, VIETNÃ - Um pequeno traficante no Vietnã, Cuong Nguyen pagou mais de US$ 20 mil para trabalhar nas plantações escondidas de cannabis no Reino Unido. Assim como ele, milhares de imigrantes ilegais vietnamitas - incluindo adolescentes - estão no território britânico, por vontade própria ou forçados, em razão deste tráfico.

“A única coisa que queria era ganhar dinheiro, de maneira legal ou não”, conta Cuong Nguyen, que chegou ao Reino Unido em 2009, foi detido e enviado ao seu país cinco anos mais tarde.

No território britânico, a quantidade de cannabis cultivada em estufas cresce mais a cada ano e existem dezenas de fazendas escondidas em todo o país.

O crime organizado asiático, em particular o vietnamita, desempenha um papel predominante nesta produção local, atraído pela ganância em um lugar onde o mercado negro da maconha gera cerca de US$ 3,3 bilhões anuais, segundo um relatório de 2018 do Instituto de Assuntos Econômicos.

Cuong viajou por vontade própria para trabalhar nesse setor, mas muitos o fazem de maneira forçada, vítimas de redes de traficantes. Entre eles, adolescentes, mão de obra visada pelos donos das fazendas de cannabis por não serem bem remunerados, além de serem fáceis de controlar e intimidar.

Passaporte + passagem de avião = US$ 40 mil

Sair do Vietnã e chegar ao Reino Unido de maneira ilegal custa muito caro. Os traficantes pedem até US$ 40 mil por um passaporte e uma passagem de avião com destino ao leste da Europa, explica Mimi Vu, especialista em tráfico de pessoas. De lá, chegam ao território britânico por terra.

Uma vez no Reino Unido, normalmente muito endividados, eles se veem obrigados a trabalhar em casas de prostituição ou em plantações de cannabis.

Cuong Nguyen sabia o que o esperava. Em sua adolescência no Vietnã, entrou para o submundo do crime e, após se juntar a uma gangue da cidade portuária de Haiphong (norte do país), trabalhou na segurança de um prostíbulo na periferia local. 

Pouco depois, passou a vender heroína e cocaína. Alguns intermediários então o seduziram com o negócio lucrativo do cultivo da cannabis no Reino Unido.

US$ 6,6 mil para se esconder entre as rodas de um caminhão

Em troca de US$ 15 mil, Cuong conseguiu um passaporte falso e um lugar em um grupo que seguia rumo à Europa. Uma vez em Calais, no norte da França, se dirigiu a um acampamento de imigrantes e por US$ 6,6 mil a mais “se escondeu entre as rodas de um caminhão para chegar ao Reino Unido”.

Ali foi rapidamente contratado para cultivar cannabis em uma casa na cidade de Bristol. Como não falava inglês, não tinha o direito de sair ou de ficar sozinho, e os proprietários do lugar “se contentavam em entregar alimentos a ele uma vez por semana”, relata.

Sua rotina consistia em “misturar os nutrientes” necessários para centenas de plantas de cannabis amontoadas na casa, “colocá-las duas horas sob a luz e depois regá-las”.

Alguns meses depois de sua chegada, a polícia começou a rondar o bairro. Com medo, Cuong fugiu e foi transferido a outras fazendas da região de Bristol, entre elas uma escondida em um estábulo.

O trabalho concedeu a Cuong um gorda renda: US$ 19 mil em menos de um ano, uma fortuna para ele, tendo em conta que em seu país o salário médio anual não supera os US$ 2 mil.

Cuong partiu rumo a Londres, onde vendeu droga e treinou outros peões no cultivo da cannabis. Em 2014, ele foi detido e condenado a 10 meses de prisão, segundo os arquivos dos tribunais de Bristol. Após alguns meses preso, foi finalmente expulso do país.

Ao retornarem ao seu país, muitos imigrantes têm poucas oportunidades de encontrar emprego e correm o risco de cair de novo no mundo das atividades ilícitas. Acabam ficando presos no “círculo vicioso” do crime e da pobreza, explica Mimi Vu. 

Cuong disse que parou com o tráfico de drogas. Ele vive hoje em uma modesta casa em Haiphong e espera abrir um salão de cabeleireiro.

Contudo, as fazendas clandestinas continuam prosperando no Reino Unido. Nos últimos anos, a polícia britânica descobriu uma que estava escondida em um refúgio antiatômico da 2.ª Guerra, outra em uma antiga delegacia, em uma ex-sala de bingo e em um hospital abandonado. / AFP

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