EFE/EPA/LEONID SCHEGLOV
EFE/EPA/LEONID SCHEGLOV

União Europeia condena 'táticas de gangster' de Belarus na fronteira polonesa

Centenas de pessoas permanecem na divisa entre os dois países à medida que a temperatura cai e tensão aumenta

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 10h54
Atualizado 09 de novembro de 2021 | 17h04

A União Europeia (UE) condenou o presidente de Belarus por “agir como um gangster”, em meio ao agravamento da crise humanitária na fronteira do país com a Polônia.

Alexander Lukashenko foi acusado de enviar refugiados à fronteira da UE na tentativa de punir o bloco pelas críticas e sanções à repressão interna promovida pelo governo belorusso aos dissidentes.

Centenas de pessoas continuaram a viajar pelo país na terça-feira, enquanto o governo polonês anunciava que entre 3.000 e 4.000 pessoas haviam sido colocadas em um acampamento improvisado na fronteira, em frente ao vilarejo de Kuźnica.

Em uma primeira resposta ao desdobramento da situação, os 27 estados-membros da UE concordaram em suspender um acordo de facilitação de vistos entre UE e Belarus, enquanto a presidência do bloco criticava Minsk por "brincar com a vida das pessoas para fins políticos".

Um porta-voz da Comissão Europeia disse que era inaceitável que o governo de Lukashenko “usasse pessoas como peões políticos”. “Isso é parte da abordagem desumana e realmente do estilo gangster do regime de Lukashenko, mentindo para as pessoas, abusando das pessoas, enganando-as e trazendo-as para Belarus sob a falsa promessa de uma entrada fácil na UE”, disse o porta-voz.

A Polônia, membro da UE e da Otan, tem recebido fortes críticas por sua retórica dura sobre a migração nos últimos anos. Mas o apoio da UE às medidas de contenção dos imigrantes que vem de Belarus sugerem um abrandamento da abordagem em relação ao governo de direita do país.

O presidente da Polônia, Andrzej Duda, disse: “O regime de Belarus está atacando a fronteira polonesa e a União Europeia de uma maneira sem paralelo. Atualmente, temos um acampamento de migrantes que estão bloqueados no lado belarusso. Estas são ações agressivas que devemos repelir, cumprindo nossas obrigações como membro da União Europeia.”

O ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, disse que os países da UE precisam se unir diante de uma "ameaça híbrida" representada pela "migração politicamente organizada". “Os poloneses reagiram corretamente até agora”, disse Seehofer ao jornal alemão Bild. “Não podemos criticá-los por proteger as fronteiras externas da UE com os meios admissíveis. Os poloneses estão prestando um serviço muito importante para toda a Europa ”.

Área de fronteira militarizada

A Polônia enviou cerca de 11.000 soldados para a área de fronteira, criou uma zona militarizada com três quilômetros de extensão, construiu uma cerca de arame farpado e aprovou a construção de um muro de fronteira. Também está impondo um estado de emergência na região, bloqueando acesso da mídia.

A polícia polonesa bloqueou a entrada de centenas de pessoas no país na segunda-feira, depois que autoridades belarussas as escoltaram até a fronteira. Centenas de pessoas passaram a noite de segunda-feira em barracas em um acampamento ao longo da fronteira, recolhendo lenha e acendendo fogueiras enquanto as temperaturas caíam abaixo de zero.

A passagem da fronteira de Kuźnica, na Polônia, foi fechada na terça-feira, e a polícia monitora a área com óculos de visão noturna e imagens térmicas, e relatou um grande destacamento de tropas belarussas se aproximando do campo.

Durante os confrontos na segunda-feira, surgiram imagens de vídeo que pareciam mostrar um oficial polonês armado pulverizando produtos químicos contra homens que tentavam cortar a cerca de arame farpado da fronteira. Outros tentaram pular a cerca escalando longos postes de madeira ou galhos. A polícia polonesa foi atingida por objetos lançados do lado belarusso.

Lukashenko e o presidente russo, Vladimir Putin, falaram por telefone na segunda-feira e expressaram preocupação com o aumento de tropas polonesas na fronteira, informou a agência de notícias estatal belarussa Belta na terça-feira.

“Para conduzir uma guerra com essas pessoas infelizes na fronteira da Polônia com Belarus e avançar colunas de tanques - está claro que isso é um treinamento militar ou é uma chantagem”, disse Lukashenko. “Vamos enfrentar isso com calma.”

Em uma ameaça velada, ele acrescentou que a Rússia poderia ser forçada a intervir. “Não estamos intimidados. Porque sabemos que se, Deus nos livre, cometermos algum erro, se tropeçarmos, isso atrairá imediatamente a Rússia para este redemoinho, e ela é a maior potência nuclear”, disse ele.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, sugeriu que a UE fornecesse assistência financeira a Belarus para interromper o fluxo de refugiados, referindo-se a um acordo anterior com a Turquia.

Fuga para a Europa

Muitos dos que buscam entrar na Polônia estão fugindo da guerra e de países assolados pela pobreza no Oriente Médio. A maioria deseja chegar à Alemanha, que disse ter recebido mais de 6.100 refugiados de Belarus via Polônia desde o início do ano.

O parlamento da Lituânia também vai adotar estado de emergência em sua fronteira com Belarus, onde imigrantes também tentam cruzar a fronteira, e os colocou em campos de detenção na capital e em outros lugares. A decisão dará à polícia lituana poderes adicionais para expulsar requerentes de asilo e restringirá viagens e reuniões públicas perto da fronteira.

Bruxelas disse que está em negociações com 13 países que podem ser os que mais tem migrantes atravessando Belarus. Eles são Camarões, República Democrática do Congo, República do Congo, Egito, Geórgia, Guiné, Iraque, Jordânia, Cazaquistão, Líbano, Paquistão, Tajiquistão e Turquia.

Minsk emitiu vistos especiais que permitem que as pessoas voem do Iraque e de outros países do Oriente Médio para Belarus./ AP, REUTERS e W.POST

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