Marvin RECINOS / AFP
Marvin RECINOS / AFP

Imigrantes centro-americanos trocam coiotes por redes sociais e grupos de WhatsApp

Moradores de El Salvador, Honduras e Guatemala planejam caravana até a fronteira entre México e EUA com auxílio de aplicativos de mensagem; autoridades alertam para risco de atravessadores se infiltrarem no grupo de viajantes

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2018 | 15h41

SAN SALVADOR - Enquanto uma nova caravana se prepara para partir de El Salvador em direção aos Estados Unidos, os imigrantes centro-americanos usam as redes sociais e aplicativos pra trocar mensagens com quem já fez o percurso e se planejarem.

Uns querem saber o melhor lugar para cruzar a fronteira, outros, o que levar na mochila. Há também os que, sem dinheiro para contratar um coiote, encontraram nos grupos uma forma de driblar essa dificuldade.

"Meu objetivo é chegar aos Estados Unidos e, viajando em Caravana, ninguém pode tocar em mim", diz um homem de voz roca em mensagem de áudio enviada em um grupo chamado "Patria querida. Caravana III 18 - N A USA 9 am" pouco antes da partida do comboio de El Salvador.

Desde outubro, mais de 5 mil imigrantes centro-americanos viajaram milhares de quilômetros a pé, de carona ou de ônibus, até a fronteira do México com os Estados Unidos.

Mais barato e seguro

Na noite de San Salvador, uma viúva de 38 anos vigia seus dois filhos, de 13 e 11 anos, dormindo sob um cobertor vermelho. "Eu descobri sobre a caravana no Facebook. Alguém postou o link para o grupo do WhatsApp", disse. 

"As pessoas trocam informações, não há líderes", explica ela com um olhar determinado sob o boné de beisebol. A mulher não quis informar seu nome por medo de ser retaliada por gangues que já ameaçaram sua família

Foi o temor desses grupos, que espalham terror em El Salvador e em toda a América Central, que fez essa mãe decidir deixar o trabalho no qual recebia US$ 6 por dia para fazer tortilhas de milho. "Nós, os pobres, não temos os US$ 8 mil para pagar um coiote. Por isso, é mais seguro sair em caravana", disse.

Outra mãe, essa de 39 anos, teve que abandonar sua casa sob ameaça de bandidos que sequestraram seu marido. Para ela, a caravana é "uma oportunidade de ter um futuro melhor" para seus filhos de 14 e 12 anos.

Mensagens anônimas

Seguido o exemplo dos 2 mil imigrantes que saíram de Honduras em 13 de outubro, um primeiro grupo de salvadorenhos pegou a estrada em direção aos EUA no dia 28 daquele mês. No dia 31, já era 1,6 mil pessoas, que se juntaram aos outros depois de descobrirem o plano em páginas no Facebook como a "El Salvador emigra por um futuro melhor", que conta com mais de 4 mil curtidas.

Em 18 de novembro, no entanto, apenas 200 continuavam a travessia. Os outros desistiram de seguir caminhando ou preferiram pagar US$ 5 para viajar de ônibus até a Guatemala. De lá, continuariam para o México.

A desconfiança, até mesmo a paranoia, e a impossibilidade de verificar depoimentos sobre a hostilidade sofrida pelos imigrantes nos países que atravessam, também são destilados pelo WhatsApp, e, talvez, tenham contribuindo para diminuir o fluxo de viajantes.

"Todo mundo está empilhado na fronteira com o México e as pessoas não lhes dão mais nada", escreveu um número a partir de um telefone mexicano.

Evelyn Marroquín, diretora do serviço de migração salvadorenho, destaca a decepção daqueles que foram impedidos de entrar nos EUA: "Eles disseram que, enquanto estavam na Guatemala, aqueles que estavam organizando a caravana pediram dinheiro (...) não houve solidariedade nas redes nem um grupo de pessoas unidas para viajar junto", disse. "Todos esses comentários que eles leram nas redes sociais eram mentira."

Organizadores não identificados

Apesar dos relatos, outro comboio se prepara para partir depois das festas de fim de ano. Um novo grupo de discussão foi aberto: "Caravana 02/janeiro/2019". Em poucos minutos, mais de 200 pessoas se conectam. As mensagens brotam.

Sem se identificar, #StarLord se apresenta como o administrador do chat, decide quem pode fazer parte ou não e apaga alguns comentários.

O administrador dá conselhos: "Mochila leve, 2 calças confortáveis, 3 camisas (...) dinheiro que puder levar (é para seu próprio uso, mas não é indispensável).

Em média, entre 300 e 400 pessoas saem de El Salvador todos os dias. Os imigrantes mais pobres se alegram com as caravanas, pensando na possibilidade de evitar pagar uma fortuna (que não têm) a um "coiote". No entanto, as autoridades interceptaram traficantes de pessoas infiltrados nos comboios.

"Havia 3 pessoas presas em flagrante nas duas primeiras caravanas pelo crime de tráfico ilegal de seres humanos", disse o ministro salvadorenho de Justiça e Segurança Pública, Mauricio Ramírez.

Os presidentes da Guatemala, Jimmy Morales, e de Honduras, Juan Orlando Hernández, denunciaram que os imigrantes estão sendo manipulados politicamente para "violar fronteiras".

Para Benjamín Cuéllar, especialista salvadorenho em direitos humanos, "não há base objetiva para apoiar" a suposta manipulação. "As pessoas têm que ir, elas vivem no inferno, então elas têm que sair (...) por causa da fome e do derramamento de sangue". / AFP

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