Tamir Kalifa/The New York Times
Tamir Kalifa/The New York Times

Imigrantes com filhos voltam a ser liberados

Após ordem de Trump, Patrulha da Fronteira manteve a política de 'tolerância zero' a adultos sem filhos que cruzarem ilegalmente a fronteira

Nick Miroff – The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2018 | 05h00

Dois dias após cruzar a fronteira e entrar nos Estados Unidos com a filha de 16 anos para pedir asilo, Rosalba Najera espera no calor sufocante da estação de ônibus. Usa uma tornozeleira negra de plástico. O dispositivo de monitoração é a única coisa a lembrar a essa mãe salvadorenha que ela está sob os cuidados da imigração dos Estados Unidos.

Como tinha duas passagens de ônibus para a Virgínia, ela e a filha, Yoana, foram liberadas em menos de 48 horas para viajar. “Estou tão feliz”, disse a salvadorenha, apesar de a tornozeleira continuar apertando e coçando.  “Espero que nos deixem ficar por aqui.”

A rapidez da liberação, durante o fim de semana, é um indício da volta do status quo à fronteira quatro dias depois de uma ordem executiva do presidente Donald Trump congelar abruptamente um sistema de separação de família que provocou uma onda nacional de indignação.

Funcionários do governo Trump haviam prometido pôr fim ao “prende e solta”que livrava de detenção pais com filhos que aguardavam decisões jurídicas.

Mas, com as separações quase interrompidas e ante as poucas instalações para manter juntas as famílias , a situação na fronteira praticamente voltou ao que era  antes da chamada iniciativa de “tolerância zero” de Trump. Até que novas instalações para abrigar famílias inteiras sejam construídas, mais pais com filhos, como Rosalba Najera, estão sendo liberados.

O comandante da Patrulha de Fronteira dos EUA, Kevin McAleenan, confirmou que, imediatamente após a ordem de Trump, orientou seus funcionários a suspender processos criminais contra adultos que cheguem trazendo filhos.

Os processos – por “entrada ilegal” – são o mecanismo que o governo utilizava para separar filhos de migrantes dos pais e pôr as crianças em abrigos provisórios. McAleenan disse que, embora nenhuma categoria d e adulto esteja isenta de ser processada criminalmente, só em duas circunstâncias a Patrulha de Fronteira continuará a encaminhar pais ao Departamento de Justiça: no caso de eles terem antecedentes criminais ou no caso de o bem-estar dos filhos estar em risco.

Pais cuja única violação da lei tenha sido entrar ilegalmente no país não serão mais afastados dos filhos, disse o policial. “De acordo com a ordem executiva, determinei a suspensão temporária de processos contra famílias nessa condição enquanto trabalhamos com o Departamento de Justiça em busca de uma solução pela qual possamos manter a família junta e simultaneamente prosseguir com os processos”, disse McAleenan.

+ Trump pede a deportação de imigrantes ilegais 'sem juízes ou processos judiciais'

O chefe da Patrulha de Fronteira anunciou que o governo continuará a aplicar rigorosamente a “tolerância zero” a adultos sem filhos que cruzarem ilegalmente a fronteira. Esses infratores, disse ele, continuarão enfrentando acusação de entrada ilegal.

Entretanto, a efetividade de tal abordagem também vem sendo questionada, uma vez que muitos infratores primários têm a pena suspensa enquanto aguardam ser transferidos para a Agência de Imigração e Alfândega ICE) para possível deportação. Além disso, a demora no trâmite do processo acabará retardando sua remoção dos EUA, dizem críticos.

Funcionários do governo em Washington admitiram que, na prática, tudo está voltando ao que era antes de secretário de Justiça, Jeff Sessions, anunciar a “tolerância zero”, no início de abril.  

Segundo esses funcionários, a suspensão de processos contra pais com filhos deve ser temporária, pois o governo espera que dentro de semanas já haja mais instalações apropriadas que possibilitem mais eficácia na detenção e deportação de adultos que cruzem a fronteira com família.

McAleenan falou a um pequeno grupo de repórteres no sinistro Centro de Processamento Centralizado da Patrulha de Fronteira, onde mais de 1.100 adultos e crianças – todos recém-ingressados nos EUA – são mantidos em celas de chão de cimento trancadas com cadeado, em um antigo armazém. Chamadas de “canil” tanto por patrulheiros de fronteira quanto por migrantes, foram essas celas que geraram as acusações de que o governo vinha mantendo crianças “em jaulas”.

Mais da metade dos migrantes que estão no antigo armazém são adultos com filhos. Isso e o elevado número de pessoas detidas ao longo do rio em dias recentes parecem indicar que a pressão migratória pouco mudou em consequência da curta experiência de separação de família.

Mais de 50 mil migrantes foram detidos a cada mês ao longo da fronteira com o México durante os três últimos meses. São os números mais altos registrados na presidência de Trump. O índice de detenções é o principal termômetro da tendência migratória.

McAleenan espera que o total e detenções decline até o final de junho, mas não faz estimativas específicas. “Acredito que o foco na repressão na fronteira venha tendo impacto no número de entradas ilegais”, avaliou.

Como mais o alto funcionário da Patrulha de Fronteira, ele é responsável pela segurança nas fronteiras dos EUA e pela implementação de algumas das mais vistosas iniciativas políticas do presidente, entre elas a construção de um muro ao longo da fronteira com o México.

MacAleenan disse aos repórteres que o grande número de crianças e famílias chegando à fronteira é parte de um “fenômeno de muitos anos”, uma “situação complexa que exige novas estratégias”. Para ele, é crucial trabalhar com governos da América Central para melhorar a segurança fronteiriça e reduzir a pressão migratória.

Ao mesmo tempo, McAleenan ecoa o desdém do governo por regras jurídicas que limitam a detenção de famílias. Segundo ele, o sistema de “prende e solta” é um forte incentivo para que pais migrem com os filhos, sob riscos significativos.

Rosalba Najera, a mãe salvadorenha da estação de ônibus, traz consigo um envelope de papel-manilha provas de que ela e a filha entraram nos Estados Unidos num posto oficial de fronteira em Rio Grande City, Texas, para pedir asilo. Assim, uma vez que não entraram ilegalmente, Rosalba não aceita ser afastada da filha pelo sistema de separação que mandou mais de 2.500 crianças para abrigos provisórios entre 5 e 20 de junho.

Segundo a salvadorenha, e a filha fugiram de sua casa próxima à cidade de Usulutan. Ela pescava e catava camarão ao longo da costa. Dois meses antes da fuga, membros da gangue Barrio 18 haviam assaltado a família e ameaçado matar a filha de Rosalba.

Sua filha mais velha ficou em casa com o pai. Rosalba ouvira dizer que se viajasse apenas com a filha de 16 anos seriam maiores as chances de não haver separação na fronteira. Mas agora ela está preocupada com o que pode acontecer com a outra filha.

Rosalba informou que uma primeira audiência sobre seu caso está marcada para meados de julho no tribunal federal para imigração de Arlington, Virgínia. Segundo ela, o funcionário encarregado de avaliar seu pedido de asilo parece ter duvidado de sua história. “Chegar aqui era nosso sonho, mas agora tenho medo de que eles não acreditem em  mim e nos mandem de volta para nosso país”, lamentou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.