Imigrantes do Haiti passam fome no Acre

Governo acreano não pode custear imigrantes que, em breve, devem ser despejados de abrigo

ITAAN ARRUDA, ESPECIAL PARA O ESTADO, RIO BRANCO (AC), O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2012 | 02h03

Os 280 haitianos que estão na cidade de Brasileia, no Acre, a 233 quilômetros de Rio Branco, estão passando fome. A casa onde estão alojados está com seis meses de aluguel atrasado e o governo do Estado, que custeia as despesas, diz não ter mais condições de manter a estrutura de apoio.

Há um mês, a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos do Acre tomou uma medida drástica: cortou o fornecimento de comida. A empresa contratada deixou de receber o pagamento há quatro meses e há uma dívida acumulada de R$ 50 mil.

Em um ano e dez meses, o governo do Acre calcula que gastou R$ 2,5 milhões e a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos não vê um cenário otimista para o problema. "Só há um ministério que tem verba destinada a essa situação", disse o secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão, referindo-se ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

O governo do Acre assegura que já tentou acessar essa verba. "Eu não tenho mais orçamento para custear essa ajuda", afirmou Mourão. Na segunda-feira, foram cortados os fornecimentos de água e de energia elétrica da casa onde está o grupo.

Sem energia, à noite, a situação é dramática. O problema se agrava porque há 15 haitianas grávidas em Brasileia. Entre elas, cinco estão perto do parto. "Eu estou pedindo doações de empresas que vêm buscar trabalhadores aqui", afirmou o representante da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Damião Borges. "O problema é que essas empresas são ligadas à construção civil e não querem mulheres."

Para agravar a situação, não param de chegar haitianos na cidade. "Eu articulo a saída de 30 e chegam mais 40", disse Borges. "O trabalho da Polícia Federal na emissão de CPFs é ágil, mas mantê-los aqui é que está insustentável."

Alguns poucos professores da Universidade Federal do Acre (Ufac) realizam trabalhos voluntários de apoio aos haitianos. "Se não houver uma intervenção rápida, algo grave pode ocorrer", afirmou o professor do Departamento de Ciências da Natureza da Ufac, Foster Brown.

Como o proprietário da residência já solicitou a devolução do imóvel em razão dos seis meses de atraso do aluguel, o despejo dos haitianos é uma questão de tempo. "É um problema de ordem social. Em breve, um grupo grande de haitianos pode estar nas ruas sem abrigo e sem comida", disse Brown.

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