Imigrantes do Leste voltam para casa

Com regresso de trabalhadores para países de origem, Europa Ocidental pode enfrentar escassez de mão-de-obra

Der Spiegel, Londres, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2008 | 00h00

Quando a União Européia (UE) se expandiu em 2004, milhões de europeus orientais se dirigiram à Europa Ocidental em busca de emprego. Agora, com a mudança nas realidades econômicas de seus países de origem, muitos estão voltando - e a Europa Ocidental pode enfrentar uma escassez de mão-de-obra. Em 2004, quando a UE agregou mais dez países - a maioria da empobrecida Europa Oriental -, centenas de milhares de trabalhadores, especialmente poloneses, imigraram aproveitando-se do fato de a Grã-Bretanha, a Irlanda e a Suécia terem aberto imediatamente suas fronteiras para os novos países do bloco. Mas, agora, o debate sobre se é excessivo o número de novos imigrantes está mudando. Com a perspectiva de que a crise econômica atual seja passageira, vários países da Europa Ocidental poderão em breve ter de imaginar maneiras de atrair mais mão-de-obra do Leste.De acordo com uma pesquisa recente do Centro de Pesquisas em Opinião Pública (CBOS) de Varsóvia, a quantidade de poloneses dispostos a trabalhar no exterior é hoje metade da de 2004. Além disso, estatísticas do governo britânico indicam que o número de vistos de trabalho emitidos para imigrantes do Leste em 2007 caiu 10% em relação a 2006. "A tendência está começando, mas já podemos observá-la com clareza", disse Justyna Frelak, do CBOS. Um relatório recente publicado pelo Instituto de Pesquisa em Políticas Públicas (IPPR) indica que já voltaram para casa cerca de 50% dos imigrantes que se mudaram para a Grã-Bretanha em 2004. "A questão é quando, e não se, as grandes migrações do Leste Europeu desacelerarão. Com a entrada de poucos imigrantes e a saída de um número cada vez maior, a Grã-Bretanha parece precisar de torniquetes, e não de eclusas", disse Danny Sriskandarajah, do IPPR. A notícia dessa lenta reversão será certamente bem recebida nas capitais da Europa Oriental e nos Estados bálticos da Letônia, Lituânia e Estônia. Muitos desses países enfrentaram grande escassez de mão-de-obra conforme os jovens profissionais e trabalhadores optavam pelos salários mais altos do Oeste. De fato, 3,3% da população da Lituânia foi para a Grã-Bretanha e para a Irlanda após a admissão na UE, assim como 2,5% dos letões. Cerca de 1,5 milhão de poloneses trabalharam na Grã-Bretanha, Irlanda e Suécia nos últimos quatro anos. As empresas do Leste tiveram dificuldades para preencher as vagas deixadas pela debandada de trabalhadores. No entanto, as realidades econômicas atuais parecem um solo fértil para mudar esse quadro. O crescimento dos países da Europa Oriental tem sido muito superior ao da Europa Ocidental nos últimos anos, e os salários aumentaram proporcionalmente. Na Eslováquia, o salário médio aumentou 7,2% em 2007, com um crescimento de 11,6%. Na Letônia e na Romênia, os salários também estão subindo em ritmo vertiginoso. Enquanto isso, uma economia global em desaceleração torna a imigração para a Europa Ocidental uma aposta menos garantida. As pesquisas também mostraram que muitos imigrantes jamais tiveram a intenção de passar muito tempo longe de casa ou decidiram encurtar sua estada por motivos pessoais. Por outro lado, ainda não é possível prever se o fluxo de regressos será suficiente para amenizar a escassez de mão-de-obra no Leste. Os salários da Europa Ocidental ainda são em média superiores aos da Europa Oriental, e as taxas de natalidade extremamente baixas em muitos países do Leste significam que o futuro aparenta ser velho e cinzento em vez de jovem e dinâmico. De fato, o Banco Mundial solicitou a países como Polônia, Bulgária e Estados bálticos que abram seu mercado de trabalho aos imigrantes."Não há dúvida de que a imigração será necessária para suprir a escassez de mão-de-obra", disse Pradeep Mitra, economista-chefe do Banco Mundial para a Europa e Ásia Central. "A concessão a ser feita é a seguinte: aceitar a imigração de maneira regulada ou não levar a sério a pretensão de convergir com o padrão de vida dos países do Oeste."

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