Imigrantes e emigrantes transformam Venezuela

Enquanto a classe média foge temendo Chávez, trabalhadores do Oriente Médio, América Latina e Ásia chegam ao país

Simon Romero, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Num continente que vem prosperando rapidamente, a Venezuela, país rico em petróleo, é exceção - a única economia sul-americana que encolheu este ano. As autoridades estão racionando a moeda forte. O governo assumiu o controle de mais empresas privadas. E o conselho de um conhecido analista financeiro para os investidores tem se resumido a uma palavra: "Fujam."

Muitos venezuelanos abastados e da classe média fizeram exatamente isso, num êxodo lento de cientistas, médicos, empresários e engenheiros. Mas, quando se caminha pelo mercado ao ar livre ao lado da Basílica de Santa Tereza, no centro velho de Caracas, a impressão é que o oposto também está ocorrendo.

Os comerciantes murmuram em árabe, urdu, hindi. Haitianos empurrando carrinhos de sorvete conversam em creole.

Camelôs nas ruas vendendo DVDs gritam em espanhol sem sotaque venezuelano. Tome um café na loja de roupas de Naji Hammoud, onde fotografias do Vale do Bekaa, no Líbano, emolduram as paredes, e perceberá que o clima é de otimismo.

"Há dinheiro nas ruas, esteja o preço do barril de petróleo a US$ 8 ou US$ 80", diz Naji Hammoud, de 36 anos, que veio do Líbano há 10 anos e não quer retornar a seu país. "Poderia ter mudado para Europa ou outro lugar e me sair bem, mas sempre seria empregado de alguém. Aqui, sou meu patrão."

A Venezuela está diante de uma espécie de quebra-cabeça imigratório.

Ao mesmo tempo em que um grande número de pessoas da classe média vai para a porta de saída, centenas de milhares de comerciantes e trabalhadores estrangeiros vêm apostando na Venezuela nos últimos anos, confundindo a noção de fuga de cérebros.

Essas duas tendências opostas refletem a crescente polarização do país. O governo do presidente Hugo Chávez, que declarou recentemente uma "guerra econômica" contra a "burguesia", desapropriou 207 empresas privadas este ano - incluindo bancos, fazendas de gado e incorporadoras -, levando muitos a buscar lugares mais seguros.

"Sinto como se, finalmente, estivesse respirando novamente", disse Ivo Heyer, de 48 anos, proprietário de uma fábrica de barcos, que transferiu toda sua produção para a Colômbia, criando mais de cem empregos ali. "Saí de um país onde o medo é constante, tanto dos criminosos quanto dos confiscos do governo, para um lugar que recebe muito bem empresas de outros ramos que não o petróleo."

Do outro lado do espectro econômico, muitos imigrantes continuam chegando com vistos de turista e acabam ficando no país indefinidamente, atraídos pelos salários que ainda são maiores do que em outros países vizinhos e também pela ampla variedade de programas sociais para os pobres aplicados pelo governo Chávez.

"Podemos viver com um pouco de dignidade aqui e pelo menos ganhamos o suficiente para enviar dinheiro para nossos parentes", disse Etienne Dieu-Seul, de 35 anos, vendedor ambulante que veio para Caracas um mês após o terremoto de janeiro, que devastou o Haiti. Logo após o desastre, o governo venezuelana concedeu vistos de residência para 15 mil haitianos que estavam no país ilegalmente.

Cerca de 4 milhões de imigrantes chegaram à Venezuela vindos da Colômbia, segundo Juan Carlos Tanus, da Associação de Colombianos na Venezuela. E ainda continuam a chegar, apesar da prolongada recessão na Venezuela e as medidas adotadas recentemente pelo governo colombiano para impulsionar sua economia e combater os grupos rebeldes.

"Na Venezuela, há trabalho para quem quiser", disse Arturo Vargas, colombiano que veio para Caracas no ano passado e encontrou emprego de vigilante. "Não é o lugar perfeito, mas é melhor do que tinha antes."

"Balseros del aire". O influxo de imigrantes é fomentado em parte pela longa tradição da Venezuela de manter políticas de imigração indulgentes - que remonta à década de 40, quando o país recebeu imigrantes europeus - e pela importância do ativo que ajudou a definir essa nação por um século: o petróleo.

Mesmo durante os períodos de flutuação dos preços dessa commodity e das desordens institucionais, as receitas das exportações de petróleo protegeram a Venezuela contra as terríveis crises que abalaram seus vizinhos no passado. Os recursos do petróleo também permitem a importação de um amplo sortimento de produtos, desde uísque francês até carros Lada russos, criando uma grande sociedade de consumo e oportunidades para vender esses produtos.

Mais de 50 mil chineses estabeleceram-se em cidades grandes e pequenas, trabalhando na maior parte como lojistas. Milhares de comerciantes e suas famílias, vindos do Líbano, Síria e Jordânia, também chegaram nos últimos anos, dando sequência a uma tradição que data de mais de um século, quando teve início a imigração árabe para diferentes regiões da América Latina.

A comunidade árabe em Caracas é grande o suficiente para lotar a mesquita Ibrahim bin Abdul-Aziz Ibrahim, uma das maiores da América Latina, localizada do outro lado da rua em que fica a Missão de Saint Charbel, dos cristãos maronitas libaneses.

Embora as razões econômicas sejam importantes, a ideologia também tem um papel nessa atração dos imigrantes. Alguns que chegam do Oriente Médio sentem afinidade com a política contenciosa da Venezuela em relação a Israel. Essa mesma política, como também o medo da violência e da economia, pesaram na decisão de migrar tomada por milhares de judeus.

São tantos os venezuelanos que vêm deixando o país que os jornais em Caracas os chamam de "balseros del aire" , aproveitando o jargão cubano para aqueles que fogem de Cuba por meio de balsas. Só que no caso dos venezuelanos, eles têm recursos para deixar o país por avião. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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