Imigrantes ilegais arriscam a vida para viver na União Europeia

Crime organizado cobra US$ 15 mil por cada clandestino transportado para dentro do bloco; travessia é arriscada

, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Coragem, criatividade, US$ 15 mil e muita sorte. É disso que precisa um cidadão de fora da União Europeia (UE) para ser transportado por criminosos do Leste Europeu para dentro do bloco. A esperança de todos é a mesma: sair da pobreza. Para isso, cada imigrante está disposto a sacrifícios. Alguns, contudo, morrem na travessia - como é comum nas florestas que cobrem as montanhas na fronteira entre Eslováquia e Ucrânia.   Vídeo com imigrantes ilegais tentando entrar nas fronteiras da UEA reportagem do Estado percorreu a nova fronteira leste da UE, dividindo os países do bloco daqueles que faziam parte da ex-União Soviética. Entre 2004 e 2007, nove países do Leste Europeu entraram para a UE. No entanto, Ucrânia, Bielo-Rússia, Albânia, Bósnia, Croácia, Macedônia, Montenegro e Sérvia continuam de fora. Em menos de dois anos, a UE gastou 2 bilhões para montar um esquema de guerra para defender suas fronteiras, com câmeras, sensores e soldados para vigiar quem tenta entrar em seu território. Como ocorre todos os anos, porém, a chegada da primavera no Hemisfério Norte e o derretimento da neve abrem mais uma temporada de imigração ilegal. Diariamente, apenas nos 100 quilômetros de fronteira entre a Eslováquia e a Ucrânia, cerca de dez imigrantes são capturados pela polícia. Ninguém sabe quantos conseguem de fato entrar na UE. Em 2004, ano da adesão da Eslováquia ao bloco, 6 mil pessoas foram presas tentando atravessar a fronteira, principalmente ucranianos, moldávios, bielo-russos e georgianos. "Eu vim para mudar de vida", afirmou Svetlana, jovem ucraniana de 21 anos que vive em Praga com sua amiga, a bielo-russa Julia, 19 anos. "É na UE que está nosso futuro", disse.No posto de fronteira da cidade de Vysné Nemecké, na Eslováquia, a mais alta tecnologia foi adotada para garantir que nenhum caminhão, carro ou ônibus vindo do leste consiga entrar com pessoas escondidas. VIGILÂNCIAO Estado acompanhou a vistoria de um caminhão que chegou da Rússia. O veículo foi escaneado por sensores que identificam corpos humanos escondidos. Em seguida, passou por raios X. "Não há como passar despercebido pelas portas oficiais à UE", disse Miroslav Uchnar, responsável pela polícia de fronteira na Eslováquia.Uchnar admite que os imigrantes estão cada vez mais criativos e perigosos. Há um ano, um grupo armado matou um dos chefes da polícia de fronteira. As redes até agora desmontadas pela polícia indicam que há um crime organizado por trás da imigração ilegal. Os criminosos transportam os imigrantes até a fronteira e esperam até a noite cair para cruzar as montanhas ucranianas abarrotadas de lobos. Ao chegar à fronteira, as estratégias variam. Alguns imitam animais para que as câmeras não os identifique. Outros, usam máscaras. Alguns, caminham de costas para não dar a impressão de que estão entrando na UE. Nos bosques, muitos morrem pelo caminho. "O que descobrimos é que muitos caminham por dias pelas montanhas e morrem de cansaço", disse Uchnar. Helicópteros, carros de neve, visores noturnos e mais de 280 câmeras fazem parte do esquema de proteção das fronteiras. Mas a tecnologia teve um impacto inesperado: fez com que o preço pago por cada imigrante para cruzar a fronteira subisse. O candidato a imigrante é obrigado a pagar hoje cerca de US$ 15 mil. Famílias de quatro pessoas têm desconto: pagam apenas US$ 50 mil - há quatro anos, esse valor era de US$ 2 mil. Há três formas de pagamento. Primeiro, o imigrante simplesmente vende tudo o que tem, até mesmo casa, para pagar por sua passagem. Outra forma é o imigrante ser escolhido pela família. Tios, primos e parentes arrecadam entre eles para conseguir os US$ 15 mil. Em troca, o escolhido garante o sustento da família enviando dinheiro. Há ainda um terceiro padrão, que é praticamente escravidão. Nesse caso, o imigrante trabalha até que sua passagem tenha sido paga. No sul da Polônia, o problema enfrentado pela polícia é outro. Na fronteira está um dos principais parques naturais do país e o governo tem problemas para convencer ambientalistas de que a região é usada por imigrantes ilegais. Recentemente, os poloneses assinaram um acordo com a Bielo-Rússia para permitir que apenas os moradores de cidades fronteiriças tenham acesso à UE.O mesmo fez a Hungria com a Ucrânia e uma série de acordos parecidos estão sendo criados para facilitar a vida dos habitantes de cidades de fronteira. Esses tratados, porém, apenas lidam com uma parte do problema. Lituânia, Letônia e Estônia ainda reforçam suas grades diante da explosão de bielo-russos que entram todos os dias.Os imigrantes que são pegos dizem que são chechenos para evitar a deportação. Como se trata de região em conflito, a UE não pode devolvê-los. A maioria cruza a fronteira sem qualquer documento para que não possa ser identificada.ASIÁTICOSA imigração ilegal atrai também chineses, vietnamitas, afegãos, paquistaneses e mongóis. Com a crise, os governos começaram a agir. Os checos estão pagando 500 e a passagem de retorno para quem quiser voltar para casa. Praga também parou de emitir vistos para países da ex-União Soviética, a exemplo de Mongólia, Tailândia e Vietnã.

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