Diane Ovalle/Divulgação
Diane Ovalle/Divulgação

Imigrantes ilegais cruzam EUA para reivindicar direitos

Ônibus de indocumentados vai da Flórida a Charlotte para pressionar candidatos

Fernanda Santos, especial para O Estado

02 de setembro de 2012 | 22h00

O ônibus, velho e abusado pelos muitos quilômetros rodados, estava carregado de imigrantes ilegais prestes a embarcar numa longa e arriscada jornada - uma viagem através dos EUA, desde a cidade de Phoenix, no Arizona, até Charlotte, na Carolina do Norte. A chegada estava prevista para domingo, 2, na mesma semana em que o Partido Democrata dá início à sua convenção por lá, fazendo oficial a nomeação de Barack Obama como o seu candidato à reeleição. O timing não é coincidência.

Entre os passageiros estão mães e pais, jovens e idosos, gente que cruzou a fronteira há poucos anos e gente que já leva mais anos nos EUA do que no seu país de origem. Quase todos são mexicanos, a nacionalidade mais comum entre os imigrantes indocumentados neste país. Todos compartilham o mesmo desejo de sair das sombras e pressionar as forças políticas americanas a encararem um problema que, neste ano de eleições presidenciais, ninguém quer abordar: O que fazer com os imigrantes ilegais que moram por aqui?

Imigração é tema complicado nos EUA, uma verdadeira bomba que, por mais que queiram, nem Obama nem seu rival republicano, Mitt Romney, têm como evitar. Para eles, o imigrante ilegal é uma espécie de leproso: melhor manter-se distante. Mas os partidos, em plataformas reveladas às vésperas de suas respectivas convenções (os republicanos se reuniram na semana passada, na Flórida), indicaram, em poucas palavras, a maneira como os veem.

Os republicanos os chamam de "illegal aliens," ou estrangeiros ilegais, um termo técnico usado pelas autoridades migratórias americanas e, ao mesmo tempo, uma maneira pejorativa de referir-se aos "undocumented immigrants," ou imigrantes indocumentados, que é como os democratas preferem chamá-los. "Linguagem bondosa não resolve a minha vida", María Cruz Ramírez, uma imigrante indocumentada de 46 anos com marido e três filhos na mesma situação, disse a bordo do ônibus, que no momento cruzava a cidade de Selma, no Alabama. Foi em Selma que negros americanos marcharam, sob protestos e pauladas, pelo direito ao voto nos anos 60 - e é no Alabama que, hoje, os imigrantes são alvo de uma lei repressiva que dá direito à polícia local de verificar o seu status no país, função antes reservada apenas às autoridades federais.

Uma lei como esta foi aprovada pela primeira vez em 2010 no Arizona, Estado do sudoeste americano que faz fronteira com o México que, há anos, é um dos principais portos de entrada para drogas e imigrantes ilegais nos EUA. O fenômeno se deu por causa da política de segurança nacional adotada ao longo dos 3.169 quilômetros de fronteira entre os dois países. Os EUA construíram muralhas; despacharam milhares de agentes para patrulhar a área, mais do que em qualquer outro momento na sua história; e instalaram sensores, câmeras e outras engenhocas para detectar o movimento de pessoas.

Reforçar o inóspito deserto que é a região fronteiriça no Arizona foi e continua sendo um difícil desafio. Mas, apesar dos riscos envolvidos em fazer a travessia por lá, foi para onde levaram a maioria das pessoas, entre elas muitos brasileiros. Milhares já morreram ou se entregaram às autoridades, vencidos pela sede e pelo calor. Foi apenas quando o Arizona começou a implementar leis voltadas ao combate à imigração ilegal - e quando a recessão cortou o número de empregos disponíveis no setor de construção civil - que o fluxo começou a diminuir.

"As pessoas tomaram a decisão de evitar entrar nos EUA pelo nosso Estado em razão do medo de serem presas, julgadas e condenadas", disse Jonathan Paton, ex-senador estadual do Arizona e forte partidário da sua política anti-imigração. "O restante do país quer mão de obra barata e quer drogas, e o Arizona se encontrou no meio dessa rota de abastecimento . Os nossos problemas só vão se resolver com o fim da imigração ilegal."

É um objetivo praticamente impossível de se alcançar, principalmente agora que a onda de leis contra imigração ilegal que se espalhou do Arizona para várias outras partes dos EUA parece prestes a morrer na praia. Em junho, a Suprema Corte invalidou partes da lei do Arizona; as que autorizou ainda estão sendo disputadas na Justiça, pois grupos de proteção aos direitos civis acreditam que possam causar discriminação aos latinos, que compõem 36% da população do Estado.

"Outros Estados se dão conta de que a experiência do Arizona, pelo menos no que diz respeito à sua lei contra imigrantes, foi um fracasso", disse Alessandra Soler, diretora executiva da American Civil Liberties Union no Arizona, um grupo que trabalha pela defesa dos direitos civis nos EUA. "O Arizona pagou um preço alto, não só econômico", com o boicote lançado por empresas e artistas em defesa dos imigrantes.

Apesar disso, pouco mudou - ou melhorou - para os imigrantes indocumentados. Em partes do Arizona, há entre eles, hoje mais do que nunca, receio de sair nas ruas, de participar de reuniões nas escolas de seus filhos, de ir a hospitais públicos quando estão doentes, tudo porque temem serem descobertos.

O medo tem levado muitos pais que antes iam e vinham pela fronteira ilegalmente, mas sem problemas, a mandar buscar os filhos que deixaram para trás, nos seus países de origem. O número de crianças apreendidas ao tentar cruzar a fronteira continua crescendo, ao mesmo tempo em que o número de apreensões de adultos é cada vez menor. Só neste ano, a Justiça iniciou processo de deportação contra 11.000 menores desacompanhados, mais do que o dobro em todo o ano passado.

Obama ofereceu uma solução parcial e temporária ao concordar em dar uma autorização de trabalho válida por dois anos para imigrantes indocumentados que tenham sido trazidos ilegalmente para os EUA quando crianças, que tenham completado o ensino médio e não tenham antecedentes criminais, entre outros critérios. As estimativas são de que 1,7 milhões de jovens estariam qualificados.

Mas e os outros 9 milhões de imigrantes ilegais que se estima estar no país? María Cruz e os outros passageiros no ônibus esperam encurralar o presidente na Carolina do Norte e forçá-lo pelo menos a reconhecer que eles também precisam de uma solução. Sair das sombras e mostrar as caras foi uma tática pelos negros americanos cansados de serem segregados, pelos gays nas Forças Armadas cansados de terem de manter sua sexualidade em segredo e pelos jovens imigrantes que conseguiram atenção e ação mesmo em um ano de eleição.

"Agora temos de convencer Obama a honrar a promessa que fez" disse María Cruz, referindo-se à proposta do presidente de reformar a política de imigração. "Ele contou com o voto do imigrante, com o voto latino, para eleger-se, e vai precisar do voto latino para a reeleição. O poder de mudança está nas mãos dele", acrescentou, "Mas também nas mãos dos imigrantes que votam."

A AUTORA É CHEFE DA SUCURSAL DE ‘THE NEW YORK TIMES’ EM PHOENIX, ARIZONA

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