EFE/Ron Sachs **POOL**
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Imigrantes ilegais temem o pior durante governo Trump

Novo presidente não disse como pretende deportar milhões de imigrantes sem documentos nem se planeja realizar batidas em firmas

Amy Chozick / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2017 | 15h06

Anthony Barroso tinha 13 anos e estava se preparando para ir à escola quando vieram procurar seu pai. Assim que Anthony abriu a porta, viu que os homens do lado de fora não eram da polícia local. Em seu colete à prova de balas via-se a sigla da Agência de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).

Eles prenderam e deportaram o pai de Anthony, um equatoriano que trabalhava ilegalmente como empreiteiro há mais de uma década. Um oficial alertou Anthony, enquanto sua irmã chorava, que eles logo voltariam atrás de sua mãe.

"Tudo acabou depois daquilo", conta Anthony, cuja mãe logo caiu na miséria extrema. Ele agora é aluno de uma faculdade comunitária e pôde ficar nos Estados Unidos graças a um perdão assinado pelo presidente Barack Obama.

A batida, em 2007, foi uma entre as centenas de ações federais visando imigrantes que trabalhavam ilegalmente e que foram levadas a cabo durante o segundo mandato do presidente George W. Bush. As batidas perderam o ritmo durante o governo Obama, que deportou um recorde de 2,5 milhões de imigrantes desde 2009, em grande medida concentrando-se em pessoas que cruzaram a fronteira há pouco tempo, empregadores que contratavam imigrantes ilegais e imigrantes com condenações criminais.

Mas como o presidente eleito Donald Trump promete deportar de dois a três milhões de imigrantes sem documentos que cometeram crimes, especialistas bipartidários dizem esperar a volta das batidas que pegavam milhares de trabalhadores em lava a jatos, frigoríficos, fornecedores de frutas e em suas casas durante o governo Bush.

"Se Trump realmente quiser aumentar acentuadamente o número de prisões, detenções e deportações, acho que tem que realizar batidas em empresas", afirma Michael J. Wishnie, professor da Faculdade de Direito de Yale que representa detidos em casos de direitos civis.

Desde a eleição, Trump sugeriu que pretende se concentrar em deportar criminosos. "O que nós vamos fazer é pegar os criminosos, quem tem ficha criminal, membros de gangues e traficantes de drogas. Vamos tirá-los do nosso país ", ele declarou à CBS News em novembro.

Só que os consultores de Trump dizem que, para chegar rapidamente ao número alvo de deportações, a definição de criminoso precisaria ser ampliada. Em julho de 2015, o Migration Policy Institute, "think tank" bipartidário, estimou que dos quase 11 milhões de imigrantes morando ilegalmente nos EUA, 820 mil teriam ficha criminal - definição mais seguida por Obama durante seu segundo mandato, expulsando perto de 530 mil condenados por crimes desde 2013.

Trump precisaria ampliar a definição para incluir quem mora ilegalmente nos EUA e que foi acusado de crime, mas não condenado, quem têm visto de permanência vencido, os que cometeram pequenas infrações e os suspeitos de serem membros de gangue ou traficantes de drogas.

Concentrar-se em trabalhadores por crimes ligados à imigração, tais como utilizar um número falsificado ou roubado da Previdência Social ou carteira de habilitação, produziu um aumento durante o governo Bush. A prática, entretanto, foi criticada por dividir famílias, destruir empresas que dependiam de mão de obra imigrante e por visar pessoas que iam trabalhar todo dia, em vez de criminosos perigosos.

Durante o segundo mandato de Bush, as deportações aumentaram de 246 mil para 360 mil, enquanto o número de imigrantes condenados por crimes que foram deportados permaneceu praticamente estagnado, segundo dados do governo. Um relatório de 2007 do National Council of La Raza e do Urban Institute, analisando batidas em locais de trabalho em Massachusetts, Colorado e Nebraska, afirma que a maioria das crianças afetadas pela prisão e deportação dos pais era cidadã norte-americana, crianças pequenas ou bebês.

Em 2009, a Suprema Corte decidiu por unanimidade que as leis relativas a roubo de identidade não podem ser usadas contra trabalhadores ilegais que utilizaram números falsos da Previdência Social para arrumar emprego, a menos que os trabalhadores soubessem que os números pertenciam a pessoas reais.

"Esses são os mais fáceis de pegar: imigrantes sem documentos, não perigosos e com família", afirma John Sandweg, ex-diretor interino da polícia de imigração no governo Obama. "Essas pessoas não se escondem. Criminosos se escondem."

Michael Chertoff, secretário de Segurança Interna do governo Bush, defendeu as batidas em locais de trabalho. Para ele, essas ações demonstraram ser um jeito de proteger os trabalhadores ao obstruir o "ecossistema do contrabando", que incentiva os migrantes a entrar sorrateiramente no país e favorece empregadores que os contratam para trabalhar ilegalmente, em condições não regulamentadas e, muitas vezes, desumanas.

"Vimos que isso é eficaz de forma direcionada. A gente não parava aleatoriamente em uma empresa e fazia a batida", declara Chertoff.

Trump não disse como pretende deportar milhões de imigrantes sem documentos nem se planeja realizar batidas em firmas.

Um porta-voz de Trump, Jason Miller, disse que "estamos herdando a pior crise de imigração ilegal na história moderna dos EUA, e vamos precisar criar uma abordagem multifacetada para proteger a economia do país e a segurança nacional".

Sarah Rodriguez, porta-voz da polícia de imigração, a ICE, diz que não pode especular o que o futuro governo fará.

Batidas em locais de trabalho viraram uma marca registrada do segundo mandato de Bush e aumentaram acentuadamente depois que sua tentativa de reformar o sistema de imigração fracassou.

Em uma operação coordenada em 2006, policiais da imigração entraram em vários frigoríficos da Swift em estados do Meio-Oeste, levando à prisão de estimados 1.300 trabalhadores imigrantes. Dois anos depois, os policiais invadiram um frigorífico "kosher" em Postville, Iowa, prendendo 400 funcionários, quase 20 por cento da população rural da cidade.

Histórias de agentes da polícia da imigração invadindo o chão de fábrica, a cozinha do restaurante ou seguindo os trabalhadores até em casa para prendê-los lá, levou a tamanho pavor de "La Migra", gíria em espanhol para a polícia da imigração dos EUA, que elas inspiraram um gênero de baladas mexicanas, os "migra corridos".

Ativistas dizem que as cenas fortes de agentes da ICE transportando em massa trabalhadores sem documentação poderiam agradar a Trump, ex-astro de reality show.

"Se você quiser cumprir a lei criando imagens, isso vem a calhar", afirma Muzaffar Chishti, advogado e diretor do Instituto de Política de Migração da Universidade de Nova York.

Mas ele acrescentou que as batidas também poderiam significar uma "trombada na imagem de Trump, que quer ser um presidente do motor econômico", já que a medida prejudica empresários.

Para Chertoff, idealmente o Congresso concederia a "pessoas que trabalham com afinco" uma saída legal para preencher postos em setores como o frigorífico e o agrícola, onde existe escassez de mão de obra. "Até isso acontecer, a lei é a lei, e se você não aplicar a lei, termina incentivando pessoas a violá-la."

Em 2011, as batidas em empresas caíram 70 por cento na comparação com o último ano do governo Bush, e políticos republicanos imploraram para Obama voltar à era das apreensões maciças em firmas.

Em vez disso, Obama iniciou um aumento drástico das "batidas por documentos", investigações sobre empregadores suspeitos de contratar trabalhadores ilegais. Desde janeiro de 2009, a ICE auditou mais de 8.900 empresas e aplicou mais de US$ 100,3 milhões em multas, segundo dados do governo. Obama também supervisionou uma alta nas apreensões de travessias de fronteira, que contribuíram para o número recorde de deportações de seu governo.

"Com Obama, nós pensávamos que ele iria caminhar sobre a água, mas ele nos jogou debaixo do ônibus", afirma Frank Sharry, fundador e diretor executivo do America's Voice, grupo defensor da imigração.

As batidas em empresas foram tema de processos alegando que as autoridades da imigração violaram proteções constitucionais contra o perfil racial e revistas insensatas.

Teresa Vara Gonzalez, 46 anos, de Morelos, no México, estava nos Estados Unidos há 26 anos quando os agentes da ICE a prenderam em 2007.

Teresa e outros imigrantes presos na área de New Haven entraram com uma ação judicial. A ICE propôs um acordo, sem admitir erros, e os imigrantes receberam pagamentos em dinheiro e permissão para permanecer temporariamente no país.

Agora, ela teme virar alvo novamente no governo Trump. "Ele diz que mesmo com documentos não gosta de nós", declarou durante pausa no trabalho em um trailer de tacos pintado com opções de lanche como "taco al pastor".

Em maio, o xerife Joe Arpaio, do condado de Maricopa, no Arizona, consultor de Trump durante a campanha presidencial, teve uma vitória jurídica quando um tribunal de apelação federal suspendeu uma ordem judicial impedindo-o de realizar batidas em empresas para aplicar leis estaduais que tornam ilegal um imigrante usar identificação roubada para conseguir um emprego. Mesmo assim, a abordagem linha-dura contribuiu para que fosse afastado do posto em novembro.

Durante entrevista, Arpaio não quis comentar se orientou o presidente eleito sobre políticas de imigração e fronteira, mas disse que "existe um jeito de impedir o problema, mas é preciso contar com a vontade do presidente". Ele se diz "otimista".

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