ANDREI NETTO/ESTADAO
ANDREI NETTO/ESTADAO

Imigrantes instalados em Calais vivem na miséria

Centenas de pessoas carecem de água potável e atendimento médico de qualidade; mesmo com a aceleração do processo de asilo, refugidos permanecem desalojados e continuam vivendo no que eles chamam de ‘selva’

O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2015 | 10h45

PARIS - Direitos básicos e compaixão estão em falta para centenas de imigrantes que se instalaram na cidade de Calais, na França. Muitos deles estão fugindo de conflitos na Síria e no Iraque, e mesmo assim, instalaram-se na maior e mais miserável favela da União Europeia.

Eles sonham com o fim de uma longa jornada na Grã-Bretanha, depois que conseguirem cruzar ilegalmente o Canal da Mancha. Mas os britânicos não os querem no país, e a França espera há mais de uma década que os refugiados parem de chegar.

Com os olhos do mundo sob os mais de meio milhão de imigrantes que tentam chegar à Europa, os franceses estão começando a conhecer melhor o imundo campo de Calais e as condições do local que essas pessoas chamam de “selva”, uma rede de abrigos improvisados sem água ou comodidades básicas.

Com a proximidade do inverno europeu, o governo está enviando uma missão médica para Calais nesta quarta-feira, 14, para avaliar a situação. “A proteção da saúde é um direito fundamental para cada pessoa no território da França”, informou em um comunicado os ministérios do Interior e Saúde.

Para a ONG Doctors of the World, que mantém uma clínica móvel em Calais, o esforço é bem-vindo, mas atrasado. Nessa região, “estamos fazendo um trabalho urgente, como em um contexto de guerra ou de catástrofe natural”, afirmou Jean-Francois Corty, médico que lidera as operações do grupo na França.

“Para nós, isso é uma crise de saúde; 4 mil pessoas que têm problemas tentando se manter limpas, se alimentar e sofrendo de traumas de guerra em seus países e violência no campo”, disse Corty.

A ONG está sobrecarregada e trata cerca de 70 pacientes por dia no campo de Calais, a maioria por doenças respiratórias e infecções de pele ligadas às suas vidas precárias, ou cortes e fraturas de manobras falhas ao tentar subir a bordo de um caminhão, trem ou balsa para atravessar o Canal da Mancha.

O Hospital de Calais é longe do campo e está “saturado”, explica Corty. O único outro serviço médico é uma janela diárias de duas horas para consultar enfermeiras em um centro de imigrantes aprovado pelo Estado, onde cerca de 100 mulheres e crianças ficam.

“O que é necessário hoje é levar médicos, psicologistas, enfermeiras e dentistas para o local”, destacou Corty. “Temos denunciado isso por meses. Estamos fazendo o trabalho do Estado.”

Os governos da França e da Grã-Bretanha têm focado na segurança do porto de Calais e no transporte através do Eurotúnel e de trens de passageiros, transformando o local em fortalezas com cercas altas cobertas de arame farpado.

A segurança reforçada aumentou os riscos. Desde 26 de junho, a polícia contabilizou 13 mortes entre os membros do grupo que está em Calais, no qual há entre 3 mil e 3,5 mil imigrantes.

Em 2003, a Grã-Bretanha assinou um acordo com Paris com o objetivo de manter os imigrantes na França, mas os refugiados continuam chegando. Mais de 4 mil pessoas adoeceram no campo de Calais e nas cidades próximas.

O grande desejo de chegar à Grã-Bretanha e uma sensação de desespero dentro do campo alimenta a necessidade de se arriscar. “Algumas pessoas morrem aqui, algumas pessoas quebram as pernas”, disse Mustafa Ali, um jovem de 19 anos que saiu de Darfur, no Sudão, e chegou a Calais após uma jornada ameaçadora. “Essa selva não é boa.”

Ele contou que desistiria de seu sonho de chegar ao território britânico e tentaria pedir asilo na França se o governo lhe desse um abrigo. Mas muitos que conseguiram o status de refugiados, e deveriam por lei ser alojados, precisam viver ao ar livre.

Jacky Veringan da associação Secours Catholique, que auxilia os imigrantes a processarem os pedidos de asilo, diz que o fluxo de refugiados que atingiu a região francesa levou o governo a acelerar a longa demora do sistema.

O processo se tornou tão rápido que alguns imigrantes recebem o asilo sem ter sido alojados. Com isso, “eles são como franceses sem-teto”, disse Veringan. “Há refugiados vivendo na selva.” /ASSOCIATED PRESS

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