ACERVO / A. Shibayama Family Collection
ACERVO / A. Shibayama Family Collection

Imigrantes levados à força para os EUA na 2ª Guerra exigem reparação

Famílias de japoneses, alemães e seus descendentes foram capturados, enviados para território americano e presos em campos de trabalho forçado, dos quais parte saiu em trocas por prisioneiros; eles denunciam violações aos direitos humanos

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

19 Março 2017 | 05h00

WASHINGTON - Art Shibayama tenta há três décadas receber um pedido de desculpas e uma indenização satisfatória do governo americano por ter sido retirado à força do Peru, onde nasceu, e levado com sua família para um campo de detenção no Texas durante a 2.ª Guerra. Cerca de 2,2 mil japoneses e seus descendentes que viviam em 12 países da América Latina foram entregues aos EUA naquele período.

Um dos principais objetivos da operação era utilizá-los como moeda de troca por prisioneiros de guerra americanos mantidos pelo Japão. Dos 2,2 mil, quase mil foram enviados ao país asiático durante ou depois do conflito. Entre eles, estavam os avós maternos de Shibayama, Kinzo e Misae Ichibashi, que haviam imigrado para o Peru no início do século passado. “Eu nunca mais os vi.”

Na terça-feira, Shibayama apresentará sua história à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), na esperança de obter o que lhe foi negado pelo Judiciário e pelo Legislativo americanos: o mesmo pedido de desculpas e a mesma indenização dada aos japoneses presos que eram cidadãos americanos ou residentes legais no país.

Em 1988, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei que determinou o pagamento de US$ 20 mil aos cerca de 120 mil nipo-americanos mantidos em campos de detenção durante a guerra. 

Os peruanos representavam 80% dos que foram levados aos EUA de países da América Latina – o Brasil não estava entre eles. Depois da guerra, eles foram impedidos de retornar ao Peru e tiveram de permanecer nos Estados Unidos, onde foram inicialmente tratados como imigrantes ilegais, apesar de terem sido levados para os Estados Unidos contra sua vontade e pelo próprio governo americano.

Reivindicação. Excluídos da legislação de 1988, Shibayama e dois de seus irmãos aderiram a uma ação coletiva iniciada por outros ex-prisioneiros latino-americanos na busca de reparação. O caso foi encerrado em 1999 com indenização de US$ 5 mil e um pedido de desculpas que não fazia menção a japoneses nem a peruanos. 

Shibayama e seus irmãos recusaram a oferta por considerá-la discriminatória e iniciaram uma nova ação, na qual foram derrotados, sob o argumento de que não eram cidadãos nem residentes legais no período em que seus direitos foram violados. “Os japoneses de origem latino-americana sofreram um dano adicional, já que foram retirados de seus países contra sua vontade, tiveram seus documentos confiscados e, quando chegaram nos Estados Unidos, foram acusados de entrar ilegalmente no país”, disse o advogado Paul Mills, que representa os irmãos.

Antes da guerra, a família de Shibayama tinha um próspero negócio de importação e venda de tecidos e roupas, que garantia aos filhos uma vida abastada típica das elites latino-americanas, com empregadas domésticas e choferes. Suas vidas mudaram de maneira abrupta em março de 1944, quando foram forçados a deixar tudo que tinham para trás e embarcar em um navio rumo aos Estados Unidos.

Com 13 anos, Art era o mais velho de seis irmãos e viajou no porão com o pai, Yuzo. Em cada um dos 21 dias que durou a travessia, eles podiam subir ao deck por dois períodos de 10 minutos, durante os quais as mulheres e crianças eram trancados em suas cabines. Art só voltou a ver a mãe, Tatsue, quando o navio atracou em New Orleans. “Eu me sentia perdido e não tinha ideia do que ia acontecer.” Pelos dois anos e meio seguintes, sua família viveu no campo de detenção de Crystal City, no Texas, para onde vários outros dos latino-americanos capturados foram levados.

Seu pai havia chegado ao Peru em 1922, quando tinha 15 anos, e tentou retornar ao país depois da guerra, sem sucesso. Depois de três anos, desistiu e se estabeleceu em Chicago, onde Art trabalhou durante anos como mecânico. Yuzo morreu no fim dos anos 70, sem receber nenhum dos pedidos de desculpas apresentados pelo governo dos EUA aos japoneses e seus descendentes.

 

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