Rick Wilking/ Reuters
Rick Wilking/ Reuters

Imigrantes que votam pela primeira vez sabem quanto está em jogo nesta eleição

'Alguns de nós viemos de um lugar onde as coisas são muito piores e sabemos o quão importante é a próxima semana', diz Grace Okono

Petula Dvorak, The Washington Post

29 de outubro de 2020 | 20h13

WASHINGTON - Ahmed Mikhlif tem 42 anos e vai votar pela primeira vez na vida na próxima semana. No seu país, o Iraque, onde a agitação civil e regimes corruptos perturbam o governo, votar sempre foi apenas "votar".

"Aqui, você vota em duas ou talvez três pessoas", disse Mikhlif. "No Iraque, havia apenas uma pessoa. Não era votação. Você gosta ou não gosta dessa pessoa. E isso era tudo."

Mikhlif e sua mulher tornaram-se cidadãos americanos em dezembro e estão se juntando à crescente população de cidadãos naturalizados aptos a votar.

Seus números quase dobraram nos últimos 20 anos, de acordo com o Pew Research Center - e eles variam de tradutores a ajudantes de garçom, de professores a médicos.  

Eles também incluem a atriz Helen Mirren, que recentemente se tornou cidadã dos EUA e votou na cidade de Minden, Nevada, e o comediante Jimmy O. Yang, cuja sátira dos pais imigrantes o tornou querido por gerações de crianças orgulhosas dos sotaques e das peculiaridades de seus pais.

Fazem parte desse grupo também Maha al-Obaidi. Ela demorou 66 anos para se sentir parte de seu próprio governo. No Iraque, ela disse que as cédulas estavam mudando e ninguém sabia se era algo justo. Então, dois de seus filhos e marido foram sequestrados e a família teve de pagar resgates exorbitantes. Eles tiveram de fugir.

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Hoje, ela está em Astoria, bairro do Distrito de Queens, votando como americana. "Agora, sinto que este é o meu país. Tenho as minhas raízes aqui", disse.

Ela espera que seu voto possa ajudar a mudar a política dos EUA - como a proibição de viagens do presidente Donald Trump - que mantém seus dois filhos retidos na Jordânia, impedidos de viajar.

O primeiro voto de Saba Barkneh como americana não poderia ter sido mais americano. "Foi em um drive-through", disse ela. "Foi fácil. Feito em 10 minutos. E eu ganhei um adesivo."

Nada parecido com o que seus parentes na Etiópia sofrem nas urnas - incluindo um esforço apenas para viajar até eles.

"Estou aprendendo com meus parentes que votar é uma luta lá", disse Barkneh, de 45 anos, maratonista e nutricionista da Goodwin House no Condado de Prince William, uma instituição para idosos que tem um programa para ajudar novos imigrantes a se tornarem cidadãos naturalizados . "Ser capaz de acessar os sites de votação, as pessoas pensam: 'Meu voto não está contando.' As pessoas não sentem que seu voto está fazendo diferença."

Esses eleitores de primeira viagem trazem consigo uma admiração pela democracia americana, os ideais que eles vêm adorando há anos. E eles têm a urgência para manter uma resplandecência sobre uma colina, especialmente ao verem a escuridão da eleição deste ano.

Mikhlif, que trabalhou como tradutor para os militares dos Estados Unidos no Iraque por oito anos, ficou surpreso ao ver o sentimento anti-imigrante e anti-muçulmano quando ele, sua mulher e seus filhos chegaram a Charlottesville.

Ele trabalha com outros imigrantes por meio do programa International Neighbours e espera que o voto na terça-feira faça alguma diferença não apenas nas políticas em relação aos imigrantes, mas também nas atitudes. “A América foi construída sobre os ombros de imigrantes”, disse ele.

A divisão na América hoje têm sido chocante para a família de Diana Mateo, que emigrou da Guatemala quando ela tinha 9 anos. "O ideal que eles tinham em mente está manchado", disse a paralegal de 25 anos.

Andrew Martin nunca votou quando morava em sua terra natal, a África do Sul, de onde saiu quando tinha 25 anos. "Estou agora com 39 anos. Uma coisa que me inspirou a votar aqui é a ideia de que meu voto pode realmente valer", disse Martin, que quando deixou seu país, ele ainda contava com perigosas desigualdades apesar do fim do apartheid. "Na África do Sul, nunca me senti assim."

Martin chegou à América em 2007 como "um jovem imigrante de olhos arregalados que estava esperançoso de ter entrado direto no 'Sonho Americano'".

"O que tenho visto desde 2016 não é apenas constrangedor, é triste, muitas vezes assustador e, francamente, extremamente deprimente", disse ele, sobre a ascensão do antisemitismo, supremacia branca e sombras de autoritarismo.

"Eu sei que tenho sorte. Sou um homem branco que fala inglês", disse ele. “Mas fico completamente desligado quando as pessoas mencionam o 'sonho americano'. Esta América não é um sonho - é para isso que as pessoas vêm à América, para escapar."

Grace Okono diz que é urgente a sua missão de fazer com que outros americanos entendam o perigo que a nação está enfrentando.  

"Os americanos devem estar em alerta", disse Okono, de 45 anos, que morava em Camarões e já residiu em Gana e Nigéria antes de ir para os Estados Unidos estudar em Washington, há mais de 20 anos. "Quando você tem algo muito bom, tão bom quanto os americanos têm, eles têm que aprender a lutar para mantê-lo e protegê-lo, assim como qualquer coisa que é confiada a você."

Os argumentos sobre a supressão do voto, as audiências no tribunal sobre cédulas pelo correio e a confusão nesta eleição a preocupam. Eles são muito familiares. “Eles são uma reminiscência de um regime corrupto”, disse ela.

Portanto, foi com uma urgência deliberada que Okono concluiu seu processo de cidadania e levou a filha com ela para votar em sua nova cidade natal, Frisco, Texas.  “Alguns de nós imigrantes viemos de um lugar onde as coisas são muito piores”, disse ela. "E sabemos o quão importante é a próxima semana." 

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