Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Imigrantes relatam extorsão e abuso policial nas fronteiras da Hungria

Jovem de 16 anos conta que teve pescoço cortado e parte do dedo arrancada ao tentar sair da Sérvia e cruzar cerca

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / OBRENOVAC, SÉRVIA, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2017 | 05h00

Na nuca e no pescoço de Suleiman, os pontos de um corte profundo feito pelo arame farpado são visíveis. A ponta de seu dedo foi arrancada pela mordida de um cão policial. Seu celular, destruído. Os ferimentos sofridos pelo garoto afegão de 16 anos ocorreram na fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Aquela era a terceira vez em que ele tentava entrar na Hungria e avançar em países europeus. Mais uma vez, a cerca construída pelos húngaros o havia parado e, desta vez, o obrigou a ir a um hospital local. 

No ano passado, depois de tomar a decisão de deixar de ser uma rota para refugiados, o governo da Hungria construiu uma cerca de arame farpado nas fronteiras com Sérvia e Croácia, trajeto de mais de 520 quilômetros. Budapeste insiste que a tática funcionou. O fluxo, que chegou a 10 mil pessoas por dia, caiu para apenas 10. 

Mas imigrantes, refugiados, entidades de direitos humanos e de ajuda humanitária alertam que a barreira foi acompanhada por um surto de violência e extorsão contra os estrangeiros. Além disso, há casos registrados de imigrantes que chegaram a fazer 27 tentativas de atravessar a cerca. 

Dados oficiais das Nações Unidas indicam que, desde dezembro, mais de 600 pessoas foram ilegalmente rejeitadas pelos húngaros, que os deportavam em grupo numa tentativa de deixar claro a imigrantes, refugiados e contrabandistas de que mesmo quem conseguir cruzar a fronteira terá sua estadia recusada. “Toda a deportação de refugiados é ilegal”, afirmou à reportagem o Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). 

Captura. O afegão Suleiman conta que, em duas ocasiões, conseguiu de fato atravessar o arame farpado. “Foi à noite, depois de horas andando pela floresta”, disse. Ele e outros estrangeiros eram conduzidos por guias que, com a ajuda de sérvios, encontravam caminhos inusitados para chegar até partes da barreira que estavam menos vigiadas. 

Mas, nas duas vezes, acabou sendo pego por policiais húngaros. “Aquelas pessoas não têm coração e nos tratavam como criminosos perigosos”, disse. “Quando já estávamos sob o controle deles, eles retiravam a focinheira dos cachorros e os soltavam sobre nós. Foi horrível”, disse. O garoto conta que aqueles que gritam são retirados do grupo, colocados de cócoras e alvo de dois cachorros ao mesmo tempo. 

Os relatos de Suleiman foram confirmados ao Estado por Unicef, Acnur e pela entidade Save the Children, que denunciam abusos por parte dos policiais. O governo húngaro jamais respondeu aos pedidos de esclarecimento da reportagem. 

Mas foi a terceira tentativa de Suleiman a que mais o abalou. “Fiquei preso no arame farpado, enquanto meu pescoço sangrava. As pessoas que estavam comigo fugiram e eu nunca mais os vi. Mas quando a polícia húngara me viu, no lugar de ajudar, voltaram a soltar os cachorros e um deles comeu a ponta de meu dedo”, disse. 

Se até aquele momento o garoto se recusava a ir a um dos centros de acolhida no lado sérvio da fronteira, os ferimentos o obrigaram a mudar de estratégia e, hoje, ele vive em Obrenovac, um vilarejo a cerca de 50 quilômetros de Belgrado. Limpo, o local era uma caserna para soldados sérvios, transformada em centro para refugiados. 

Ali, Suleiman recebe comida e está abrigado do frio, além de ter atendimento médico. Mas sabe que está distante de seus contatos com os traficantes que o levariam ao outro lado da fronteira. Seu nome já foi entregue às autoridades húngaras que avaliam pedidos de refúgio, mas não há projeção de quantos anos o exame dos dados de Suleiman poderia levar. 

Desespero. O garoto afegão não é o único a relatar incidentes de violência e a polícia não é a única inimiga. Quando o Estado visitou Obrenovac, na semana passada, um grupo de paquistaneses estava em choque. Um de seus amigos, Rahmat Ullah, morreu congelado em um rio ao tentar chegar à Hungria. Ele fazia parte de um grupo de 15 pessoas que estavam sendo levadas por contrabandistas que cobravam ¤ 2 mil por pessoa para fazer a travessia. 

Os sobreviventes contaram que os contrabandistas ordenaram que os imigrantes cruzassem um rio congelado em direção a Horgos, na Hungria. Ullah foi o primeiro, mas o gelo se rompeu e ele foi levado pela correnteza que circulava por baixo. “Ullah nos dizia que não sabia nadar e por isso não havia tomado a rota entre a Turquia e a Grécia”, contou um deles. 

Um engenheiro elétrico paquistanês, que pediu para não ser identificado, afirmou estar no mesmo grupo. Aquela era sua quinta vez tentando cruzar a fronteira, sem sucesso. Ele lembra de como, em uma das vezes que foi pego, teve seu celular quebrado e todo seu dinheiro tomado pelos policiais húngaros. “Eles me diziam: paquistanês é m... muçulmana, volte para o seu país.”

Extorsão. Para vários dos estrangeiros nos centros de acolhida na Sérvia, o drama não se limita ao gelo. Os traficantes que estavam com o grupo de Ullah fugiram com o dinheiro de todos, cerca de ¤ 30 mil. “Eles são sempre muito gentis quando estão tentando te convencer a cruzar a fronteira”, diz Suleiman sobre os traficantes. “Dizem que vão cuidar de você. Mas depois são verdadeiros animais, uma vez que você entrega o dinheiro”. 

Afsar, de 24 anos, é outro que conta com detalhes as extorsões que sofreu desde que saiu do Afeganistão. Hoje, ele está bloqueado no centro de atendimento aos estrangeiros de Krnjaca, local que nos anos 90 foi construído para receber servo-croatas na guerra que fez desmoronar a Iugoslávia. 

Afsar passou a fazer parte de uma lista negra do Taleban de jovens que haviam colaborado com a Otan. “Recebi a notícia de que iria morrer. Naquela mesma noite deixei minha família, levando todo o dinheiro que eu tinha”, disse. Na viagem, ele ainda vendeu suas alianças, além de outras pequenas joias que a família tinha acumulado. “Levei tudo o que meus pais tinham acumulado em suas vidas”, lamentou.

Mas sua primeira surpresa foi quando, já na Turquia, conseguiu um emprego em uma obra, na esperança de reunir o suficiente para pagar o que os traficantes exigiam para prosseguir viagem na Europa. “No primeiro mês, recebi apenas a metade do que havia sido combinado. Quando fui reclamar, o patrão alertou que me denunciaria para a polícia por estar de forma ilegal no país”, disse.

Ele acabou ficando quase um ano na Turquia para reunir o dinheiro necessário e tentar chegar à Alemanha. Quando chegou à Bulgária, no entanto, foi alvo de violência e extorsão por parte da polícia. “Pediam dinheiro para não nos levar para prisões. Eu paguei uns ¤ 100.” Ele também relata que serviços teoricamente gratuitos nos campos de acolhida acabam sendo cobrados por oportunistas. 

Dois anos depois de deixar Cabul no meio da noite, Afsar diz já ter tentado cruzar a fronteira da Europa em 27 ocasiões, todas frustradas por conta da cerca na Hungria, da violência, do frio, da extorsão e da mentira dos traficantes. “Eu vou continuar tentando. Aqui, no campo de refugiado (de Krnjaca), eu tenho uma cama. Mas não tenho futuro”, completou. 

 

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